segunda-feira, 27 de junho de 2011

Os Cinco coelhinhos

Era uma vez, há muito tempo, uma cidadezinha pequena, muito pequena.
Tão pequena que cabia no coração de uma criança.
Nesta cidade havia uma pequena casa onde moravam cinco irmãos coelhinhos: o Forte, o Rápido, o Esperto, a Linda e a Cantora.
Todos eles dormiam no mesmo quarto, acordavam cedo na mesma hora, tomavam café e iam para a mesma escola no mesmo horário e eram muito felizes.
O Forte era forte mesmo, sempre carregando as malas de todos. O Rápido ia sempre à frente para ver se tinha problemas, como poças de água ou lama. A Cantora e a Linda iam animando todos com sua música e beleza, enquanto o Esperto ia ajudando todos com os deveres de casa.
Um dia, apareceu um lobo na cidadezinha onde os coelhinhos moravam.  Era um lobo grande e feroz, que uivava muito forte durante a noite toda. Todos os coelhos da cidade ficavam com medo e não queriam mais sair de casa.
Até mesmo os cinco coelhinhos, que eram muito corajosos, tinham medo de andar na rua quando escurecia.
Até que o Esperto teve uma idéia, e convidou seus irmãos a participarem de um plano.
Quando a noite caiu, houve uma movimentação nas ruas da cidade, coelhos carregavam caixas e equipamentos. No momento em que o lobo começou a andar pelas ruas uma música tocou no ar. 
No fim da rua, a Cantora e a Linda estavam dançando e cantado. Hipnotizado pela música, o lobo começou a correr na direção das duas. Nisso o Rápido correu com cordas e deu muitas voltas nas pernas do lobo. O Forte se apoiou num poste e puxou as cordas com todas as forças que tinha. O Lobo era muito poderoso, mas finalmente começou a se desequilibrar e caiu com tudo no chão. O Forte estava quase desmaiando de tanto esforço.
O Rápido correu de novo e deu vários nós nas pernas e na boca do lobo, para que ele não se movesse. Nisso o esperto chegou com os bombeiros, polícia, guarda nacional, defesa civil e tudo o mais que poderia ter na cidade.
O lobo foi levado para um zoológico e foi muito bem tratado, pois ele tinha pulgas e sarna, e muita fome. Depois de tratado e cuidado, virou a atração principal do zoológico, com seu uivo forte.

FIM

sábado, 25 de junho de 2011

Nimrods, capitulo um parte um

NIMRODS


POR:
                 Reinaldo Filho

SABE, POSSO MATÁ-LO
SEM TOCAR NUM SÓ
FIO DE CABELO SEU

GENTE COMO EU
PODE FAZER ISSO

“Crepúsculo”
Graphic Novel de
Pasqual Ferry

Capítulo Um
 Despedida

O mar batia ferozmente contra as pedras, dezenas de metros abaixo, o sol começava a cair no oceano, formando um caleidoscópio nas ondas. Mas ele estava alheio a tudo isso, pensativo, sentado numa pedra à beira do penhasco. Sentia apenas o vento do mar agitar-lhe os cabelos. Por que ele estava ali, afinal? Quando formulou a pergunta, percebeu o quanto era tola. Estava ali porque sua tutora assim ordenara. Fora assim nos nove anos anteriores e tão cedo, imaginava, esta situação não mudaria.
Mas a pergunta ainda lhe martelava a cabeça, por que haviam saído de Santander e ido para Algeciras? Tinham atravessado o país, indo de uma vila afastada da cidade para outra igualmente longínqua e não lhe foi dito nada a respeito das razões. Ele estava acostumado a simplesmente receber ordens, mas estava ficando cansado de fazer as coisas sem saber porque.
Hugo fora entregue à mulher quando seu pai estava no leito de  morte, desde então foi educado e treinado em diversas artes marciais, fundindo-as num estilo único, que sua professora chamava de Éx’Kie He, cujo significado mais apropriado seria “Vôo mortal de Fênix”. Durante seu treinamento, houve momentos em que achou que iria desmaiar de cansaço, tal o esforço que era obrigado a fazer. Perdera a conta das vezes em que carregara pesos nas corridas de dezesseis quilômetros. De todo modo, havia valido a pena, seu porte físico era invejável, embora não fosse tão musculoso quanto alguns homens do vilarejo onde morava. Mas isso não lhe importava, sabia que podia derrotar qualquer pessoa num combate corpo a corpo. Agora, beirando os vinte anos, entendia que um bom instrutor  não poderia esmorecer diante do choro de uma criança que não consegue fazer o que lhe foi pedido, agora ele não era mais uma criança e ficava se perguntando por que ainda era tratado como tal.
Súbito, sentiu um golpe no peito. Caiu, e num espasmo corporal, como se fosse uma mola, ficou em pé. Sentiu a mão forte de sua professora segurar seu pescoço. Falou naquele idioma estranho que, aparentemente, só os dois conheciam. Sua voz, quase sussurrada tinha uma força que parecia mover o solo sob seus pés.
— Mandei-te percorrer cinqüenta vezes o perímetro do terreno, Gato, e tu não o fizeste. Se não estivesses de partida para o Brasil, serias bem castigado. - E soltou a mão, cruzando os braços. Hugo tossiu e engasgou, depois perguntou:
— Para o Brasil? Por quê?
— Teu treinamento está terminado, e tu deves caminhar sozinho a partir de agora. Teus parentes já foram avisados e estão preparando tua acolhida em sua casa.- Apontou em direção à cabana no centro do terreno - Vamos entrar.
Ora, isto é muito irritante, pensou Hugo. Ele vivera sob seus olhos tempo demais para ser lançado fora assim. Com certeza não faltara esforço de sua parte para se tornar bom aluno. Sua força rivalizava com a dela, e nos treinos conseguira a façanha de derrubá-la uma vez, embora nesta ocasião ela tenha escorregado na lama. Não, ele não poderia estar sendo rejeitado por ela. Segurou-a pelo braço e, tentando encarar aqueles olhos frios, perguntou:
— Fênix, estás me rejeitando? Não podes fazer isso comigo, tu não encontrarás outro aluno como eu.
Ela o fitou ameaçadoramente, e Hugo soltou o braço, sua força parecia ser sugada por aquele olhar sombrio e homicida.
— Não estou lhe rejeitando, Gato. Tu estás agora no estágio em que uma águia necessita abandonar o ninho, saltar contra o abismo e aprender a voar sozinha, seguindo o seu próprio caminho.
— Então, tu queres dizer ...
— Estou dizendo que não tenho mais nada a te ensinar. Deves ir para junto dos teus e aprenderes a sobreviver no mundo real. - Enquanto falavam, andavam para a cabana que parecia tosca e pequena, pelo lado de fora.
— E não estou no mundo real?
— Apenas em parte dele. Talvez seja fácil se adaptar ao sistema que os homens criaram para si, mas também poderá ser muito difícil.
Esta ultima afirmação de Fênix surpreendeu-o, pois parecia que, pela primeira vez, ela não tinha certeza do que estava falando. De todo modo, nem ela poderia prever o futuro, pensou.
Chegaram na cabana, ele não tinha visto seu interior ainda, ela não deixara. Quando chegaram, mandou-o correr no perímetro do terreno. Ele não dera um passo sequer nesse sentido, estava cansado de receber ordens de Fênix, mas não ousava desafiá-la diretamente. Sabia o quanto isso era perigoso para sua saúde. Já a vira derrubar vários lutadores ao mesmo tempo. Ás vezes acreditava que, como ela mesma dissera uma vez, sua tutora não era totalmente humana, ela deveria ter alguma coisa a mais.
Ela pediu que ele entrasse primeiro e se sentasse à mesa, o jantar já havia sido posto, como sempre havia o suficiente  para bem mais que duas pessoas. Como Hugo já sabia, aquela comida mal daria para os dois, pois como disse um rapaz que os viu comer num restaurante uma vez “dá a impressão que nunca viram comida na sua vida”. Durante o jantar, Ele tentou arrancar mais alguma informação de Fênix, mas não tentou dissuadi-la da idéia de despachá-lo para fora da Espanha, isso seria tentar aplainar o Himalaia.
— Para qual dos meus parentes me indicaste?
— Pedi a teu tio Pedro Rocha que te recolhas em casa e que arranjes um emprego em sua oficina de automóveis. Tenho certeza de que serás bem recebido.
— Onde ele mora? Em São Paulo?
— Deixe de pensar que  o Brasil resume-se à São Paulo e Rio de Janeiro. É um país grande demais e há dezenas de cidades de grande importância. Mas tu vais para uma cidade do interior, em Santa Catarina. Não te preocupes, estarás perto de um bom centro econômico.
— Por quê não vem comigo? Não quero separar-me de ti.
— Já lhe disse que tens que seguir seu próprio caminho, Gato. Não quero dizer-lhe mais uma vez.
E o restante da comida foi engolida sem se ouvir mais nenhuma palavra de ambos. Hugo ficou olhando-a  terminar de comer, ela empurrou o prato e encheu um grande cálice de vinho, como era seu costume e o tomou de um gole, limpou a boca com a costas da mão. Nestes momentos Hugo acreditava que ela poderia ser mais refinada, pois o ensinara a agir de maneira diferente. Infelizmente já comentara isso com ela, e foi respondido com uma voz fria e distante:
— Meus modos são mais antigos e mais verdadeiros que aqueles que aprendeste comigo, tu foste ensinado com os costumes do teu tempo e da região onde viveste até agora. No futuro, aprenderás que tudo isto é indiferente nos nossos meios.
Fênix colocou o cálice no tampo da mesa e olhou diretamente em seus olhos. Havia alguma coisa diferente neles, algo brilhante, faminto. Não por causa do vinho, Hugo já a vira ingerir quantidades imensas da bebida sem lhe surtir efeito algum. Geralmente, aqueles olhos brancos eram como pedras de gelo, duros e impenetráveis, e se acostumara com eles desta maneira. Seria possível que a mulher da qual ele só conhecia o codinome, que o espancou e humilhou por nove anos em troca de conhecimento, uma mulher que nunca se permitiu um sorriso e que, impossivelmente, mantinha uma máscara ao rosto durante todo o tempo em que a conhecera, tinha afinal um coração que choraria pela despedida de um aluno? Mas mesmo naquele momento único, ele percebeu que não era uma emoção nobre que aqueles olhos transmitiam, era algo selvagem, que não podia ser precisado em palavras. O par de olhos brancos parecia brilhar na penumbra da pequena cabana, quando Fênix falou, sua voz era grave e sombria, fazendo Hugo arrepiar-se de frio.
— Não tenho prazer em enviá-lo para seus parentes, contudo é necessário. Tu já aprendeste tudo o que eu tinha para ensinar e já dominas o Éx’Kie He completamente. Com a experiência, talvez derrube até mesmo a mim. Tens sido o meu aluno mais dedicado, e também tiveste o treinamento mais rigoroso. Serás também o último a quem treinarei de forma tão dedicada, já que conseguiste o que ninguém jamais tentou, e com certeza ninguém mais tentará novamente. - Fez uma pausa e deixou de encará-lo por um momento, pela primeira vez, parecia que ela não sabia o que iria fazer ou dizer em seguida. Olhava para baixo quando recomeçou, sua voz já não tinha o timbre sombrio, parecia a voz de alguém desesperado, Hugo pensou que ela acabaria chorando se não falasse. - Maldito seja! Como conseguiste isso? Mantive-me intocável por tais coisas por mais de dois milênios. Como pode ser possível que agora eu esteja te amando?
Hugo estava confuso e aturdido, a mulher de gelo finalmente derretera? Isto não poderia ser verdade, devia ser uma fraqueza momentânea. Na verdade, ele não tinha feito nada para tentar seduzi-la. Talvez seja por isso mesmo  que ela tenha se apaixonado. Não, era tolice pensar assim. Ela era muito bonita, mas aquela máscara e o jeito de ser de Fênix, afastava qualquer possibilidade de algum homem se aproximar dela. Contudo, muitas vezes Hugo se sentia arder de desejo por ela.
Repentinamente, ela se levantou e o agarrou pela camisa, arrastou-o pela cabana em direção ao quarto, Hugo se sacudiu e livrou dela, estava com medo. Ainda não tinham  chegado à porta, Fênix tinha de novo aquele olhar faminto e misterioso.
— Fênix! O que tu tens? Estás louca?
— Tenho desejo! Preciso de ti, e sei que tu tens a mesma necessidade! - Gritou numa voz rouca
— Sim! Mas tu pareces um animal selvagem correndo atrás de uma presa, não posso querer-te desta maneira.
— Não tentes enganar a ti mesmo, Gato. Sei muito bem o que tu queres.
E se atirou sobre ele. Hugo não conseguiu se livrar desta vez, mesmo porque nada tentou neste sentido.