sábado, 10 de setembro de 2011

nimrods, capitulor


— Tendes certeza de que realmente queres isto?
Fênix, sentada de joelhos no chão de pedras, observava Zal’irckas remexer o braseiro quase incandescente. A longa trança, jogada às costas, lambia as gotas de suor que se formavam, a luz do fogo transformava o corpo suado em um bronze reluzente.
— Cheguei até aqui não cheguei? Faça o que for necessário.
— Será definitivo.
— Serei imortal, não serei?
— Assim seja.
Zal’irckas pegou uma tenaz e a mergulhou no braseiro, recitando uma canção obscura e perdida no tempo. Ao retirar a tenaz, tinha prendido uma máscara de meia face, de um metal finíssimo e rubro devido ao calor. Encaixou num suporte em frente a mulher.
— Dispa-se, não podes estar contaminada por apetrechos mortais.
Ela retirou as túnicas e as sandálias, e jogou-as longe, colocou seu rosto a centímetros da máscara incandescente. Zal’irckas tomou-a pelos ombros e a empurrou contra o metal. Ouviu-se um chiado longo e um grito de dor, mas o encaixe fora perfeito. Fênix foi jogada no chão e sentiu o corpo do feiticeiro sobre o seu. Abraçou-o com as pernas e foi penetrada violentamente. Zal’irckas se mexia de maneira furiosa e constante, o esperma escorreu pelo chão, tal a quantidade despejada no ventre da mulher. Levantou-se e se despediu:
— Está feito, mas talvez nós nos encontremos novamente. Adeus, Fênix.
Zal’irckas simplesmente se desfez no ar, levando consigo todos os aparatos que trouxera para o quarto de Fênix.

(632 a.C.)
Nos anos que se seguiram depois do encontro com Zal’irckas, Fênix andou por quase todo o mundo conhecido. A máscara e a sua força a mantinham numa distância segura de tudo e todos. Mas não a impedia de conseguir amantes quando desejasse; sempre havia muitos curiosos. Certo dia um pobre coitado tentou lhe retirar a máscara, simplesmente caiu morto ao tocar o metal.
A cada cinco ou seis anos, retornava à Creta, para dar instruções aos mercadores sob seu comando e recolher os frutos de seu trabalho. Uma vez teve que ficar fora de Creta por trinta anos e seus subordinados não a reconheceram mais como a dona do palacete, teve que usar de força para convencê-los e nunca mais teve problemas enquanto o palacete lhe foi útil.
Quando ouviu rumores de que mais ao Oriente havia civilizações quase desconhecidas, comprou uma caravana e tomou o rumo do nascer do sol. Parou em Jerusalém, onde se dizia grega ou romana, devido ao preconceito dos judeus, mas ainda assim era melhor contratar algum homem que se fizesse passar por seu marido ou pai, a fim de obter melhores chances de negócios. Enquanto seu contratado cuidava de reabastecer a caravana de água e comida, Fênix ficou em um quarto da melhor estalagem da cidade.
Ao fim da tarde Gideão voltou acompanhado de um homem alto e moreno, que não se apresentou ao entrar.
— Desejo ter contigo, Fênix. A sós.
— Quem és tu, estranho?
— Vim a pedido de Zal’irckas. Ele me pediu que a acompanhasse pelo Oriente.
Fênix se virou para Gideão e pediu que esperasse fora do quarto. Fez um gesto para que o estranho se sentasse à sua frente. O homem sorria constantemente e olhava para Fênix de maneira curiosa e quase infantil.
— Contrataste o garoto apenas para cuidar de sua caravana ou ele tem ainda outras funções para ti?
— Tendes cuidado estranho, outra insinuação como esta e lhe arranco a língua. Não abuses de minha hospitalidade.
— Acalma-te, mulher, não quis ofendê-la. Peço-lhe desculpas pelo meu joguete. Não devemos lutar entre nós, já que somos como irmãos.
— Não lhe conheço, e não tenho intimidades contigo para que me chames de irmã. - A voz de Fênix se tornou rouca e com eco distante. - Quem és tu e por que Zal’irckas te procurou?
— Fênix, outras como tu tentaram este embuste comigo e não conseguiram. Não tentes inutilmente me persuadir. Vou lhe contar o que queres saber porque me agrada. Meu nome é N’dilo Odini[1], Zal’irckas me deu este nome quando falou comigo. Disse-me para procurar a mulher de máscara em Jerusalém e acompanhá-la em sua viagem.
Fênix se levantou e caminhava de um lado para outro, pensando, olhava para o chão. De repente, parou e levantou a cabeça, puxou os cabelos para trás e os prendeu.
— Quero saber por que Zal’irckas lhe procurou, quando isto aconteceu e porque lhe pediu para que me acompanhasse ao Oriente.
N’dilo se levantou e segurou-a pelos ombros, olhando diretamente nos olhos brancos e disse:
— Há quanto tempo vives? Cem, quinhentos, mil anos? Eu sou muito mais velho que tu, e Zal’irckas é infinitamente mais antigo que nós, Fênix. Tenho ordens dele para te ensinar a continuar viva neste mundo de vidas curtas. Um dia os homens comuns se aperceberão de nossa existência, pode levar séculos, milênios, mas não poderemos nos esconder ou usar de força e ouro, como fazemos agora. Devemos nos preparar e saber usar nossa longa vida em algo produtivo, criar um lugar para nós, a fim de usarmos a nossa experiência em favor de nós mesmos.
Fênix se virou e ficou em silêncio, segurava os próprios ombros. Estava de frente à janela aberta, ao longe se via um vulto de uma ave de rapina. O pássaro pousou no beiral da janela, era o mesmo pássaro cor de fogo que vira quando Zal’irckas lhe fez a proposta de imortalidade. Fênix pareceu sentir um arrepio e então o animal alçou vôo na noite enluarada.
— Conheço aquele pássaro, vi-o acompanhando Zal’irckas.
— Sim. - Fênix fez outra pausa - N’dilo, não concordo com o que disseste sobre o futuro, mas sinto que não serás uma companhia totalmente desagradável em minha jornada para o Oriente, uma vez que falas bem e assim poderá me contar histórias de tua longa vida.

(1995 d.C.)
Começava a chover fortemente e o motorista diminuiu a velocidade drasticamente.
— Douglas, por que diminuíste a marcha? - Fênix perguntou em alemão.
— Estamos atrás de uma fileira de caminhões e há muito movimento no sentido contrário, e ainda por cima, começou a chover em cântaros. Por enquanto, não podemos ir mais depressa.
— Muito bem, volte a dirigir mais rapidamente assim que for possível.
— Vou tentar.
Hugo lutava contra a ação do calmante e dos anestésicos, tentando prestar atenção às histórias que Fênix lhe contava, mas as substâncias estavam ganhando terreno rapidamente, e a sua voz se arrastou num lamento:
— N’dilo... é um... nimrod... tam...bém? Está vi... vo?
— Sim, sempre é ele que organiza os encontros, arrumando os locais e contatando-nos a cada quinze anos. Felizmente, não se deixou calejar pelo tempo.
— Eu também vi... um ... páss...aro... cor.... - E dormiu.
Fênix recolocou o banco no lugar e ficou olhando os limpadores fazerem flic, flic. A carreta que se arrastava à frente do furgão tinha apenas metade das luzes necessárias e soltava uma fumaça negra pelo escapamento, que erguia-se lentamente, por causa da chuva. Os faróis que viam em sentido contrário espoucavam em bolhas de luz no pára-brisa.
— Como está o garoto?
— Adormeceu há pouco.
— Talvez não tenha sido uma boa idéia tirá-lo do hospital. Ele ainda  está muito fraco para isso.
— Infelizmente, foi necessário. Eu não poderia comparecer ao encontro sem levá-lo comigo. Apesar das agruras que sofreu, seu organismo suportaria ainda mais sem conseqüências permanentes, mas Hugo ainda não se acostumou à dor. Que horas são agora?
— Onze e quarenta e oito.
— Encoste, é melhor que tu descanses. Eu dirijo até de manhã.
Douglas ligou a seta e parou o carro no acostamento, trocou de lugar com a mulher e reclinou o banco.
— Não vá muito depressa, Fênix. Eu não quero me sacudir à toa.
— Seu sarcasmo é inútil e desnecessário, Douglas.
O alemão dormiu pesadamente, e acordou com dores pelo corpo. Tinha a sensação de ter levado uma surra, demorou alguns minutos para perceber que ainda estava dentro do furgão, e que estavam ainda rodando.
— Vamos parar para comer em breve. Arrume-se.
— Quero tomar banho e trocar de roupa também. - Respondeu com a voz arrastada de sono. - Que horas são?
— Oito e vinte e três. Não se preocupe, Pararei num motel pois também necessito trocar-me.
Douglas levantou o banco e puxou um pente do bolso, arrumou rapidamente o cabelo e olhou por cima do encosto para Hugo.
— Ele ainda está sob o efeito dos sedativos?
— Sim, deverá dormir mais uma ou duas horas.
O alemão se esticou no banco e bocejou longa e sonoramente, começou a se coçar e falou com a voz arrastada.
— Você dirigiu a noite toda? Já devíamos ter chegado em São Paulo então.
— Choveu fortemente durante várias horas e o movimento estava intenso. Não houve condições de dirigir adequadamente. Vamos parar ali.
O furgão diminuiu e encostou num motel de ótima aparência, Fênix pediu um quarto e café para três. O motel tinha garagens individuais para cada quarto e o veículo por pouco não coube no cubículo. Douglas fechou a porta e abriu a lateral do carro, Fênix entrou no quarto com uma mala na mão esquerda e logo ouviu-se o chuveiro se abrir, ele jogou as outras malas em cima cama e berrou:
— Quanto tempo vamos ficar aqui?
— Temos que sair no máximo às dez e trinta. Trouxeste as malas?
— Sim. -Douglas se sentiu tentando a espiá-la, já que a porta estava aberta, verificar se ela tirava a máscara para banhar-se, assim poderia ver seu rosto. Imediatamente retirou a idéia da cabeça, estranha como era, Fênix poderia não se incomodar com sua presença ou espancá-lo até desmaiar.
A máscara era uma coisa que não lhe saía do pensamento, pois a mulher não a retirava da fronte em situação alguma. Douglas chegou a perguntar por que ela usava o artefato de uma maneira tão intensa, ao que Fênix respondeu:
— Há muitos anos fiz um acordo com uma determinada entidade sobre o uso da máscara.
— Que tipo de acordo?
— Não é de tua real necessidade saber de tais detalhes.
Dali em diante não perguntou mais nada à Fênix que não se relacionasse às tarefas que lhe eram impostas. Mas continuou analisando a mulher de longe, então a mascara não tinha apenas valor estético ou de proteção como havia imaginado anteriormente. Será que isto estaria ligado à personalidade e à força de Fênix? Haveria então alguma verdade em rituais de magia e tudo o mais? O mago Paulo Coelho dizia ser possível retirar energia da natureza e conhecer a data da própria morte através de rituais relativamente simples. Mesmo que fosse algo do gênero, como era possível suportar aquele metal o tempo todo no rosto? O suor, por exemplo, como era retirado daquela parte do corpo? E a higiene? Questões como essa às vezes lhe retiravam o sono por completo. Não ousava perguntar nada à Fênix pois tinha quase certeza de que ela não lhe responderia. Talvez Hugo, ou Gato como ela o chamava, soubesse de alguma coisa, pois havia sido seu aluno e na noite anterior tinham conversado por várias horas. Sim, talvez pudesse arrancar alguma coisa de Hugo. Foi até o furgão.
Fênix se enganara, não havia passado nem meia hora desde que haviam entrado no motel e Hugo já estava desperto, embora ainda com a fala arrastada. Pelo menos uma vez ela errou, pensou. Puxou o banco do passageiro e sentou-se ao lado do enfermo.
Sprech du Deutsch?
— O quê?
— Eu falo em português, espero que me entenda nesta linguagem.
— Seu sarcasmo é ridículo.
— Você está falando igual à Fênix, não é à toa que ela gosta de você.
— Não sei se ela gosta de mim, acho que estou apenas sendo treinado. Aliás foi a única coisa que com certeza nós dois fizemos juntos. Fênix sempre me surpreende, me excita e me assusta. Como foi que se encontrou com ela? E qual é o seu nome? Quem é você, afinal?
Douglas levantou-se e abriu um dos armários, tirou uma garrafa e a abriu, sentou-se e tomou um grande gole fazendo uma careta.
— Muito bem, meu nome é Douglas Marx, sou alemão naturalizado brasileiro. Meu pai me apresentou à Fênix alguns anos atrás, dizendo-me que quando ela precisasse, eu deveria atendê-la prontamente. É uma história longa e gosto de contar histórias tomando a hellfire aqui. - E sacudiu a garrafa - É uma receita de família, batizada por um primo americano de meu avô. - Fez uma pausa, deixando Hugo na expectativa. - Eu não sei se vou contar esta história agora. Acho que vou deixar para depois que você me contar a sua.
— Que interesse você tem nisso, Douglas? Quer nos estudar?
— Talvez eu seja só curioso.
— Acredito que não existam problemas em lhe contar alguma coisa. -Fez uma expressão de dor  e respirou profundamente.
— O que foi?
— O efeito dos sedativos está passando, acho. Estou começando a sentir dores pelo corpo todo.
— Vou falar com Fênix. - e saiu do furgão.
Maldição, pensou Douglas, alguma coisa parecia se armar contra sua curiosidade. No momento em que o rapaz iria contar alguma coisa ele começa a sentir dores? Era realmente muita coincidência.


[1]  “O primeiro de todos” ou “o mais velho” em português.