quarta-feira, 23 de novembro de 2011

frases

A diferença entre o empresário e a prostituta é que a prostituta sabe de antemão que o cliente vai foder com ela.

Reinaldo Schroeder.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

vidros de carros

Os vidros das portas dos carros no Brasil deveriam ser fixos, assim como o parabrisa. Desta maneira as pessoas não iriam atirar lixo para fora.

sábado, 29 de outubro de 2011

nimrods, capítulo perdido

(632 a.C.)
Nos anos que se seguiram depois do encontro com Zal’irckas, Fênix andou por quase todo o mundo conhecido. A máscara e a sua força a mantinham numa distância segura de tudo e todos. Mas não a impedia de conseguir amantes quando desejasse; sempre havia muitos curiosos. Certo dia um pobre coitado tentou lhe retirar a máscara, simplesmente caiu morto ao tocar o metal.
A cada cinco ou seis anos, retornava à Creta, para dar instruções aos mercadores sob seu comando e recolher os frutos de seu trabalho. Uma vez teve que ficar fora de Creta por trinta anos e seus subordinados não a reconheceram mais como a dona do palacete, teve que usar de força para convencê-los e nunca mais teve problemas enquanto o palacete lhe foi útil.
Quando ouviu rumores de que mais ao Oriente havia civilizações quase desconhecidas, comprou uma caravana e tomou o rumo do nascer do sol. Parou em Jerusalém, onde se dizia grega ou romana, devido ao preconceito dos judeus, mas ainda assim era melhor contratar algum homem que se fizesse passar por seu marido ou pai, a fim de obter melhores chances de negócios. Enquanto seu contratado cuidava de reabastecer a caravana de água e comida, Fênix ficou em um quarto da melhor estalagem da cidade.
Ao fim da tarde Gideão voltou acompanhado de um homem alto e moreno, que não se apresentou ao entrar.
Desejo ter contigo, Fênix. A sós.
Quem és tu, estranho?
Vim a pedido de Zal’irckas. Ele me pediu que a acompanhasse pelo Oriente.
Fênix se virou para Gideão e pediu que esperasse fora do quarto. Fez um gesto para que o estranho se sentasse à sua frente. O homem sorria constantemente e olhava para Fênix de maneira curiosa e quase infantil.
Contrataste o garoto apenas para cuidar de sua caravana ou ele tem ainda outras funções para ti?
Tendes cuidado estranho, outra insinuação como esta e lhe arranco a língua. Não abuses de minha hospitalidade.
Acalma-te, mulher, não quis ofendê-la. Peço-lhe desculpas pelo meu joguete. Não devemos lutar entre nós, já que somos como irmãos.
Não lhe conheço, e não tenho intimidades contigo para que me chames de irmã. - A voz de Fênix se tornou rouca e com eco distante. - Quem és tu e por que Zal’irckas te procurou?
Fênix, outras como tu tentaram este embuste comigo e não conseguiram. Não tentes inutilmente me persuadir. Vou lhe contar o que queres saber porque me agrada. Meu nome é N’dilo Odini1, Zal’irckas me deu este nome quando falou comigo. Disse-me para procurar a mulher de máscara em Jerusalém e acompanhá-la em sua viagem.
Fênix se levantou e caminhava de um lado para outro, pensando, olhava para o chão. De repente, parou e levantou a cabeça, puxou os cabelos para trás e os prendeu.
Quero saber por que Zal’irckas lhe procurou, quando isto aconteceu e porque lhe pediu para que me acompanhasse ao Oriente.
N’dilo se levantou e segurou-a pelos ombros, olhando diretamente nos olhos brancos e disse:
Há quanto tempo vives? Cem, quinhentos, mil anos? Eu sou muito mais velho que tu, e Zal’irckas é infinitamente mais antigo que nós, Fênix. Tenho ordens dele para te ensinar a continuar viva neste mundo de vidas curtas. Um dia os homens comuns se aperceberão de nossa existência, pode levar séculos, milênios, mas não poderemos nos esconder ou usar de força e ouro, como fazemos agora. Devemos nos preparar e saber usar nossa longa vida em algo produtivo, criar um lugar para nós, a fim de usarmos a nossa experiência em favor de nós mesmos.
Fênix se virou e ficou em silêncio, segurava os próprios ombros. Estava de frente à janela aberta, ao longe se via um vulto de uma ave de rapina. O pássaro pousou no beiral da janela, era o mesmo pássaro cor de fogo que vira quando Zal’irckas lhe fez a proposta de imortalidade. Fênix pareceu sentir um arrepio e então o animal alçou vôo na noite enluarada.
Conheço aquele pássaro, vi-o acompanhando Zal’irckas.
Sim. - Fênix fez outra pausa - N’dilo, não concordo com o que disseste sobre o futuro, mas sinto que não serás uma companhia totalmente desagradável em minha jornada para o Oriente, uma vez que falas bem e assim poderá me contar histórias de tua longa vida.

(1995 d.C.)
Começava a chover fortemente e o motorista diminuiu a velocidade drasticamente.
Douglas, por que diminuíste a marcha? - Fênix perguntou em alemão.
Estamos atrás de uma fileira de caminhões e há muito movimento no sentido contrário, e ainda por cima, começou a chover em cântaros. Por enquanto, não podemos ir mais depressa.
Muito bem, volte a dirigir mais rapidamente assim que for possível.
Vou tentar.
Hugo lutava contra a ação do calmante e dos anestésicos, tentando prestar atenção às histórias que Fênix lhe contava, mas as substâncias estavam ganhando terreno rapidamente, e a sua voz se arrastou num lamento:
N’dilo... é um... nimrod... tam...bém? Está vi... vo?
Sim, sempre é ele que organiza os encontros, arrumando os locais e contatando-nos a cada quinze anos. Felizmente, não se deixou calejar pelo tempo.
Eu também vi... um ... páss...aro... cor.... - E dormiu.
Fênix recolocou o banco no lugar e ficou olhando os limpadores fazerem flic, flic. A carreta que se arrastava à frente do furgão tinha apenas metade das luzes necessárias e soltava uma fumaça negra pelo escapamento, que erguia-se lentamente, por causa da chuva. Os faróis que viam em sentido contrário espoucavam em bolhas de luz no pára-brisa.
Como está o garoto?
Adormeceu há pouco.
Talvez não tenha sido uma boa idéia tirá-lo do hospital. Ele ainda está muito fraco para isso.
Infelizmente, foi necessário. Eu não poderia comparecer ao encontro sem levá-lo comigo. Apesar das agruras que sofreu, seu organismo suportaria ainda mais sem conseqüências permanentes, mas Hugo ainda não se acostumou à dor. Que horas são agora?
Onze e quarenta e oito.
Encoste, é melhor que tu descanses. Eu dirijo até de manhã.
Douglas ligou a seta e parou o carro no acostamento, trocou de lugar com a mulher e reclinou o banco.
Não vá muito depressa, Fênix. Eu não quero me sacudir à toa.
Seu sarcasmo é inútil e desnecessário, Douglas.
O alemão dormiu pesadamente, e acordou com dores pelo corpo. Tinha a sensação de ter levado uma surra, demorou alguns minutos para perceber que ainda estava dentro do furgão, e que estavam ainda rodando.
Vamos parar para comer em breve. Arrume-se.
Quero tomar banho e trocar de roupa também. - Respondeu com a voz arrastada de sono. - Que horas são?
Oito e vinte e três. Não se preocupe, Pararei num motel pois também necessito trocar-me.
Douglas levantou o banco e puxou um pente do bolso, arrumou rapidamente o cabelo e olhou por cima do encosto para Hugo.
Ele ainda está sob o efeito dos sedativos?
Sim, deverá dormir mais uma ou duas horas.
O alemão se esticou no banco e bocejou longa e sonoramente, começou a se coçar e falou com a voz arrastada.
Você dirigiu a noite toda? Já devíamos ter chegado em São Paulo então.
Choveu fortemente durante várias horas e o movimento estava intenso. Não houve condições de dirigir adequadamente. Vamos parar ali.
O furgão diminuiu e encostou num motel de ótima aparência, Fênix pediu um quarto e café para três. O motel tinha garagens individuais para cada quarto e o veículo por pouco não coube no cubículo. Douglas fechou a porta e abriu a lateral do carro, Fênix entrou no quarto com uma mala na mão esquerda e logo ouviu-se o chuveiro se abrir, ele jogou as outras malas em cima cama e berrou:
Quanto tempo vamos ficar aqui?
Temos que sair no máximo às dez e trinta. Trouxeste as malas?
Sim. -Douglas se sentiu tentando a espiá-la, já que a porta estava aberta, verificar se ela tirava a máscara para banhar-se, assim poderia ver seu rosto. Imediatamente retirou a idéia da cabeça, estranha como era, Fênix poderia não se incomodar com sua presença ou espancá-lo até desmaiar.
A máscara era uma coisa que não lhe saía do pensamento, pois a mulher não a retirava da fronte em situação alguma. Douglas chegou a perguntar por que ela usava o artefato de uma maneira tão intensa, ao que Fênix respondeu:
Há muitos anos fiz um acordo com uma determinada entidade sobre o uso da máscara.
Que tipo de acordo?
Não é de tua real necessidade saber de tais detalhes.
Dali em diante não perguntou mais nada à Fênix que não se relacionasse às tarefas que lhe eram impostas. Mas continuou analisando a mulher de longe, então a mascara não tinha apenas valor estético ou de proteção como havia imaginado anteriormente. Será que isto estaria ligado à personalidade e à força de Fênix? Haveria então alguma verdade em rituais de magia e tudo o mais? O mago Paulo Coelho dizia ser possível retirar energia da natureza e conhecer a data da própria morte através de rituais relativamente simples. Mesmo que fosse algo do gênero, como era possível suportar aquele metal o tempo todo no rosto? O suor, por exemplo, como era retirado daquela parte do corpo? E a higiene? Questões como essa às vezes lhe retiravam o sono por completo. Não ousava perguntar nada à Fênix pois tinha quase certeza de que ela não lhe responderia. Talvez Hugo, ou Gato como ela o chamava, soubesse de alguma coisa, pois havia sido seu aluno e na noite anterior tinham conversado por várias horas. Sim, talvez pudesse arrancar alguma coisa de Hugo. Foi até o furgão.
Fênix se enganara, não havia passado nem meia hora desde que haviam entrado no motel e Hugo já estava desperto, embora ainda com a fala arrastada. Pelo menos uma vez ela errou, pensou. Puxou o banco do passageiro e sentou-se ao lado do enfermo.
Sprech du Deutsch?
O quê?
Eu falo em português, espero que me entenda nesta linguagem.
Seu sarcasmo é ridículo.
Você está falando igual à Fênix, não é à toa que ela gosta de você.
Não sei se ela gosta de mim, acho que estou apenas sendo treinado. Aliás foi a única coisa que com certeza nós dois fizemos juntos. Fênix sempre me surpreende, me excita e me assusta. Como foi que se encontrou com ela? E qual é o seu nome? Quem é você, afinal?
Douglas levantou-se e abriu um dos armários, tirou uma garrafa e a abriu, sentou-se e tomou um grande gole fazendo uma careta.
Muito bem, meu nome é Douglas Marx, sou alemão naturalizado brasileiro. Meu pai me apresentou à Fênix alguns anos atrás, dizendo-me que quando ela precisasse, eu deveria atendê-la prontamente. É uma história longa e gosto de contar histórias tomando a hellfire aqui. - E sacudiu a garrafa - É uma receita de família, batizada por um primo americano de meu avô. - Fez uma pausa, deixando Hugo na expectativa. - Eu não sei se vou contar esta história agora. Acho que vou deixar para depois que você me contar a sua.
Que interesse você tem nisso, Douglas? Quer nos estudar?
Talvez eu seja só curioso.
Acredito que não existam problemas em lhe contar alguma coisa. -Fez uma expressão de dor e respirou profundamente.
O que foi?
O efeito dos sedativos está passando, acho. Estou começando a sentir dores pelo corpo todo.
Vou falar com Fênix. - e saiu do furgão.
Maldição, pensou Douglas, alguma coisa parecia se armar contra sua curiosidade. No momento em que o rapaz iria contar alguma coisa ele começa a sentir dores? Era realmente muita coincidência.
1 “O primeiro de todos” ou “o mais velho” em português.


domingo, 23 de outubro de 2011

nimrods, mais um capítulo

Eis que a Morte novamente
bate em meus umbrais
Como nunca antes bateu
Novamente não me levará
novamente não se satisfará
novamente não morrerei
Eu que me levantei
das cinzas
Hoje não queimarei
Sim, ela me olha com fúria única
agita sua fria túnica
Mas passará dos meus umbrais
Assim é, assim foi, assim será
Já vi muitos a te acompanharem
Já vi muitos chegarem
Vi a vida nascer da terra
e a terra nascer da vida

Não, Morte, hoje não irei
Hoje não te contentarei
Tu não sorrirás hoje
Tu me chamas novamente
Tua voz é como o trovão
Mas meu corpo não estremece
Meu espírito se fortalece
Brilha ainda mais a minha luz
Sei de minha vida sem fim
Sei que hoje tu desistes
Sei que retornarás
Sei que tentarás me levar

MAS MEU CANTO DE MORTE,
ESTE, TU MORTE,
JAMAIS
JAMAIS
ME OUVIRÁ
ENTOAR
Capítulo Cinco
Fênix

( 1505 a.C.)
Numa pequena aldeia perdida em alguma montanha do nordeste africano, aquele foi um dia de festa, a mais jovem das esposas do chefe esteve sentindo dores pela tarde toda, as mulheres mais experientes já sabiam o que aquilo significava: em breve nasceria mais uma criança. Ovelhas foram sacrificadas e o trigo, ceifado. O deus Sol foi invocado para dar forças à parturiente, à sua irmã, a Lua, foi pedido que afastasse as forças das trevas com sua luz prateada, pois o trabalho de parto se prolongaria pela noite. Todos os homens dançavam ao redor das fogueiras, menos o pai da criança que deveria lhe dar o nome.
Foi como se a vida fosse arrancada de todos, tal o silêncio que se fez quando o chefe saiu de sua cabana, carregando a criança nos braços desajeitados.
Que os deuses tenham piedade de nós. - Alguém exclamou.
Isto deve ser obra do demônio - Outro gritou.
Começou uma discussão geral sobre a situação e o tumulto já saia de controle quando o feiticeiro acalmou todos soltando maldições e pragas sobre os revoltados. Assim que todos se acalmaram e lhe encararam com um olhar inquisidor, ele se aproximou do pai e apontou para a recém-nascida:
Isto é mau agouro para nossa gente.
Minha família trouxe a desgraça para nós. O que devemos fazer?
Livrar-me-ei desse demônio antes que traga seus asseclas para nós. Dê-me a criança.
Assim, o feiticeiro levou a menina de pele clara e cabelos cor de fogo para sua cabana, onde eliminou o demônio utilizando-se de magia e instrumentos secretos. Pelo menos, era nisso em que todos acreditavam. Acontece que, duas semanas depois, como acontecia todo mês, passou nas proximidades da aldeia, um mercador das bandas do leste, que trocou a menina por um casal de galinhas.
Seis anos depois, o mercador trocou a ruiva por três mulheres jovens e fortes, com um ricaço estrangeiro, um grego talvez. O homem pareceu se encantar pela menina e nem pechinchou o preço, pagou e levou-a pelo braço até a carroça onde havia mais alguns escravos sentados, estes, por algum motivo, se mantiveram longe da menina.
Com o passar do tempo o grego, que na verdade era cretense, percebeu que aquela criança de cabelos cor de fogo não era comum, aprendia rápido demais e tinha uma autoconfiança que chegava a ser irritante, entretanto, nunca esqueceu a sua posição de escrava. Obedecia a qualquer comando de seu mestre e não questionava os afazeres da casa. Aos doze anos, ganhou a liberdade, mas ficou ao lado de seu ex-dono auxiliando-o em questões caseiras, deixando-o mais livre para os seus negócios
Observando a inteligência e habilidade da garota, Jonel resolveu investir para o futuro; mandou chamar os melhores professores do país para que a garota estudasse com eles, assim quando ficasse velho, poderia se aposentar e ela cuidaria dos empreendimentos. Um dia ao estudar ao a religião egípcia, ela soube da lenda de Fênix e comentou:
De hoje em diante me chamarei Fênix, este é o nome da minha alma, agora eu sei.
Houve protestos, pois este gesto poderia dificultar a relação de Jonel com os egípcios, mas a menina não retrocedeu à idéia.

Vinte e cinco anos depois, Jonel morreu de um infarto enquanto fazia amor com Fênix, foi enterrado num hall de sua própria casa, com todas as cerimônias possíveis.
Fênix já tinha assumido a frente de seus empreendimentos há anos enquanto Jonel cuidava dos criados e do jardim, assuntos de negócios só lhe eram trazidos quando algum mercador não concordava em negociar com uma mulher, mas estes casos se tornaram cada vez mais raros. Na ocasião do enterro de Jonel houve quem dissesse que sem a reputação de Jonel para lhe segurar, Fênix iria à bancarrota em poucos anos, mas estas vozes foram silenciadas. A mulher duplicou a fortuna pessoal que herdou em seis anos, seu codinome se tornou conhecido por todo o Mediterrâneo, sua frota de barcos só não era maior do que a dos fenícios. Seu estilo de negociação era frio e cruel, se fosse necessário humilhar os negociantes, ela o fazia, se era preciso extorquir, pressionar, assassinar alguém, Fênix não tinha remorsos. Alguns a tratavam pelas costas como “aquela maldita cadela vermelha”. Com o tempo os braços de Fênix alcançaram as terras dos vickings e dos druidas, e até nos confins do Nilo, onde era respeitada e venerada como uma deusa.
No quadragésimo sétimo aniversário de morte de Jonel, quando ia prestar homenagem ao seu primeiro homem, Fênix percebeu uma figura muito alta e magra, com uma trança enorme jogada no lado esquerdo, em frente ao mausoléu construído em cima do túmulo de Jonel.
Quem és tu, e como chegaste até aqui? Meus guardas deviam tê-lo impedido de entrar em minha propriedade.
Mesmo que teus guardas pudessem me ver, nada fariam contra mim, Fênix. - O tom de voz do estranho era macio, nem masculina nem feminina
Não respondeste à minha pergunta.
Podes me chamar de Zal’irckas1, e tenho negócios a tratar contigo.
Entre meus mercadores não há ninguém com este nome, que tipo de negócios tu queres?
Fênix, tu vives há oitenta e quatro anos e ainda aparentas menos de trinta. Tal como o pássaro do qual tiraste o nome, tu ainda viverás muito e, com minha ajuda, se erguerá das cinzas quando padecer.
A mulher cruzou os braços e ficou pensativa, olhando o túmulo de Jonel. Um pássaro cor de fogo pousou na beira do telhado, e encarou-a, na pequena cabeça os olhos pareciam faiscar, e levantou vôo. Fênix o acompanhou até que desaparecesse no horizonte, acabou ficando de costas para o estranho.
Tu és um anjo, demônio ou feiticeiro?
Os três, e ao mesmo tempo nenhum. Sou uma criatura indiferente aos deuses e demônios, e já não sou um homem.
E o que ficarei devendo a ti se concordar com tua oferta?

Tendes certeza de que realmente queres isto?
Fênix, sentada de joelhos no chão de pedras, observava Zal’irckas remexer o braseiro quase incandescente. A longa trança, jogada às costas, lambia as gotas de suor que se formavam, a luz do fogo transformava o corpo suado em um bronze reluzente.
Cheguei até aqui não cheguei? Faça o que for necessário.
Será definitivo.
Serei imortal, não serei?
Assim seja.
Zal’irckas pegou uma tenaz e a mergulhou no braseiro, recitando uma canção obscura e perdida no tempo. Ao retirar a tenaz, tinha prendido uma máscara de meia face, de um metal finíssimo e rubro devido ao calor. Encaixou num suporte em frente a mulher.
Dispa-se, não podes estar contaminada por apetrechos mortais.
Ela retirou as túnicas e as sandálias, e jogou-as longe, colocou seu rosto a centímetros da máscara incandescente. Zal’irckas tomou-a pelos ombros e a empurrou contra o metal. Ouviu-se um chiado longo e um grito de dor, mas o encaixe fora perfeito. Fênix foi jogada no chão e sentiu o corpo do feiticeiro sobre o seu. Abraçou-o com as pernas e foi penetrada violentamente. Zal’irckas se mexia de maneira furiosa e constante, o esperma escorreu pelo chão, tal a quantidade despejada no ventre da mulher. Levantou-se e se despediu:
Está feito, mas talvez nós nos encontremos novamente. Adeus, Fênix.
Zal’irckas simplesmente se desfez no ar, levando consigo todos os aparatos que trouxera para o quarto de Fênix.
1 Este nome pode ser interpretado como “criatura de poder” ou “entidade antiga” em português.

domingo, 2 de outubro de 2011

sábado, 10 de setembro de 2011

nimrods, capitulor


— Tendes certeza de que realmente queres isto?
Fênix, sentada de joelhos no chão de pedras, observava Zal’irckas remexer o braseiro quase incandescente. A longa trança, jogada às costas, lambia as gotas de suor que se formavam, a luz do fogo transformava o corpo suado em um bronze reluzente.
— Cheguei até aqui não cheguei? Faça o que for necessário.
— Será definitivo.
— Serei imortal, não serei?
— Assim seja.
Zal’irckas pegou uma tenaz e a mergulhou no braseiro, recitando uma canção obscura e perdida no tempo. Ao retirar a tenaz, tinha prendido uma máscara de meia face, de um metal finíssimo e rubro devido ao calor. Encaixou num suporte em frente a mulher.
— Dispa-se, não podes estar contaminada por apetrechos mortais.
Ela retirou as túnicas e as sandálias, e jogou-as longe, colocou seu rosto a centímetros da máscara incandescente. Zal’irckas tomou-a pelos ombros e a empurrou contra o metal. Ouviu-se um chiado longo e um grito de dor, mas o encaixe fora perfeito. Fênix foi jogada no chão e sentiu o corpo do feiticeiro sobre o seu. Abraçou-o com as pernas e foi penetrada violentamente. Zal’irckas se mexia de maneira furiosa e constante, o esperma escorreu pelo chão, tal a quantidade despejada no ventre da mulher. Levantou-se e se despediu:
— Está feito, mas talvez nós nos encontremos novamente. Adeus, Fênix.
Zal’irckas simplesmente se desfez no ar, levando consigo todos os aparatos que trouxera para o quarto de Fênix.

(632 a.C.)
Nos anos que se seguiram depois do encontro com Zal’irckas, Fênix andou por quase todo o mundo conhecido. A máscara e a sua força a mantinham numa distância segura de tudo e todos. Mas não a impedia de conseguir amantes quando desejasse; sempre havia muitos curiosos. Certo dia um pobre coitado tentou lhe retirar a máscara, simplesmente caiu morto ao tocar o metal.
A cada cinco ou seis anos, retornava à Creta, para dar instruções aos mercadores sob seu comando e recolher os frutos de seu trabalho. Uma vez teve que ficar fora de Creta por trinta anos e seus subordinados não a reconheceram mais como a dona do palacete, teve que usar de força para convencê-los e nunca mais teve problemas enquanto o palacete lhe foi útil.
Quando ouviu rumores de que mais ao Oriente havia civilizações quase desconhecidas, comprou uma caravana e tomou o rumo do nascer do sol. Parou em Jerusalém, onde se dizia grega ou romana, devido ao preconceito dos judeus, mas ainda assim era melhor contratar algum homem que se fizesse passar por seu marido ou pai, a fim de obter melhores chances de negócios. Enquanto seu contratado cuidava de reabastecer a caravana de água e comida, Fênix ficou em um quarto da melhor estalagem da cidade.
Ao fim da tarde Gideão voltou acompanhado de um homem alto e moreno, que não se apresentou ao entrar.
— Desejo ter contigo, Fênix. A sós.
— Quem és tu, estranho?
— Vim a pedido de Zal’irckas. Ele me pediu que a acompanhasse pelo Oriente.
Fênix se virou para Gideão e pediu que esperasse fora do quarto. Fez um gesto para que o estranho se sentasse à sua frente. O homem sorria constantemente e olhava para Fênix de maneira curiosa e quase infantil.
— Contrataste o garoto apenas para cuidar de sua caravana ou ele tem ainda outras funções para ti?
— Tendes cuidado estranho, outra insinuação como esta e lhe arranco a língua. Não abuses de minha hospitalidade.
— Acalma-te, mulher, não quis ofendê-la. Peço-lhe desculpas pelo meu joguete. Não devemos lutar entre nós, já que somos como irmãos.
— Não lhe conheço, e não tenho intimidades contigo para que me chames de irmã. - A voz de Fênix se tornou rouca e com eco distante. - Quem és tu e por que Zal’irckas te procurou?
— Fênix, outras como tu tentaram este embuste comigo e não conseguiram. Não tentes inutilmente me persuadir. Vou lhe contar o que queres saber porque me agrada. Meu nome é N’dilo Odini[1], Zal’irckas me deu este nome quando falou comigo. Disse-me para procurar a mulher de máscara em Jerusalém e acompanhá-la em sua viagem.
Fênix se levantou e caminhava de um lado para outro, pensando, olhava para o chão. De repente, parou e levantou a cabeça, puxou os cabelos para trás e os prendeu.
— Quero saber por que Zal’irckas lhe procurou, quando isto aconteceu e porque lhe pediu para que me acompanhasse ao Oriente.
N’dilo se levantou e segurou-a pelos ombros, olhando diretamente nos olhos brancos e disse:
— Há quanto tempo vives? Cem, quinhentos, mil anos? Eu sou muito mais velho que tu, e Zal’irckas é infinitamente mais antigo que nós, Fênix. Tenho ordens dele para te ensinar a continuar viva neste mundo de vidas curtas. Um dia os homens comuns se aperceberão de nossa existência, pode levar séculos, milênios, mas não poderemos nos esconder ou usar de força e ouro, como fazemos agora. Devemos nos preparar e saber usar nossa longa vida em algo produtivo, criar um lugar para nós, a fim de usarmos a nossa experiência em favor de nós mesmos.
Fênix se virou e ficou em silêncio, segurava os próprios ombros. Estava de frente à janela aberta, ao longe se via um vulto de uma ave de rapina. O pássaro pousou no beiral da janela, era o mesmo pássaro cor de fogo que vira quando Zal’irckas lhe fez a proposta de imortalidade. Fênix pareceu sentir um arrepio e então o animal alçou vôo na noite enluarada.
— Conheço aquele pássaro, vi-o acompanhando Zal’irckas.
— Sim. - Fênix fez outra pausa - N’dilo, não concordo com o que disseste sobre o futuro, mas sinto que não serás uma companhia totalmente desagradável em minha jornada para o Oriente, uma vez que falas bem e assim poderá me contar histórias de tua longa vida.

(1995 d.C.)
Começava a chover fortemente e o motorista diminuiu a velocidade drasticamente.
— Douglas, por que diminuíste a marcha? - Fênix perguntou em alemão.
— Estamos atrás de uma fileira de caminhões e há muito movimento no sentido contrário, e ainda por cima, começou a chover em cântaros. Por enquanto, não podemos ir mais depressa.
— Muito bem, volte a dirigir mais rapidamente assim que for possível.
— Vou tentar.
Hugo lutava contra a ação do calmante e dos anestésicos, tentando prestar atenção às histórias que Fênix lhe contava, mas as substâncias estavam ganhando terreno rapidamente, e a sua voz se arrastou num lamento:
— N’dilo... é um... nimrod... tam...bém? Está vi... vo?
— Sim, sempre é ele que organiza os encontros, arrumando os locais e contatando-nos a cada quinze anos. Felizmente, não se deixou calejar pelo tempo.
— Eu também vi... um ... páss...aro... cor.... - E dormiu.
Fênix recolocou o banco no lugar e ficou olhando os limpadores fazerem flic, flic. A carreta que se arrastava à frente do furgão tinha apenas metade das luzes necessárias e soltava uma fumaça negra pelo escapamento, que erguia-se lentamente, por causa da chuva. Os faróis que viam em sentido contrário espoucavam em bolhas de luz no pára-brisa.
— Como está o garoto?
— Adormeceu há pouco.
— Talvez não tenha sido uma boa idéia tirá-lo do hospital. Ele ainda  está muito fraco para isso.
— Infelizmente, foi necessário. Eu não poderia comparecer ao encontro sem levá-lo comigo. Apesar das agruras que sofreu, seu organismo suportaria ainda mais sem conseqüências permanentes, mas Hugo ainda não se acostumou à dor. Que horas são agora?
— Onze e quarenta e oito.
— Encoste, é melhor que tu descanses. Eu dirijo até de manhã.
Douglas ligou a seta e parou o carro no acostamento, trocou de lugar com a mulher e reclinou o banco.
— Não vá muito depressa, Fênix. Eu não quero me sacudir à toa.
— Seu sarcasmo é inútil e desnecessário, Douglas.
O alemão dormiu pesadamente, e acordou com dores pelo corpo. Tinha a sensação de ter levado uma surra, demorou alguns minutos para perceber que ainda estava dentro do furgão, e que estavam ainda rodando.
— Vamos parar para comer em breve. Arrume-se.
— Quero tomar banho e trocar de roupa também. - Respondeu com a voz arrastada de sono. - Que horas são?
— Oito e vinte e três. Não se preocupe, Pararei num motel pois também necessito trocar-me.
Douglas levantou o banco e puxou um pente do bolso, arrumou rapidamente o cabelo e olhou por cima do encosto para Hugo.
— Ele ainda está sob o efeito dos sedativos?
— Sim, deverá dormir mais uma ou duas horas.
O alemão se esticou no banco e bocejou longa e sonoramente, começou a se coçar e falou com a voz arrastada.
— Você dirigiu a noite toda? Já devíamos ter chegado em São Paulo então.
— Choveu fortemente durante várias horas e o movimento estava intenso. Não houve condições de dirigir adequadamente. Vamos parar ali.
O furgão diminuiu e encostou num motel de ótima aparência, Fênix pediu um quarto e café para três. O motel tinha garagens individuais para cada quarto e o veículo por pouco não coube no cubículo. Douglas fechou a porta e abriu a lateral do carro, Fênix entrou no quarto com uma mala na mão esquerda e logo ouviu-se o chuveiro se abrir, ele jogou as outras malas em cima cama e berrou:
— Quanto tempo vamos ficar aqui?
— Temos que sair no máximo às dez e trinta. Trouxeste as malas?
— Sim. -Douglas se sentiu tentando a espiá-la, já que a porta estava aberta, verificar se ela tirava a máscara para banhar-se, assim poderia ver seu rosto. Imediatamente retirou a idéia da cabeça, estranha como era, Fênix poderia não se incomodar com sua presença ou espancá-lo até desmaiar.
A máscara era uma coisa que não lhe saía do pensamento, pois a mulher não a retirava da fronte em situação alguma. Douglas chegou a perguntar por que ela usava o artefato de uma maneira tão intensa, ao que Fênix respondeu:
— Há muitos anos fiz um acordo com uma determinada entidade sobre o uso da máscara.
— Que tipo de acordo?
— Não é de tua real necessidade saber de tais detalhes.
Dali em diante não perguntou mais nada à Fênix que não se relacionasse às tarefas que lhe eram impostas. Mas continuou analisando a mulher de longe, então a mascara não tinha apenas valor estético ou de proteção como havia imaginado anteriormente. Será que isto estaria ligado à personalidade e à força de Fênix? Haveria então alguma verdade em rituais de magia e tudo o mais? O mago Paulo Coelho dizia ser possível retirar energia da natureza e conhecer a data da própria morte através de rituais relativamente simples. Mesmo que fosse algo do gênero, como era possível suportar aquele metal o tempo todo no rosto? O suor, por exemplo, como era retirado daquela parte do corpo? E a higiene? Questões como essa às vezes lhe retiravam o sono por completo. Não ousava perguntar nada à Fênix pois tinha quase certeza de que ela não lhe responderia. Talvez Hugo, ou Gato como ela o chamava, soubesse de alguma coisa, pois havia sido seu aluno e na noite anterior tinham conversado por várias horas. Sim, talvez pudesse arrancar alguma coisa de Hugo. Foi até o furgão.
Fênix se enganara, não havia passado nem meia hora desde que haviam entrado no motel e Hugo já estava desperto, embora ainda com a fala arrastada. Pelo menos uma vez ela errou, pensou. Puxou o banco do passageiro e sentou-se ao lado do enfermo.
Sprech du Deutsch?
— O quê?
— Eu falo em português, espero que me entenda nesta linguagem.
— Seu sarcasmo é ridículo.
— Você está falando igual à Fênix, não é à toa que ela gosta de você.
— Não sei se ela gosta de mim, acho que estou apenas sendo treinado. Aliás foi a única coisa que com certeza nós dois fizemos juntos. Fênix sempre me surpreende, me excita e me assusta. Como foi que se encontrou com ela? E qual é o seu nome? Quem é você, afinal?
Douglas levantou-se e abriu um dos armários, tirou uma garrafa e a abriu, sentou-se e tomou um grande gole fazendo uma careta.
— Muito bem, meu nome é Douglas Marx, sou alemão naturalizado brasileiro. Meu pai me apresentou à Fênix alguns anos atrás, dizendo-me que quando ela precisasse, eu deveria atendê-la prontamente. É uma história longa e gosto de contar histórias tomando a hellfire aqui. - E sacudiu a garrafa - É uma receita de família, batizada por um primo americano de meu avô. - Fez uma pausa, deixando Hugo na expectativa. - Eu não sei se vou contar esta história agora. Acho que vou deixar para depois que você me contar a sua.
— Que interesse você tem nisso, Douglas? Quer nos estudar?
— Talvez eu seja só curioso.
— Acredito que não existam problemas em lhe contar alguma coisa. -Fez uma expressão de dor  e respirou profundamente.
— O que foi?
— O efeito dos sedativos está passando, acho. Estou começando a sentir dores pelo corpo todo.
— Vou falar com Fênix. - e saiu do furgão.
Maldição, pensou Douglas, alguma coisa parecia se armar contra sua curiosidade. No momento em que o rapaz iria contar alguma coisa ele começa a sentir dores? Era realmente muita coincidência.


[1]  “O primeiro de todos” ou “o mais velho” em português.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

nimrods, capitulo cinco, parte um

Eis que a Morte novamente
bate em meus umbrais
Como nunca antes bateu
Novamente não me levará
novamente não se satisfará
novamente não morrerei
Eu que me levantei
das cinzas
Hoje não queimarei
Sim, ela me olha com fúria única
agita sua fria túnica
Mas passará dos meus umbrais
Assim é, assim foi, assim será
Já vi muitos a te acompanharem
Já vi muitos chegarem
Vi a vida nascer da terra
e a terra nascer da vida

Não, Morte, hoje não irei
Hoje não te contentarei
Tu não sorrirás hoje
Tu me chamas novamente
Tua voz é como o trovão
Mas meu corpo não estremece
Meu espírito se fortalece
Brilha ainda mais a minha luz
Sei de minha vida sem fim
Sei que hoje tu desistes
Sei que retornarás
Sei que tentarás me levar

MAS MEU CANTO DE MORTE,
ESTE, TU MORTE,
        
         JAMAIS
                     JAMAIS
                                 ME OUVIRÁ
                                               ENTOAR
Capítulo Cinco
Fênix

( 1505 a.C.)
Numa pequena aldeia perdida em alguma montanha do nordeste africano, aquele foi um dia de festa, a mais jovem das esposas do chefe esteve sentindo dores pela tarde toda, as mulheres mais experientes já sabiam o que aquilo significava: em breve nasceria mais uma criança. Ovelhas foram sacrificadas e o trigo, ceifado. O deus Sol foi invocado para dar forças à parturiente, à sua irmã, a Lua, foi pedido que afastasse as forças das trevas com sua luz prateada, pois o trabalho de parto se prolongaria pela noite. Todos os homens dançavam ao redor das fogueiras, menos o pai da criança que deveria lhe dar o nome.
Foi como se a vida fosse arrancada de todos, tal o silêncio que se fez quando o chefe saiu de sua cabana, carregando a criança nos braços desajeitados.
— Que os deuses tenham piedade de nós. - Alguém exclamou.
— Isto deve ser obra do demônio - Outro gritou.
Começou uma discussão geral sobre a situação e o tumulto já saia de controle quando o feiticeiro acalmou todos soltando maldições e pragas sobre os revoltados. Assim que todos se acalmaram e lhe encararam com um olhar inquisidor, ele se aproximou do pai e apontou para a recém-nascida:
— Isto é mau agouro para nossa gente.
— Minha família trouxe a desgraça para nós. O que devemos fazer?
— Livrar-me-ei desse demônio antes que traga seus asseclas para nós. Dê-me a criança.
Assim, o feiticeiro levou a menina de pele clara e cabelos cor de fogo para sua cabana, onde eliminou o demônio utilizando-se de magia e instrumentos secretos. Pelo menos, era nisso em que todos acreditavam. Acontece que, duas semanas depois, como acontecia todo mês, passou nas proximidades da aldeia, um mercador das bandas do leste, que trocou a menina por um casal de galinhas.
Seis anos depois, o mercador trocou a ruiva por três mulheres jovens e fortes, com um ricaço estrangeiro, um grego talvez. O homem pareceu se encantar pela menina e nem pechinchou o preço, pagou e levou-a pelo braço até a carroça onde havia mais alguns escravos sentados, estes, por algum motivo, se mantiveram longe da menina.
Com o passar do tempo o grego, que na verdade era cretense, percebeu que aquela criança de cabelos cor de fogo não era comum, aprendia rápido demais e tinha uma autoconfiança que chegava a ser irritante, entretanto, nunca esqueceu a sua posição de escrava. Obedecia a qualquer comando de seu mestre e não questionava os afazeres da casa. Aos doze anos, ganhou a liberdade, mas ficou ao lado de seu ex-dono auxiliando-o em questões caseiras, deixando-o mais livre para os seus negócios
Observando a inteligência e habilidade da garota, Jonel resolveu investir para o futuro; mandou chamar os melhores professores do país para que a garota estudasse com eles, assim quando ficasse velho, poderia se aposentar e ela cuidaria dos empreendimentos. Um dia ao estudar ao a religião egípcia, ela soube da lenda de Fênix e comentou:
— De hoje em diante me chamarei Fênix, este é o nome da minha alma, agora eu sei.
Houve protestos, pois este gesto poderia dificultar a relação de Jonel com os egípcios, mas a menina não retrocedeu à idéia.

Vinte e cinco anos depois, Jonel morreu de um infarto enquanto fazia amor com Fênix, foi enterrado num hall de sua própria casa, com todas as cerimônias possíveis.
Fênix já tinha assumido a frente de seus empreendimentos há anos enquanto Jonel cuidava dos criados e do jardim, assuntos de negócios só lhe eram trazidos quando algum mercador não concordava em negociar com uma mulher, mas estes casos se tornaram cada vez mais raros. Na ocasião do enterro de Jonel houve quem dissesse que sem a reputação de Jonel para lhe segurar, Fênix iria à bancarrota em poucos anos, mas estas vozes foram silenciadas. A mulher duplicou a fortuna pessoal que herdou em seis anos, seu codinome se tornou conhecido por todo o Mediterrâneo, sua frota de barcos só não era maior do que a dos fenícios. Seu estilo de negociação era frio e cruel, se fosse necessário humilhar os negociantes, ela o fazia, se era preciso extorquir, pressionar, assassinar alguém, Fênix não tinha remorsos. Alguns a tratavam pelas costas como “aquela maldita cadela vermelha”. Com o tempo os braços de Fênix alcançaram as terras dos vickings e dos druidas, e até nos confins do Nilo, onde era respeitada e venerada como uma deusa.
No quadragésimo sétimo aniversário de morte de Jonel, quando ia prestar homenagem ao seu primeiro homem, Fênix percebeu uma figura muito alta e magra, com uma trança enorme jogada no lado esquerdo, em frente ao mausoléu construído em cima do túmulo de Jonel.
— Quem és tu, e como chegaste até aqui? Meus guardas deviam tê-lo impedido de entrar em minha propriedade.
— Mesmo que teus guardas pudessem me ver, nada fariam contra mim, Fênix. - O tom de voz do estranho era macio, nem masculina nem feminina
— Não respondeste à minha pergunta.
— Podes me chamar de Zal’irckas[1], e tenho negócios a tratar contigo.
— Entre meus mercadores não há ninguém com este nome, que tipo de negócios tu queres?
— Fênix, tu vives há oitenta e quatro anos e ainda aparentas menos de trinta. Tal como o pássaro do qual tiraste o nome, tu ainda viverás muito e, com minha ajuda, se erguerá das cinzas quando padecer.
A mulher cruzou os braços e ficou pensativa, olhando o túmulo de Jonel. Um pássaro cor de fogo pousou na beira do telhado, e encarou-a, na pequena cabeça os olhos pareciam faiscar, e levantou vôo. Fênix o acompanhou até que desaparecesse no horizonte, acabou ficando de costas para o estranho.
— Tu és um anjo, demônio ou feiticeiro?
— Os três, e ao mesmo tempo nenhum. Sou uma criatura indiferente aos deuses e demônios, e já não sou um homem.
— E o que ficarei devendo a ti se concordar com tua oferta?


[1] Este nome pode ser interpretado como “criatura de poder” ou  “entidade antiga” em português.

nimrods, capitulo

Exatamente às dez horas da noite do dia quinze de Junho, a ambulância saia do  Hospital e Maternidade São José, em Jaraguá do Sul em direção à Joinville, cinqüenta quilômetros distante. Todos no hospital reclamaram da transferência de Hugo Rocha, fosse pelo horário fosse porque ele era um rapaz simpático. O carro deu a volta no centro da cidade e entrou na rua Joinville em direção à BR-101. Como todo mundo, o motorista andava rápido. Logo depois do trevo de Guaramirim, o assistente percebeu alguém deitado no asfalto, ao lado de um furgão enorme; pararam a ambulância e chegaram próximo do corpo.
— Este homem não está ferido.
— Não mesmo. Ele está dormindo, veja. - O assistente sacudiu o corpo no chão e este soltou o gemido típico dos adormecidos.
— Que estranho.
Súbito, um vulto feminino saltou de cima do furgão, deu uma pirueta no ar e caiu  de cócoras no chão. Os dois homens mal haviam se levantado quando a figura moveu um braço, tão rapidamente que mal pôde ser visto, e o motorista sentiu uma forte pontada no ombro direito. Viu que uma espécie de dardo estava encravado através da roupa e caiu desacordado. O assistente só teve tempo de virar-se para fugir e sentiu duas fortes pontadas nas costas, caiu quase morto no asfalto frio. O homem que estava deitado se levantou  e vendo os dois paramédicos desacordados, perguntou desconfiado:
— Você não os matou, ou matou? - A voz tinha um sotaque alemão fortíssimo, língua na qual a mulher respondeu.
— Não há necessidade. Os dois acordarão em duas ou três horas, até lá temos que transferir os principais instrumentos para o nosso veículo.
— Então comecemos.
O homem puxou o motorista  para dentro da ambulância, e o deitou nos bancos, para fazer o mesmo com o assistente, teve que ser ajudado pela mulher, dado o peso do desacordado. Na parte de trás, Hugo soltava alguns gemidos e perguntou com uma voz engrolada:
— Quem está aí? O que está acontecendo?
— Não se preocupe, somos seus amigos.
Fênix abriu a portas traseira do carro e entrou, começou a mexer nos aparelhos e desconectou os tubos de soro e analgésico e puxou o enfermo para fora sozinha, quando a maca bateu no chão Hugo soltou um grito de dor e esbravejou, levou um tapa de sua ex-professora.
— Não temos tempo para sua dor, Gato. Há coisas mais importantes para fazer.
Ela o empurrou até a traseira do furgão e abriu a porta. Era um modelo Chevrolet modificado, tinha pelo menos meio metro a mais no comprimento e uns dez centímetros na largura que os comuns. Aos trancos, Hugo foi posto dentro do veículo. Ele soltou alguns gemidos, mas não ousou protestar novamente. O homem que acompanhava Fênix entrou no furgão carregando alguns aparelhos, conectou-os novamente no corpo do rapaz e saiu, logo voltou carregando os frascos de soro e analgésico.
— Tudo pronto, Fênix. Vamos deixar a ambulância por aí?
— Sim, já perdemos muito tempo aqui.
O homem sentou à direção e o carro arrancou furiosamente. Fênix puxou o banco do passageiro através de trilhos especialmente construídos até ao lado de Hugo e se sentou, puxou uma gaveta num armário e tirou uma pequena seringa, misturou o conteúdo de dois pequenos frascos e injetou a droga no braço do seu pupilo.
— Isto entrará em ação em dez minutos, até lá, terás que disfarçar a dor de alguma maneira. - a voz de Fênix, falando na língua antiga, parecia fazer tremer o furgão. - Agora que estás atingindo a maturidade, acredito é teu direito saber quem somos realmente e porque tenho que levá-lo neste estado lastimável para São Paulo. Antes, porém, deves me contar por que ainda não abriste os presentes que lhe dei.
Hugo estava de olhos fechados, o corpo todo lhe doía, soltava pequenos suspiros de dor e a injeção que sua professora lhe dera estava parecia lhe corroer o braço. Mas esqueceu de tudo quando ouviu o pedido da mulher. Como ela sabia que a mala e a caixinha não tinham sido abertas ainda? Como dizer que ele tivera medo, que esquecera e que não quisera enfrentar as conseqüências? Não que tivesse medo do que pudesse lhe acontecer, mas se sentia inseguro.
— Eu...não tive coragem. Não, estou mentindo. Eu não sei, neste tempo todo, segurei a caixa de anéis centenas ou milhares de vezes, cheguei a abrir o trinco, mas nunca vi o conteúdo. Quanto à mala, ocorreu-me o mesmo.
— Não esperava um comportamento tão inseguro de ti. Pensas que eu te faria algum mal? Isto é tolice.
Fênix abriu um dos armários atrás de si e retirou a mala e a pequena caixa que deixara na cabana em  Algeciras, Hugo espantou-se:
— O que isso está fazendo aqui? Como tu pegaste estas coisas?
— Pedi a teu tio que me deixasse ver o teu quarto e peguei-as.
— Foste em minha casa? O que achaste do meu quarto?
— Percebi que te deixaste contaminar pela vaidade humana, repintando o cômodo, adquirindo uma televisão e vestimentas sofisticadas, mas inúteis. Espero que pelo menos tenha tido sucesso no emprego que teu tio lhe arranjou. Vi  também que lês muito e tens gosto relativamente variado, isto lhe terá utilidade no futuro. Mas, no momento isto não é importante, trouxe os presentes comigo pois tu não voltarás mais à casa de teu tio.
—  Por quê?
— De agora até a hora de minha morte tu ficarás ao meu lado, a segunda etapa de teu treinamento começa a partir do encontro. Lá serás curado de tuas enfermidades e conhecerás os outros nimrods plenos, que lhe avaliarão e, com certeza, te aceitaram na irmandade
— Do que estás falando? Não compreendo.
— Acho que é chegada a hora de esclarecer-te dos fatos, e da verdade sobre mim. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

nimrods, capitulo três parte três


Exatamente às dez horas da noite do dia quinze de Junho, a ambulância saia do  Hospital e Maternidade São José, em Jaraguá do Sul em direção à Joinville, cinqüenta quilômetros distante. Todos no hospital reclamaram da transferência de Hugo Rocha, fosse pelo horário fosse porque ele era um rapaz simpático. O carro deu a volta no centro da cidade e entrou na rua Joinville em direção à BR-101. Como todo mundo, o motorista andava rápido. Logo depois do trevo de Guaramirim, o assistente percebeu alguém deitado no asfalto, ao lado de um furgão enorme; pararam a ambulância e chegaram próximo do corpo.
— Este homem não está ferido.
— Não mesmo. Ele está dormindo, veja. - O assistente sacudiu o corpo no chão e este soltou o gemido típico dos adormecidos.
— Que estranho.
Súbito, um vulto feminino saltou de cima do furgão, deu uma pirueta no ar e caiu  de cócoras no chão. Os dois homens mal haviam se levantado quando a figura moveu um braço, tão rapidamente que mal pôde ser visto, e o motorista sentiu uma forte pontada no ombro direito. Viu que uma espécie de dardo estava encravado através da roupa e caiu desacordado. O assistente só teve tempo de virar-se para fugir e sentiu duas fortes pontadas nas costas, caiu quase morto no asfalto frio. O homem que estava deitado se levantou  e vendo os dois paramédicos desacordados, perguntou desconfiado:
— Você não os matou, ou matou? - A voz tinha um sotaque alemão fortíssimo, língua na qual a mulher respondeu.
— Não há necessidade. Os dois acordarão em duas ou três horas, até lá temos que transferir os principais instrumentos para o nosso veículo.
— Então comecemos.
O homem puxou o motorista  para dentro da ambulância, e o deitou nos bancos, para fazer o mesmo com o assistente, teve que ser ajudado pela mulher, dado o peso do desacordado. Na parte de trás, Hugo soltava alguns gemidos e perguntou com uma voz engrolada:
— Quem está aí? O que está acontecendo?
— Não se preocupe, somos seus amigos.
Fênix abriu a portas traseira do carro e entrou, começou a mexer nos aparelhos e desconectou os tubos de soro e analgésico e puxou o enfermo para fora sozinha, quando a maca bateu no chão Hugo soltou um grito de dor e esbravejou, levou um tapa de sua ex-professora.
— Não temos tempo para sua dor, Gato. Há coisas mais importantes para fazer.
Ela o empurrou até a traseira do furgão e abriu a porta. Era um modelo Chevrolet modificado, tinha pelo menos meio metro a mais no comprimento e uns dez centímetros na largura que os comuns. Aos trancos, Hugo foi posto dentro do veículo. Ele soltou alguns gemidos, mas não ousou protestar novamente. O homem que acompanhava Fênix entrou no furgão carregando alguns aparelhos, conectou-os novamente no corpo do rapaz e saiu, logo voltou carregando os frascos de soro e analgésico.
— Tudo pronto, Fênix. Vamos deixar a ambulância por aí?
— Sim, já perdemos muito tempo aqui.
O homem sentou à direção e o carro arrancou furiosamente. Fênix puxou o banco do passageiro através de trilhos especialmente construídos até ao lado de Hugo e se sentou, puxou uma gaveta num armário e tirou uma pequena seringa, misturou o conteúdo de dois pequenos frascos e injetou a droga no braço do seu pupilo.
— Isto entrará em ação em dez minutos, até lá, terás que disfarçar a dor de alguma maneira. - a voz de Fênix, falando na língua antiga, parecia fazer tremer o furgão. - Agora que estás atingindo a maturidade, acredito é teu direito saber quem somos realmente e porque tenho que levá-lo neste estado lastimável para São Paulo. Antes, porém, deves me contar por que ainda não abriste os presentes que lhe dei.
Hugo estava de olhos fechados, o corpo todo lhe doía, soltava pequenos suspiros de dor e a injeção que sua professora lhe dera estava parecia lhe corroer o braço. Mas esqueceu de tudo quando ouviu o pedido da mulher. Como ela sabia que a mala e a caixinha não tinham sido abertas ainda? Como dizer que ele tivera medo, que esquecera e que não quisera enfrentar as conseqüências? Não que tivesse medo do que pudesse lhe acontecer, mas se sentia inseguro.
— Eu...não tive coragem. Não, estou mentindo. Eu não sei, neste tempo todo, segurei a caixa de anéis centenas ou milhares de vezes, cheguei a abrir o trinco, mas nunca vi o conteúdo. Quanto à mala, ocorreu-me o mesmo.
— Não esperava um comportamento tão inseguro de ti. Pensas que eu te faria algum mal? Isto é tolice.
Fênix abriu um dos armários atrás de si e retirou a mala e a pequena caixa que deixara na cabana em  Algeciras, Hugo espantou-se:
— O que isso está fazendo aqui? Como tu pegaste estas coisas?
— Pedi a teu tio que me deixasse ver o teu quarto e peguei-as.
— Foste em minha casa? O que achaste do meu quarto?
— Percebi que te deixaste contaminar pela vaidade humana, repintando o cômodo, adquirindo uma televisão e vestimentas sofisticadas, mas inúteis. Espero que pelo menos tenha tido sucesso no emprego que teu tio lhe arranjou. Vi  também que lês muito e tens gosto relativamente variado, isto lhe terá utilidade no futuro. Mas, no momento isto não é importante, trouxe os presentes comigo pois tu não voltarás mais à casa de teu tio.
  Por quê?
— De agora até a hora de minha morte tu ficarás ao meu lado, a segunda etapa de teu treinamento começa a partir do encontro. Lá serás curado de tuas enfermidades e conhecerás os outros nimrods plenos, que lhe avaliarão e, com certeza, te aceitaram na irmandade
— Do que estás falando? Não compreendo.
— Acho que é chegada a hora de esclarecer-te dos fatos, e da verdade sobre mim.