sexta-feira, 19 de agosto de 2011

nimrods, capitulo três parte três


Exatamente às dez horas da noite do dia quinze de Junho, a ambulância saia do  Hospital e Maternidade São José, em Jaraguá do Sul em direção à Joinville, cinqüenta quilômetros distante. Todos no hospital reclamaram da transferência de Hugo Rocha, fosse pelo horário fosse porque ele era um rapaz simpático. O carro deu a volta no centro da cidade e entrou na rua Joinville em direção à BR-101. Como todo mundo, o motorista andava rápido. Logo depois do trevo de Guaramirim, o assistente percebeu alguém deitado no asfalto, ao lado de um furgão enorme; pararam a ambulância e chegaram próximo do corpo.
— Este homem não está ferido.
— Não mesmo. Ele está dormindo, veja. - O assistente sacudiu o corpo no chão e este soltou o gemido típico dos adormecidos.
— Que estranho.
Súbito, um vulto feminino saltou de cima do furgão, deu uma pirueta no ar e caiu  de cócoras no chão. Os dois homens mal haviam se levantado quando a figura moveu um braço, tão rapidamente que mal pôde ser visto, e o motorista sentiu uma forte pontada no ombro direito. Viu que uma espécie de dardo estava encravado através da roupa e caiu desacordado. O assistente só teve tempo de virar-se para fugir e sentiu duas fortes pontadas nas costas, caiu quase morto no asfalto frio. O homem que estava deitado se levantou  e vendo os dois paramédicos desacordados, perguntou desconfiado:
— Você não os matou, ou matou? - A voz tinha um sotaque alemão fortíssimo, língua na qual a mulher respondeu.
— Não há necessidade. Os dois acordarão em duas ou três horas, até lá temos que transferir os principais instrumentos para o nosso veículo.
— Então comecemos.
O homem puxou o motorista  para dentro da ambulância, e o deitou nos bancos, para fazer o mesmo com o assistente, teve que ser ajudado pela mulher, dado o peso do desacordado. Na parte de trás, Hugo soltava alguns gemidos e perguntou com uma voz engrolada:
— Quem está aí? O que está acontecendo?
— Não se preocupe, somos seus amigos.
Fênix abriu a portas traseira do carro e entrou, começou a mexer nos aparelhos e desconectou os tubos de soro e analgésico e puxou o enfermo para fora sozinha, quando a maca bateu no chão Hugo soltou um grito de dor e esbravejou, levou um tapa de sua ex-professora.
— Não temos tempo para sua dor, Gato. Há coisas mais importantes para fazer.
Ela o empurrou até a traseira do furgão e abriu a porta. Era um modelo Chevrolet modificado, tinha pelo menos meio metro a mais no comprimento e uns dez centímetros na largura que os comuns. Aos trancos, Hugo foi posto dentro do veículo. Ele soltou alguns gemidos, mas não ousou protestar novamente. O homem que acompanhava Fênix entrou no furgão carregando alguns aparelhos, conectou-os novamente no corpo do rapaz e saiu, logo voltou carregando os frascos de soro e analgésico.
— Tudo pronto, Fênix. Vamos deixar a ambulância por aí?
— Sim, já perdemos muito tempo aqui.
O homem sentou à direção e o carro arrancou furiosamente. Fênix puxou o banco do passageiro através de trilhos especialmente construídos até ao lado de Hugo e se sentou, puxou uma gaveta num armário e tirou uma pequena seringa, misturou o conteúdo de dois pequenos frascos e injetou a droga no braço do seu pupilo.
— Isto entrará em ação em dez minutos, até lá, terás que disfarçar a dor de alguma maneira. - a voz de Fênix, falando na língua antiga, parecia fazer tremer o furgão. - Agora que estás atingindo a maturidade, acredito é teu direito saber quem somos realmente e porque tenho que levá-lo neste estado lastimável para São Paulo. Antes, porém, deves me contar por que ainda não abriste os presentes que lhe dei.
Hugo estava de olhos fechados, o corpo todo lhe doía, soltava pequenos suspiros de dor e a injeção que sua professora lhe dera estava parecia lhe corroer o braço. Mas esqueceu de tudo quando ouviu o pedido da mulher. Como ela sabia que a mala e a caixinha não tinham sido abertas ainda? Como dizer que ele tivera medo, que esquecera e que não quisera enfrentar as conseqüências? Não que tivesse medo do que pudesse lhe acontecer, mas se sentia inseguro.
— Eu...não tive coragem. Não, estou mentindo. Eu não sei, neste tempo todo, segurei a caixa de anéis centenas ou milhares de vezes, cheguei a abrir o trinco, mas nunca vi o conteúdo. Quanto à mala, ocorreu-me o mesmo.
— Não esperava um comportamento tão inseguro de ti. Pensas que eu te faria algum mal? Isto é tolice.
Fênix abriu um dos armários atrás de si e retirou a mala e a pequena caixa que deixara na cabana em  Algeciras, Hugo espantou-se:
— O que isso está fazendo aqui? Como tu pegaste estas coisas?
— Pedi a teu tio que me deixasse ver o teu quarto e peguei-as.
— Foste em minha casa? O que achaste do meu quarto?
— Percebi que te deixaste contaminar pela vaidade humana, repintando o cômodo, adquirindo uma televisão e vestimentas sofisticadas, mas inúteis. Espero que pelo menos tenha tido sucesso no emprego que teu tio lhe arranjou. Vi  também que lês muito e tens gosto relativamente variado, isto lhe terá utilidade no futuro. Mas, no momento isto não é importante, trouxe os presentes comigo pois tu não voltarás mais à casa de teu tio.
  Por quê?
— De agora até a hora de minha morte tu ficarás ao meu lado, a segunda etapa de teu treinamento começa a partir do encontro. Lá serás curado de tuas enfermidades e conhecerás os outros nimrods plenos, que lhe avaliarão e, com certeza, te aceitaram na irmandade
— Do que estás falando? Não compreendo.
— Acho que é chegada a hora de esclarecer-te dos fatos, e da verdade sobre mim. 

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