Eis que a Morte novamente
bate em meus umbrais
Como nunca antes bateu
Novamente não me levará
novamente não se satisfará
novamente não morrerei
Eu que me levantei
das cinzas
Hoje não queimarei
Sim, ela me olha com fúria única
agita sua fria túnica
Mas passará dos meus umbrais
Assim é, assim foi, assim será
Já vi muitos a te acompanharem
Já vi muitos chegarem
Vi a vida nascer da terra
e a terra nascer da vida
Não, Morte, hoje não irei
Hoje não te contentarei
Tu não sorrirás hoje
Tu me chamas novamente
Tua voz é como o trovão
Mas meu corpo não estremece
Meu espírito se fortalece
Brilha ainda mais a minha luz
Sei de minha vida sem fim
Sei que hoje tu desistes
Sei que retornarás
Sei que tentarás me levar
MAS MEU CANTO DE MORTE,
ESTE, TU MORTE,
JAMAIS
JAMAIS
ME OUVIRÁ
ENTOAR
Capítulo Cinco
Capítulo Cinco
Fênix
( 1505 a.C.)
Numa pequena aldeia perdida em alguma montanha do nordeste africano, aquele foi um dia de festa, a mais jovem das esposas do chefe esteve sentindo dores pela tarde toda, as mulheres mais experientes já sabiam o que aquilo significava: em breve nasceria mais uma criança. Ovelhas foram sacrificadas e o trigo, ceifado. O deus Sol foi invocado para dar forças à parturiente, à sua irmã, a Lua, foi pedido que afastasse as forças das trevas com sua luz prateada, pois o trabalho de parto se prolongaria pela noite. Todos os homens dançavam ao redor das fogueiras, menos o pai da criança que deveria lhe dar o nome.
Foi como se a vida fosse arrancada de todos, tal o silêncio que se fez quando o chefe saiu de sua cabana, carregando a criança nos braços desajeitados.
— Que os deuses tenham piedade de nós. - Alguém exclamou.
— Isto deve ser obra do demônio - Outro gritou.
Começou uma discussão geral sobre a situação e o tumulto já saia de controle quando o feiticeiro acalmou todos soltando maldições e pragas sobre os revoltados. Assim que todos se acalmaram e lhe encararam com um olhar inquisidor, ele se aproximou do pai e apontou para a recém-nascida:
— Isto é mau agouro para nossa gente.
— Minha família trouxe a desgraça para nós. O que devemos fazer?
— Livrar-me-ei desse demônio antes que traga seus asseclas para nós. Dê-me a criança.
Assim, o feiticeiro levou a menina de pele clara e cabelos cor de fogo para sua cabana, onde eliminou o demônio utilizando-se de magia e instrumentos secretos. Pelo menos, era nisso em que todos acreditavam. Acontece que, duas semanas depois, como acontecia todo mês, passou nas proximidades da aldeia, um mercador das bandas do leste, que trocou a menina por um casal de galinhas.
Seis anos depois, o mercador trocou a ruiva por três mulheres jovens e fortes, com um ricaço estrangeiro, um grego talvez. O homem pareceu se encantar pela menina e nem pechinchou o preço, pagou e levou-a pelo braço até a carroça onde havia mais alguns escravos sentados, estes, por algum motivo, se mantiveram longe da menina.
Com o passar do tempo o grego, que na verdade era cretense, percebeu que aquela criança de cabelos cor de fogo não era comum, aprendia rápido demais e tinha uma autoconfiança que chegava a ser irritante, entretanto, nunca esqueceu a sua posição de escrava. Obedecia a qualquer comando de seu mestre e não questionava os afazeres da casa. Aos doze anos, ganhou a liberdade, mas ficou ao lado de seu ex-dono auxiliando-o em questões caseiras, deixando-o mais livre para os seus negócios
Observando a inteligência e habilidade da garota, Jonel resolveu investir para o futuro; mandou chamar os melhores professores do país para que a garota estudasse com eles, assim quando ficasse velho, poderia se aposentar e ela cuidaria dos empreendimentos. Um dia ao estudar ao a religião egípcia, ela soube da lenda de Fênix e comentou:
— De hoje em diante me chamarei Fênix, este é o nome da minha alma, agora eu sei.
Houve protestos, pois este gesto poderia dificultar a relação de Jonel com os egípcios, mas a menina não retrocedeu à idéia.
Vinte e cinco anos depois, Jonel morreu de um infarto enquanto fazia amor com Fênix, foi enterrado num hall de sua própria casa, com todas as cerimônias possíveis.
Fênix já tinha assumido a frente de seus empreendimentos há anos enquanto Jonel cuidava dos criados e do jardim, assuntos de negócios só lhe eram trazidos quando algum mercador não concordava em negociar com uma mulher, mas estes casos se tornaram cada vez mais raros. Na ocasião do enterro de Jonel houve quem dissesse que sem a reputação de Jonel para lhe segurar, Fênix iria à bancarrota em poucos anos, mas estas vozes foram silenciadas. A mulher duplicou a fortuna pessoal que herdou em seis anos, seu codinome se tornou conhecido por todo o Mediterrâneo, sua frota de barcos só não era maior do que a dos fenícios. Seu estilo de negociação era frio e cruel, se fosse necessário humilhar os negociantes, ela o fazia, se era preciso extorquir, pressionar, assassinar alguém, Fênix não tinha remorsos. Alguns a tratavam pelas costas como “aquela maldita cadela vermelha”. Com o tempo os braços de Fênix alcançaram as terras dos vickings e dos druidas, e até nos confins do Nilo, onde era respeitada e venerada como uma deusa.
No quadragésimo sétimo aniversário de morte de Jonel, quando ia prestar homenagem ao seu primeiro homem, Fênix percebeu uma figura muito alta e magra, com uma trança enorme jogada no lado esquerdo, em frente ao mausoléu construído em cima do túmulo de Jonel.
— Quem és tu, e como chegaste até aqui? Meus guardas deviam tê-lo impedido de entrar em minha propriedade.
— Mesmo que teus guardas pudessem me ver, nada fariam contra mim, Fênix. - O tom de voz do estranho era macio, nem masculina nem feminina
— Não respondeste à minha pergunta.
— Podes me chamar de Zal’irckas[1], e tenho negócios a tratar contigo.
— Entre meus mercadores não há ninguém com este nome, que tipo de negócios tu queres?
— Fênix, tu vives há oitenta e quatro anos e ainda aparentas menos de trinta. Tal como o pássaro do qual tiraste o nome, tu ainda viverás muito e, com minha ajuda, se erguerá das cinzas quando padecer.
A mulher cruzou os braços e ficou pensativa, olhando o túmulo de Jonel. Um pássaro cor de fogo pousou na beira do telhado, e encarou-a, na pequena cabeça os olhos pareciam faiscar, e levantou vôo. Fênix o acompanhou até que desaparecesse no horizonte, acabou ficando de costas para o estranho.
— Tu és um anjo, demônio ou feiticeiro?
— Os três, e ao mesmo tempo nenhum. Sou uma criatura indiferente aos deuses e demônios, e já não sou um homem.
— E o que ficarei devendo a ti se concordar com tua oferta?