“Nós nos
aproximamos com o procedimento padrão. Exterminamos quase metade de sua
população no primeiro ataque. Adotamos
todos os outros procedimentos padronizados para ocupação e colonização. Procedimento comprovadamente
eficientes em todos os 338 mundos escravizados até o momento.
Mas ao contrário
de todos estes planetas, neste os sobreviventes não se renderam. Começaram a
atacar todas as bases e naves com suas armas e procedimentos inúteis. Nossos oficiais não sabiam como proceder, não
tínhamos preparo para este tipo de situação. O alto comando deu ordens para
exterminarmos o restante da população e cortarmos comunicações até que o
processo estivesse completo. Tinham receio que o comportamento rebelde dos
nativos se espalhasse entre os escravos.
Então nós o
caçamos, no solo e abaixo dele, nas águas e nas poucas naves atmosféricas que
lhe restaram. Matamos muitos, e muitos ficaram doentes e morrerram. Mesmo assim
lutaram até o final. Até que restou uma população muito pequena, protegida em
um conjunto de ilhas.
Quando chegamos
lá para terminar nossa missão, encontramos todos mortos. E algo aconteceu: uma
série de explosões nucleares começou a varrer o planeta, inundando tudo de
radiação e contaminando o planeta inteiro. Há relatos que mísseis foram disparados
de túneis secretos e que explodiram na alta atmosfera, desfigurando o campo
magnético do planeta, destruindo a camada protetora e deixando a radiação do
sol esterilizar todo o solo.
O que era antes
um planeta abundante de recursos orgânicos e cheio de escravos para trabalhar
por nós, se tornou uma rocha sem vida.
Claro que ainda
podemos retirar os minerais e compostos orgânicos do subsolo, mas com a
contaminação por radiação ainda alta e sem um fornecimento local de
suprimentos, o custo fica proibitivo.
Em resumo, nós os
exterminamos, mas perdemos de forma humilhante.”
Excertos do
Relatório Ocupação e Dominação Massiva: Setor 14 Área 29 Estrela 32
Major
estrategista e encarregado escravocrata Jiesh Manton.
Um ano depois, de
algum modo desconhecido, a informação de que, finalmente os Dominadores tinham
encontrado alguma resistência, vazou pela rede de computadores do império.
Alguém, em algum momento, deixou de apagar uma informação crucial, ou deixou
alguma senha desprotegida, ou imprimiu algum documento que não deveria. Isto
não importa. Um segredo guardado há centro e trinta ciclos escapara do controle
do Núcleo de Administração.
Foi algo como uma
corrente elétrica, atravessando os corredores das naves, de suas bases em solo,
nas profundezas das minas e dos oceanos dominados. A história de um planetinha
insignificante, perdido nos confins da galáxia, sem tecnologia avançada e sem
ter tido nenhuma preparação que conseguiu o impensável: impedir que os
Dominadores escravizassem seu povo.
O fato de a
população toda morrer no processo,mas ainda ser capaz de acionar uma armadilha
capaz de inutilizar o uso do planeta no futuro era vista como um ato de
heroísmo e bravura sem precedentes. Era como um recado a todos: “melhor morto
que escravo”.
AS manifestações
começaram discretas, com alguns escravos cometendo suicídio, outros se
recusando a comparecer ao trabalho. As punições impostas aos revoltados, como
espancamento e eletrocução acabaram encorajando manifestações maiores e logo
havia confusão por todo lado.
Não demorou para
que os rebeldes se organizassem, e raças que se odiavam de morte lutassem
juntas para se livrarem do jugo. Mesmo os escravos mais dóceis se juntaram ao
caos. Em três ciclos os Grandes Dominadores enfrentavam sua maior guerra, e tinha
inimigos contra os quais não poderia usar suas principais armas, pois os raios
fotônicos só serviam para grandes ataque a planetas. Usá-los contra suas
próprias bases, recheadas de escravos rebeldes, mas também de muitos soldados
Dominadores, seria uma atitude suicida.
Em dez ciclos
todos as rotas de suprimentos foram desviadas e controladas pelos rebeldes,
pois eles a conheciam melhor que seus mestres. Com soldados e civis morrendo
aos milhões, de fome, doenças e devido aos combates incessantes, o Núcleo de
Administração acabou se rendendo. Os antigos mestres se tornaram uma espécie à
beira da extinção, abandonada num planeta secundário, sem nenhum tipo de
tecnologia, sendo monitorados constantemente.
Mais duzentos e
trinta e dois ciclos se passaram em paz total, quando alguns cientistas fizeram
uma descoberta inacreditável. Um aparelho antiquíssimo foi encontrado flutuando
lentamente no espaço. Traçando sua trajetória retrógrada, descobriram que
se originava no setor da galáxia onde o lendário planeta havia se sacrificado
pela sua liberdade. Examinando mais detalhadamente o aparelho, havia dentro
dele um disco dourado, contendo fragmentos da cultura de seu povo.
Após fazer uma
cópia perfeita do dispositivo, como uma homenagem , os Libertos o arremessara novamente para o espaço,
mas com um disco extra, contando sua própria história, e de como foram
auxiliados por um povo com o qual nunca tiveram contato, além de um pequeno
objeto perdido no espaço.
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