sábado, 24 de maio de 2014

Dura vitória!

“Nós nos aproximamos com o procedimento padrão. Exterminamos quase metade de sua população no primeiro ataque.  Adotamos todos os outros procedimentos padronizados para ocupação  e colonização. Procedimento comprovadamente eficientes em todos os 338 mundos escravizados até o momento.
Mas ao contrário de todos estes planetas, neste os sobreviventes não se renderam. Começaram a atacar todas as bases e naves com suas armas e procedimentos inúteis.  Nossos oficiais não sabiam como proceder, não tínhamos preparo para este tipo de situação. O alto comando deu ordens para exterminarmos o restante da população e cortarmos comunicações até que o processo estivesse completo. Tinham receio que o comportamento rebelde dos nativos se espalhasse entre os escravos.
Então nós o caçamos, no solo e abaixo dele, nas águas e nas poucas naves atmosféricas que lhe restaram. Matamos muitos, e muitos ficaram doentes e morrerram. Mesmo assim lutaram até o final. Até que restou uma população muito pequena, protegida em um conjunto de ilhas.
Quando chegamos lá para terminar nossa missão, encontramos todos mortos. E algo aconteceu: uma série de explosões nucleares começou a varrer o planeta, inundando tudo de radiação e contaminando o planeta inteiro. Há relatos que mísseis foram disparados de túneis secretos e que explodiram na alta atmosfera, desfigurando o campo magnético do planeta, destruindo a camada protetora e deixando a radiação do sol esterilizar todo o solo.
O que era antes um planeta abundante de recursos orgânicos e cheio de escravos para trabalhar por nós, se tornou uma rocha sem vida.
Claro que ainda podemos retirar os minerais e compostos orgânicos do subsolo, mas com a contaminação por radiação ainda alta e sem um fornecimento local de suprimentos, o custo fica proibitivo.
Em resumo, nós os exterminamos, mas perdemos de forma humilhante.”
Excertos do Relatório Ocupação e Dominação Massiva: Setor 14 Área 29 Estrela 32
Major estrategista e encarregado escravocrata Jiesh Manton.

Um ano depois, de algum modo desconhecido, a informação de que, finalmente os Dominadores tinham encontrado alguma resistência, vazou pela rede de computadores do império. Alguém, em algum momento, deixou de apagar uma informação crucial, ou deixou alguma senha desprotegida, ou imprimiu algum documento que não deveria. Isto não importa. Um segredo guardado há centro e trinta ciclos escapara do controle do Núcleo de Administração.
Foi algo como uma corrente elétrica, atravessando os corredores das naves, de suas bases em solo, nas profundezas das minas e dos oceanos dominados. A história de um planetinha insignificante, perdido nos confins da galáxia, sem tecnologia avançada e sem ter tido nenhuma preparação que conseguiu o impensável: impedir que os Dominadores escravizassem seu povo.
O fato de a população toda morrer no processo,mas ainda ser capaz de acionar uma armadilha capaz de inutilizar o uso do planeta no futuro era vista como um ato de heroísmo e bravura sem precedentes. Era como um recado a todos: “melhor morto que escravo”.
AS manifestações começaram discretas, com alguns escravos cometendo suicídio, outros se recusando a comparecer ao trabalho. As punições impostas aos revoltados, como espancamento e eletrocução acabaram encorajando manifestações maiores e logo havia confusão por todo lado.
Não demorou para que os rebeldes se organizassem, e raças que se odiavam de morte lutassem juntas para se livrarem do jugo. Mesmo os escravos mais dóceis se juntaram ao caos. Em três ciclos os Grandes Dominadores enfrentavam sua maior guerra, e tinha inimigos contra os quais não poderia usar suas principais armas, pois os raios fotônicos só serviam para grandes ataque a planetas. Usá-los contra suas próprias bases, recheadas de escravos rebeldes, mas também de muitos soldados Dominadores, seria uma atitude suicida.
Em dez ciclos todos as rotas de suprimentos foram desviadas e controladas pelos rebeldes, pois eles a conheciam melhor que seus mestres. Com soldados e civis morrendo aos milhões, de fome, doenças e devido aos combates incessantes, o Núcleo de Administração acabou se rendendo. Os antigos mestres se tornaram uma espécie à beira da extinção, abandonada num planeta secundário, sem nenhum tipo de tecnologia, sendo monitorados constantemente.
Mais duzentos e trinta e dois ciclos se passaram em paz total, quando alguns cientistas fizeram uma descoberta inacreditável. Um aparelho antiquíssimo foi encontrado flutuando lentamente no espaço. Traçando sua trajetória retrógrada, descobriram que se originava no setor da galáxia onde o lendário planeta havia se sacrificado pela sua liberdade. Examinando mais detalhadamente o aparelho, havia dentro dele um disco dourado, contendo fragmentos da cultura de seu povo.
Após fazer uma cópia perfeita do dispositivo, como uma homenagem , os Libertos o arremessara novamente para o espaço, mas com um disco extra, contando sua própria história, e de como foram auxiliados por um povo com o qual nunca tiveram contato, além de um pequeno objeto perdido no espaço.


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