segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Jazek estava orgulhosa de seu aluno e, por enquanto, amante. Desde que o chamara do Canadá para Nova Iorque, ele se mostrara digno de ser um da irmandade nimrod. Ela ainda achava o nome infantil e ridículo, mas era cada vez mais aceito pelos outros membros, perto de trezentos agora. Já haviam sido muito mais, mas disputas idiotas de poder entre os mais novos estavam aos poucos destruindo a congregação. Era ultrajante ver criaturas iguais entre si lutarem para mostrar que possuíam mais terras, ouro ou idade. A sociedade nimrod estava tomando o mesmo caminho que a humana, caminho que ela mostrara a Nirus’oses, o Urso, quando o chamou para si. Em vez de cooperarem entre si para que fossem todos prósperos, alguns competiam entre si com o objetivo de autodepreciação.
É claro que se algum membro a desafiasse numa luta, ela aceitaria, mas apenas com caráter de treino ou para testar o aluno de algum colega. Estes combates eram muito comuns nos encontros. Nunca como uma disputa por alguma posse. Fênix, ela sabia, aceitaria este tipo de luta, mas ninguém ousava sequer se aproximar das duas mulheres, que alguns imaginavam serem dois demônios.
Jacques foi aceito na irmandade já falando fluentemente o “nimrodês”, como ele o apelidou e, como todos foi medido, pesado, registrado e recebeu um anel com seu nome marcado.
Jacques Frederique Russel, canadense, nascido em outubro de 1793, altura: dois metros e doze centímetros, peso: cento e vinte e oito quilos, cabelos castanhos, olhos idem. Este homem se parece comigo.
Acredito que sim, pois és tu que estas descrito nessa ficha. - Comentou Jazek
Duas coisas sempre me perturbaram nestes dois anos, e gostaria que me explicasse.
Jazek, sabendo de antemão o que seu aluno perguntaria, sentou-se na larga cama e desfez a trança do cabelo, tirou o casaco e o jogou no chão. Deitou-se e perguntou:
O que desejas saber, Urso?
Primeiro, como você enxerga com este metal em frente aos olhos? - Jacques já falava o zal linr com grande eloqüência, e como tinha uma bela voz, Jazek sentia prazer em ouvi-lo falar.
Eu fiz um acordo com Zal’irckas, há muito tempo atrás. Havia apenas cinco de nós naquele tempo. Eu, N’dilo, Fênix, Cit’anis e Ádila. Tu os conheceste hoje, em tua apresentação. Pois bem, Zal’irckas apareceu para mim e me fez uma proposta de imortalidade. Não a nossa semi-imortalidade, ainda sujeita às condições da morte, ele me propôs uma vida realmente sem fim. A um certo preço: a minha visão e meu rosto. De que adiantaria ser eternamente cega, comentei; Zal’irckas afirmou que minha cegueira era necessária para que minha verdadeira visão fosse libertada.
E que visão é essa?
Eu não conseguiria explicar, tu terias que ser cego para entender.
Podes tentar, não pode?
Muito bem, eu sinto as coisas ao meu redor, em todas as direções. Eu percebo o seu formato, sua cor, inclusive sua densidade e temperatura. Não necessito vê-las ou tocá-las para saber como agir com elas.
Isto me parece mágica, mas eu acredito. Foi assim que me jogaste no chão com tamanha facilidade quando nos conhecemos?
Isto já é parte de sua segunda pergunta, acredito. Eu também obtive uma força muito grande, fora até dos padrões nimrods. Zal’irckas com certeza me pregou uma peça no dia em que me deu a máscara.
Este Zal’irckas de quem tu falas tanto, ainda está vivo? Gostaria de conhecê-lo.
Ele não é uma pessoa a ser apresentada, Nirus’oses, se tu fores digno, ele aparecerá para ti.
Muito bem, então não falemos mais nisto. Vamos comemorar a minha ascensão à categoria nimrod.
Se colocou por cima dela e a beijou nos lábios, pescoço, seios. A pele era macia e firme, a dele dura como rocha. Depois, ela se deitou sobre o canadense, que a envolveu com um dos braços.
Não tens receio de contar-me estas coisas? Teus dons nimrods e os acordos que fizeste.
Mesmo que tu queiras espalhar o pouco que contei sobre mim, minha magia não o deixará abrir a boca. Mas quem lhe disse que te contei meus dons nimrods?

Jazek nunca lhe contara seu dom nimrod, e Jacques era tomado por pensamentos neste sentido, às vezes. Era possível ainda que ela tivesse mais alguma habilidade? Pelo que se lembrava Jazek era feiticeira, curandeira, guerreira, imortal, especialista em armas e ótima amante. Qual seria seu “dom especial”? Jacques acreditava que seria sua força, muito acima do que seria normal num corpo aparentemente tão delicado. Apesar do que ela lhe disse em sua última noite juntos na Itália, que só poderia usar seu dom apenas uma vez, ele ainda achava que estava sendo enganado pela sua ex-professora. Entretanto, se esta afirmação fosse verdade, Jazek deveria conter algo extremamente poderoso dentro de si, algo tão extraordinário que não pudesse ser revelado. Mas o que? O que poderia causar tanta cautela de um ser tão forte quanto Jazek, que parecia ter encarado o próprio inferno nos seus quase três milênios de vida? E quem era Zal’irckas que ela mencionava tanto? Ele seria um nimrod também? Então por que não comparecia aos encontros a cada quinze anos?
Cansado de fazer estas e muitas outras perguntas à sua mestra, sem receber respostas adequadas, Jacques Frederique Russel, o Grande Urso, decidiu deixá-la, à muito custo, e voltar à morar no norte do Canadá. Não que estivesse irritado, Jacques nunca guardava rancor de ninguém, mas se cansara de Jazek e dos mistérios que ela encerrava dentro de si. O canadense gostava muito mais de falar abertamente sobre tudo. Como a maior parte de seus colegas nimrods parecia gostar de fazer exatamente o contrário, resolveu entrar em contato com eles apenas nos encontros, organizados por N’dilo a cada quinze anos. Quando recebia alguma carta ou telefonema, apenas respondia-os sem muito interesse em encontrá-los pessoalmente, se algum aparecesse em sua casa, recebia-o com afetuosidade, mas nunca retribuía a visita. Foi assim até fins de 1964 quando, numa viagem pelo interior do país, descobriu uma linda garota de longos cabelos loiros e olhos verdes que pareciam arder no rosto. Jacques a identificou imediatamente como uma nimrod e se apaixonou perdidamente por ela. A reciproca foi idêntica e meio ano depois estavam casados. Joan se recusou a princípio, dada a imensa diferença entre os dois, mas o sentimento prevaleceu e se tornou uma mulher dedicada. Como sua família era conservadora, só ficou realmente sozinha com seu amado na noite de núpcias e sentiu-se quase rasgar-se ao meio durante as investidas de seu esposo que tentou, mas não conseguiu ser delicado ao deflorar sua noiva.
Por Deus, Jacques, nunca imaginei que fosse assim. Eu não vou conseguir andar por dias.
Eu sinto muito, sei que eu não devia ter agido assim, mas não consegui me controlar. Perdoe-me.
Não estou lhe culpando. Eu acho que devia ter me preparado, afinal, um homem do seu tamanho teria que ter um pênis fora do comum também.
Ainda acho que deveria ter ido mais devagar com você. Eu nunca tinha feito amor com uma virgem antes, e acho que fiquei nervoso.
Acho que vamos ter que nos acostumar.
E se acostumaram, até rápido demais, pensou Jacques. No dia seguinte voltaram a se amar e ela não sentiu mais dor nenhuma e até pediu uma segunda dose. Ele percebeu que a mulher se curava rápido demais até para uma nimrod e era ágil como uma gata. Conseguia se movimentar melhor que ele dentro da floresta e tinha um ótimo senso de direção. Os animais se aproximavam dela mas não a incomodavam. Até os cães mais ferozes se acalmavam e deitavam aos seus pés. Tinha ótima pontaria e seria uma excelente caçadora se gostasse de caça. Tolerava a atividade do marido porque sabia que era algo que estava no seu sangue, mas não a aprovava.
Jacques ainda não tinha contado a verdade sobre si a ela por medo de que sua esposa acreditasse que ele enlouquecera. Quando recebeu o convite para o próximo encontro, a ser realizado em agosto de 1965, na Austrália, foi obrigado a lhe falar.
Dois mil e oitocentos anos? Espera que eu acredite nisso? você está brincando? - Joan estava de pé na porta do banheiro, com as mãos na cintura, com uma expressão de surpresa estampada no rosto. - E você tem três mil provavelmente.
Não, Joan, eu tenho apenas cento e setenta e dois anos de idade.
Joan soltou uma gargalhada e se deixou sentar no chão. Cobriu o rosto com a mão e, ainda rindo, comentou.
Essa foi boa, e eu pensando que você falava a sério. Você não tem outra coisa para fazer, não?
Jacques, que estava sentado na cama se levantou e tentou, sem sucesso, impor o tom mórbido na voz que Jazek se mostrou mestre em utilizar:
Estou falando sério, Joan, e dentro de dois meses iremos para a Austrália, você acreditando ou não. É um compromisso que assumi antes de você nascer, e não vou desonrá-lo agora. Jazek me mataria.
Essa é a mulher de dois mil e tantos anos? O que mais ela tem de especial?
Jacques contou tudo o que sabia de Jazek e o que aprendeu com ela. Contou sobre os outros nimrods, dos encontros e dos espetáculos que davam. Falou dos sonhos que tivera antes de se encontrar com os outros nimrods e como conseguiu diferenciá-la como uma nimrod.
Quer dizer que eu sou imortal também? Isto é ridículo.
O gigante sentou-se em frente à esposa e inclinou-se, acariciou-lhe o cabelo e a beijou na testa. depois olhou-a bem dentro dos olhos e falou sério:
Já percebeu quantas vezes o seu hímen cresceu depois de ter sido rompido por mim? E que nunca ficou doente, nem mesmo uma gripe? Você não teve espinhas e até agora não ficou menstruada, o único sangramento que teve foi por causa dos seguidos rompimentos de seu hímen. Quando se corta, em poucos minutos o ferimento desaparece, e a cicatriz leva no máximo uma semana para desaparecer também. Além de que basta você pedir que todo mundo ao seu redor faz o que pediu. Acha que todo mundo é como você?
Joan ficou séria, pensando no que o marido lhe disse. Tinha notado tudo aquilo mas nunca dera importância a tais coisas, afinal fora assim desde o nascimento e achava que era natural. Mas colocado assim por outra pessoa, tudo mudava de figura. Era realmente possível alguém viver indefinidamente? Mas por quê? E como ninguém descobrira nada até agora?
Eu não sei por quê somos tão diferentes, mesmo entre os próprios nimrods, mas nós não somos feitos para julgar o destino. E quanto ao fato de ninguém saber de nossa existência... bem, algumas pessoas têm conhecimentos sobre nós. Elas sabem quem somos e o que fazemos e onde estamos. Elas nos mantêm no anonimato e nos dão cobertura em troca de favores que só nós podemos fazer.
E que tipo de favores são esses?
Dinheiro, intimidação, trabalhos sujos, contrabando. Nós mantemos certas famílias nos altos círculos da sociedade e elas nos mantêm onde nós queremos.
Fora o nosso poder de persuasão, não é?
Sim, nós temos a habilidade de fazer as pessoas acreditarem em nós.
Mas se nós trabalhamos para estas famílias, estamos presos a elas, somos dependentes dos mortais.
Sim e não. Precisamos deles para manter a nossa tranqüilidade, mas eles precisam muito mais de nós, porque se nós nos ausentarmos eles caem como um castelo de cartas. Já fizemos isto antes para mostrar a nossa força.
E você já matou alguém neste processo?
Jacques se levantou e deu algumas voltas no quarto, ficou olhando pela janela, apoiou as mãos no beiral. Sua voz se tornou grave e triste.
Infelizmente.
Joan se levantou e abraçou o marido, parecia estar chorando.
Não sei se poderei conviver com um assassino.
Você acredita que eu sou um assassino?
Não sei em que acreditar, tudo o que você disse parece mágico demais, e as provas mostradas são tão débeis...
Eu sei, meu amor, eu sei, mas no encontro você vai encontrar provas melhores.
É bom mesmo. Senão eu não poderei mais confiar em você.

domingo, 8 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

 — O DEUS-FERA DEVE MORRER.
NÃO! ISSO É PROIBIDO! ELE TEM O PROGRAMA MESTRE. SEM ELE A MANADA NÃO PROCRIA.... SERÁ O FIM DOS RODAMAMUTES.
OUTRO LÍDER TOMARÁ SEU LUGAR.
MAS NEM MESMO VOCÊ PODE MATAR O DEUS-FERA.
ELE SERÁ FORTE... MAS EU SEREI MAIS FORTE. ELE SERÁ VIOLENTO... MAS EU SEREI MAIS VIOLENTO! COMPARADO A MIM, ELE NÃO SERÁ NADA!

Trecho de um diálogo de A Era Metalzóica,
Graphic Novel de Pat Mills e Kevin O’Nell

Capítulo Seis
O Urso da Montanha

Jacques Frederique Russel nasceu e se criou nas florestas de pinheiros do Canadá. Sua principal fonte de renda era a caça de renas e sua principal diversão era pescar e atormentar as garotas das cidades onde passava em sua vida de nômade. Às vezes, quando a caça ficava escassa, Jacques servia de guia para turistas ou pesquisadores. Na virada do século sentiu-se atraído na direção de Nova Iorque. Quase todas as noites sonhava que lhe aconteceria algo inacreditável naquela cidade, algo que mudaria sua vida. Alguma espécie de revelação ou coisa parecida. Roubou uma carroça com uma dupla de cavalos e se dirigiu à estrada de ferro mais próxima, tomou alguns trens errados, mas finalmente conseguiu chegar em Nova Iorque em janeiro de 1903. Com o dinheiro da venda dos cavalos e da carroça comprou umas poucas peças de roupa e um relógio velho. Pelo menos estarei razoavelmente vestido para o meu destino, pensava, embora não tenha sido fácil encontrar um alfaiate que costurasse roupas grandes o suficiente para si. Estava usando apenas camisa e calça, enquanto quase todos que estavam à sua volta usavam pesados casacos, já que aquele seria o mês mais frio do ano. Jacques já havia notado isto em sua juventude, mas nunca se preocupou com o fato, assim como não se preocupava com sua idade, que segundo as suas contas já estaria próxima dos cento e dez anos. Mesmo assim aparentava no máximo trinta ou trinta e cinco. Quando comentava este assunto com outros, a maioria não acreditava, e nômade como era, não havia como provar. Mas Jacques não se importava com isso, desde que houvesse boas caçadas e um ou outro maluco a fim de se aventurar país adentro, não havia problemas.
O único problema surgido em sua vida era aquele sonho , onde uma mulher mascarada lhe dizia coisas estranhas, como poder infinito, imortalidade, magia. E sempre em Nova Iorque, Jacques não via a cidade em seu sonho, apenas sabia que estava naquela cidade. Às vezes era informado disso pela mulher. Ele sentia que só se livraria dos sonhos se fosse até a cidade.
Mr. Russel, Mr. Russel. Por aqui. - Gritou um rapaz franzino assim que Jacques pisou no chão da plataforma de trens. - Meu nome é John Stormstone, estávamos esperando pelo senhor. Venha comigo.
O rapaz se virou e ia dar o primeiro passo quando Jacques o segurou. A mão praticamente ocultou o ombro do rapaz, que era pelo menos meio metro mais baixo que o canadense, como quase todo mundo que passava por ali.
Espere aí, garoto. Por quê eu deveria acompanhar você? Nem sei o que quer comigo. E como sabe quem eu sou?
O rapaz não se intimidou com o tamanho de seu interlocutor e respondeu num tom de superioridade:
Não está interessado em saber do que se tratam seus sonhos? Quem acha que o trouxe para cá?
Você sabe dos meus sonhos? - Espantou-se o gigantesco homem, mas logo retornou ao seu ar despreocupado: Muito bem, garoto, eu vou lhe acompanhar até quem me chama.
A plataforma estava repleta de pessoas naquele dia e Jacques até que se divertia vendo como Stormstone tinha que desviar de todos, embora com aquele corpo magro ele facilmente passaria num buraco de agulha. O canadense acompanhava-o a um ou dois metros atrás, e conseguia andar facilmente, já que as pessoas simplesmente saíam de seu caminho. Talvez elas tivessem medo de esbarrar num corpo tão grande, ou lhe davam passagem por respeito à sua força. As moças e senhoras o olhavam com admiração, e Jacques lhes lançava um sorriso ou uma piscadela, sabendo que elas se envergonhariam. Sabia que não era realmente bonito, mas talvez se fizesse a barba e cortasse o cabelo, arrumasse boas roupas e usasse de delicadeza; talvez fosse então um pouco atraente.
Jacques e Stormstone saíram da plataforma e entraram numa carroça, que rangeu quando o canadense subiu. Percorreram diversas ruas da cidade, passando pelos bairros pobres, onde o cheiro de urina e fezes de cavalo se misturavam às humanas, moscas entravam pelas janelas do carro.
Estes são dejetos da sociedade. - Comentou Stormstone. - Pessoas que subsistem de maneira indigna, às vezes inumana. Eu gostaria de poder matar todos, mas além de inútil seria nojento e trabalhoso demais.
Se pudesse, você mataria a todos, realmente?
Claro que sim, são todos uns inúteis.
Jacques ficou em silêncio, observando o quadro triste que se descortinava à sua frente. Mulheres e crianças mendigavam pela rua mostrando chagas abertas, alguns se atiravam na carroça, pedindo pão ou uma moeda, e eram afastadas a chicotadas pelo cocheiro. Bêbados cambaleavam ou dormiam em escadas, no chão ou encostados em postes. Algumas fogueiras conseguidas à custa de casas esquentavam uns pobres diabos.
Temos mesmo que passar por aqui? É degradante.
Tenho ordens de lhe mostrar esta parte da cidade para lhe mostrar no que o ser humano está se transformando.
Meia hora depois Jacques começou a notar ruas e casas mais bem cuidadas e menos gente nas ruas. Notadamente as condições sociais da população era muito melhor do que o visto anteriormente. Logo o cocheiro guiava o carro por ruas arborizadas e cobertas de neve branca e mansões enormes e confortáveis. A carroça guinou na estrada e passou pelo portão de entrada de uma das casas mais elegantes da região. Pararam logo depois do portão e Stormstone desceu, seguido pelo canadense.
Senhor Stormstone, a quem você responde? Quem é seu chefe?
Fui encarregado de alguns serviços nesta região já há alguns anos por uma mulher muito interessante que....
Ora, garoto! Você não me parece do tipo que aceita ordens de uma mulher, não tente me enganar. - Jacques deu um pequeno tapa nas costas do rapaz, mas a força foi tanta que este quase caiu. Stormstone puxou de uma faca e vociferou:
Não encoste em mim, animal nojento, ou mato-o!
O canadense primeiro pareceu ficar confuso, mas soltou uma sonora gargalhada que pareceu empurrar o rapaz mais para longe.
Não gaste a saliva à toa, garoto! Algumas mulheres canadenses me puseram mais medo só com as unhas do que você com esta agulha! Já. matei ursos com estas mãos, rapazinho, e eles têm mais garras que você. Não pense que me intimida. - Avisou entre pequenos ataques de riso.
John Stormstone avaliou o oponente em potencial, e guardou a faca, respondendo:
Não vou lhe matar, agora, porque Jazek o quer inteiro. Mas não abuse dos desejos da minha chefe.
Jacques ficou o mais reto que pôde, para parecer ainda maior do que era e cruzou os braços, analisando o estranho rapaz à sua frente. Estava vermelho de raiva e o ralo cabelo loiro esvoaçava ao sabor da leve brisa, perto do canadense ele parecia uma criança birrenta, tanto no temperamento como no físico. Jacques, ainda rindo da patética demonstração de ódio, pediu:
Será uma honra conhecer uma mulher tão poderosa. Vamos em frente.
O americano concordou e pediu que Jacques o seguisse, entraram na mansão de três andares. O hall era imenso e bem arejado e uma escada enorme levava ao segundo andar. Um enorme desperdício, pensou o canadense, antes vira centenas de pessoas pedindo pão na rua e agora via grandes corredores cheios de belos quadros e esculturas, que com certeza não custavam pouco dinheiro. Stormstone ia dizendo os nomes das obras de arte uma por uma e às vezes parava em frente de uma e a admirava ou contava alguma história sobre a peça. Jacques achava aquilo tudo entediante, preferira estar correndo atrás de algum urso ou rena, ou mesmo bufando em cima de alguma garota, mas percebeu que o pequenino realmente tinha prazer naquilo, então não interferiu no prazer do outro só porque não poderia satisfazer o seu. O americano virou à esquerda num corredor menos iluminado e instruiu:
Agora você deve ir sozinho, foi uma exigência dela. Vá em frente, ela vai lhe dizer quando parar.
O homenzinho saiu rapidamente e desapareceu por um dos corredores. Jacques ficou olhando para o corredor mal iluminado, que parecia desaparecer na escuridão de uma garganta de algum animal enorme. Pensava se devia fazer mesmo isso. Afinal, por que estava ali? Tinha vindo do interior do Canadá onde estava feliz e tranqüilo, comendo carne de urso e frutas selvagens. Mas, por que não o fazia de uma vez? Pelo menos estaria livre daqueles sonhos idiotas. Resolveu ir embora daquela loucura, mas quando deu o primeiro passo, sentiu como se puxassem sua alma na direção daquela garganta escura, agora às suas costas.
Jacques Frederique Russel, tendes medo do desconhecido? Tanta força e tanta coragem esmorecem diante de um corredor escuro? Realmente não mereces ser membro de nossa irmandade.
A voz vinha de algum ponto na escuridão e o canadense olhou para dentro do corredor, mas não conseguiu ver ninguém. Sabia que aquelas palavras eram para provocá-lo a enfrentar a escuridão e provavelmente cair numa armadilha. Soltou novamente uma gargalhada que fez o chão tremer e gritou:
Prove que sua irmandade merece minha presença se apresentando corretamente, posso ser um homem sem estudos mas com certeza não sou tão mal-educado como vocês.
As luzes se acenderam e no fim do corredor, em frente à uma porta decorada com figuras felinas, uma mulher estava de pé, completamente nua. O cabelo branco, longo, cobria-lhe a face, era magra e alta, mais alta que a média das mulheres, a pele era branca como o cabelo. Jacques pensou ter visto um brilho metálico por baixo da cabeleira quando ela começou a andar em sua direção, ela jogou a cabeça para trás e o canadense pôde ver a fonte do brilho, uma máscara prateada que lhe cobria quase a totalidade da face, à exceção da boca, onde a máscara formava um “V” invertido, deixando à mostra parte das bochechas e o queixo. Apesar da máscara lha cobrir os olhos ela andava como se enxergasse perfeitamente. Conforme ia se aproximando do canadense, as tochas atrás de si iam se apagando sozinhas. Jacques estava surpreso e com medo, mas não se movia, a sua curiosidade sobre aquela situação era grande demais. A mulher ficou a um metro aproximadamente de seu imenso corpo, sua cabeça ficava na altura do peito do homem, e o encarou, dizendo:
Monseiur Russel, peço desculpas pela provocação, eu tinha de ter certeza sobre tua maturidade. Meu nome é Jazek, eu o chamei até aqui em teus sonhos porque precisamos de ti. Venha comigo.
A mulher virou-se e caminhou na direção das portas no fundo do corredor, a luz parecia acompanhá-la, as tochas acendiam à sua frente e se apagavam sozinhas às suas costas. Jacques não queria acompanhá-la, mas suas pernas começaram a se mover para frente, e apesar de tudo a moça era bonita afinal, tinha seios grandes e empinados e coxas grossas, cintura fina. A pele excessivamente branca completava a raridade da mulher. Se tudo aquilo fosse uma loucura como estava começando a imaginar, talvez pudesse se divertir um pouco com a loucura daquela mulher cor de leite.
Você sempre anda nua pela casa?
Apenas quando necessário. As roupas mortais são inadequadas para certos rituais e ainda não tive tempo para confeccionar roupas adequadas.
Muito interessante. E que rituais são esses?
Não posso lhe dizer, ainda.
Chegaram à porta e a mulher abriu-a, um cheiro de incenso invadiu o corredor. Jacques começava a sentir o efeito da visão à sua frente entre suas pernas, se aquela mulher continuasse daquele jeito ela iria se arrepender. Como se ouvisse os pensamentos do canadense, a albina disse num tom fúnebre:
É necessário instruir-te agora, depois iremos satisfazer nossos desejos.
Nada disso, vamos nos satisfazer agora!
Jacques esticou os braços para agarrá-la e a mulher se abaixou, virou-se rapidamente e deu uma violenta cotovelada no abdome do canadense. Ele se curvou de dor e ela o agarrou pelo pescoço, girando o imenso corpo por cima do seu. Jacques caiu de costas no chão. Ficou de pé e foi atingido por um pontapé nas costas, deu dois passos para a frente e caiu de joelhos. Jazek saltou por sobre sua cabeça e o atingiu com outro pontapé no queixo, o gigante deu alguns passos para trás evitando os outros golpes da mulher, golpeou-a com a mão aberta no rosto e ela caiu no chão. Jacques saltou, esperando cair sobre a albina, mas ela rolou para o lado e o canadense atingiu o solo com todo o seu peso, quebrando a clavícula e o braço esquerdo. Deitou-se de costas e segurando o braço quebrado, estranhamente soltou uma imensa gargalhada e comentou:
Acho que agora teremos que deixar nossos desejos para depois de qualquer maneira.
Jazek sentou sobre o peito do canadense e inclinou o corpo para frente, apoiando os braços nos joelhos.
Acreditaste mesmo que eu me deixaria possuir por tu, se esta não fosse minha vontade? És realmente tolo como imaginei. Mas não te preocupes, tua dor é pequena e facilmente extirpável. Na verdade teu braço quebrado está doendo menos que teu amor-próprio.
Tem razão. Nunca fui tão humilhado em minha vida. Jogado no chão e domado por alguém tão pequeno. É vergonhoso.
Não te preocupes com isto também, ninguém além de nós ficará sabendo de tua derrota.
Jazek se deitou sobre o corpo de Jacques e o beijou longamente, ao fim do beijo as dores haviam sumido. O gigante se levantou e a mando da mulher, sentou-se no centro de um círculo dentro do cômodo, Jazek sentou num outro círculo, cerca de um metro de distância do primeiro.
Como fez aquilo? Você só me beijou e fiquei bom. É incrível.
Aprendi muitas coisas em minha longa vida, Jacques, mas curar é algo que nasceu comigo. Assim como tua força e longevidade.
O que quer dizer?
Quantos outros homens com cento e dez anos de idade conheces? Tu aparentas no máximo trinta, e creio que não envelhecerás mais, digo-te que não morrerás de velhice, pois os anos passam mas não te afetam mais assim como há muito cessaram de pesar em mim.
Isto é muito estranho, você diz que não vou morrer? E por quê? E que história era aquela de irmandade? Quem é você? - Jacques falava rápido e mostrava um tremor na voz. Parecia estar com medo, ou ansioso, queria sair dali mas não conseguia se mover. A voz da mulher parecia ter colado-o no chão, com seu tom sério e tenebroso.
Jazek esperou que se calasse e começou a explicar. Contou que havia um pequeno grupo de pessoas que foram agraciadas com a semi-imortalidade, que se autodenominavam nimrods. Envelheciam apenas até certo ponto e nunca adoeciam. Apenas se fossem gravemente feridos poderiam ser mortos. Além de tudo, cada um havia nascido com um dom excepcional: força, velocidade, agilidade, resistência. Com o tempo talvez substituíssem o gênero humano do planeta, o qual até agora tinha conseguido muitas conquistas e muito sofrimento, como o que vira no caminho até a mansão. Este grupo de privilegiados tinha ainda um terceiro dom: conforme a sensibilidade de cada um, eles podiam sentir à distância um nimrod, ou um nimrod em potencial, pois nem todos desenvolviam plenamente seus dons, estes eram chamados de craj’nimrods1.
A magia de Jazek, que curara seus ossos em segundos, era uma coisa que ela aprendera ao longo dos seus quase três milênios de vida, seu dom nimrod ela não revelou. Nem mesmo revelou o porquê da máscara. Apenas disse que era um acordo antigo como ela própria, outra mulher nimrod usava também uma máscara parecida, por motivos semelhantes. Ela o havia chamado para que fosse instruído na língua e nos conhecimentos de luta, matemática, astronomia, medicina e também no amor porque o corpo de um nimrod era diferente também em algumas zonas erógenas. Aprender tudo o que Jazek propunha não era uma tarefa fácil, fosse para a mestra, fosse para o aluno, e ela tinha apenas dois anos para ensinar-lhe tudo. Alguma coisa poderia ser passada por magia, mas quase tudo seria da maneira mais difícil.
Por que temos apenas dois anos?
Dentro de dois anos, todos os nimrods irão se reunir na Itália para o encontro.
E eu estarei pronto até lá?
Não, mas tu foste encontrado já adulto e meus companheiros levarão isto em consideração, deves aprender no mínimo o nosso idioma e receber seu nome nimrod. Eles sentirão, assim como eu, que tu és um verdadeiro nimrod.
Então vamos começar.
Sim, comecemos. Teu nome a partir de hoje, teu nome será Nirus’oses, que em nosso verdadeiro idioma significa “o grande urso”, é bem apropriado, já que tu te assemelhas àqueles animais, no porte e no vigor.
Jazek se levantou e com o pé esquerdo empurrou o canadense para trás, deitando-o no chão frio. As lâmpadas dentro do cômodo apagaram-se sozinhas e num tom rouco de desejo, murmurou:
Agora satisfaremos nossos desejos.
1 “Nimrods quebrados” ou “meio nimrod” em português



sábado, 7 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Uma hora depois o furgão modificado saía do motel e se dirigia a São Paulo, andando num ritmo muito acima do normal. Fênix conversava com seu aluno:
Eu, N’dilo e sua filha, à qual ele me apresentou depois, andamos por meses no deserto até chegarmos a uma pequena vila, lá conseguimos alimentos e roupas novas, em troca de nossas histórias. Percorremos uma grande distância de vila em vila, ficando apenas alguns dias em cada uma. Até que N’dilo e Cit’anis1 casaram-se, então ficamos dois meses hospedados na casa de Jazek.
Cit’anis era uma nimrod?
Ela é a filha de N’dilo. - Hugo arregalou os olhos, espantado, mas Fênix continuou: Sei o que pensas, na época eu também os desaconselhei, tendo o apoio de Jazek. Mas enquanto discutíamos, o pássaro cor de fogo de Zal’irckas, entrou na casa, através de uma janela aberta, segundos depois ele apareceu na porta de entrada.

(630 a.C.)
Por que discutis este assunto de maneira tão mundana? Vós ainda não sabeis que não sois como todos? Vós já transgredistes a mais implacável das leis, e agora quereis retornar aos preconceitos dos homens? Fênix e Jazek, não há porque impedir esta união. Há amor mais verdadeiro do que aquele que existe entre um pai e sua filha?
Mas é errado. Que filhos poderão nascer desta união? - Reclamou Jazek
Só assim terão filhos. Pois a semente de N’dilo não florescerá em uma mortal.
E por que não, Zal’irckas? Somos assim tão diferentes? - Perguntou Fênix.
O feiticeiro olhou para Fênix com uma expressão incrédula, em seguida sorriu e comentou:
É estranho que me perguntes isto, Fênix. Aprendeste tão pouco em tanto tempo? Teu tempo com N’dilo foi inútil? Com quantos homens dormiste desde que Jonel se foi? Cem, ou mais? Nunca ficaste grávida e podes conhecer mais uma centena de amantes que não dará a luz enquanto não encontrares outro como tu.
Eu gastei horas tentando convencê-la disto mas ela não me ouve. Já expliquei que Cit’anis é fruto de minha união com uma mulher nimrod. - Explicou N’dilo.
Mulher nimrod? - Perguntaram todos.
Há muitos anos conheci em Ninive, um homem chamado Nimrod. Ele era caçador e era muito espirituoso. Tinha uma força muito grande e uma personalidade incorrigível. Eu chamo a nossa irmandade de nimrods em homenagem a ele.
Muito interessante, embora infantil. - Comentou Jazek.
É realmente interessante, penso que deve ser mantido. Quanto ao casamento, creio que já discutimos o suficiente. - Zal’irckas comentou num tom de ordem indiscutível.
Houve um longo momento de silêncio. O feiticeiro se levantou e saiu, todos ficaram observando a porta aberta, minutos depois, uma mulher entrou seguida por Zal’irckas. Ela se sentou e o feiticeiro a apresentou:
Até agora eu os reuni para que discutissem entre si, infelizmente não tenho mais tempo disponível para tanto. Eu vos apresento Ádila, a quinta nimrod, como N’dilo vos chama, de agora em diante vós pressentireis outros como vós e deveis vos reunir com regularidade.
Devemos obedecê-la2 em sua ausência? Não me rebaixarei a tanto. - Comentou Jazek
Não é necessária uma nova discussão sobre este tema. Ádila será líder num futuro distante, quando existirem centenas de vós. E vós quatro serão seus generais. Isto é tudo, agora eu tenho de partir. Paz entre vós.
E desapareceu no ar, o pássaro cor de fogo, que havia ficado no beiral da janela durante a breve reunião, alçou vôo e desapareceu também. N’dilo mantinha um sorriso quase felino colado ao rosto. Durante todo o tempo que estivera viajando com Fênix, tentara de todas as maneiras achar uma brecha na muralha e finalmente descobrira que até mesmo aquela mulher mascarada e irritante tinha que obedecer alguém. De que adiantava tanta força e frieza se ela tinha que se curvar como qualquer outro às ordens de um superior?
Como que lendo aqueles pensamentos, Fênix se virou para ele e disse:
Tu e tua filha se arrependerão de terem desposado um ao outro. Apesar de que Zal’irckas diz, vós não trareis ao nosso meio uma criatura sã, entretanto nada posso fazer para impedir, pois que os dois já dormem juntos desde antes de conhecer-nos. Temo por nós cinco e pelas centenas de nós que Zal’irckas diz haver no futuro.
A voz de Fênix estava rouca e ecoava dentro dos ouvidos de N’dilo e Cit’anis, os dois sentiram os pelos da nuca eriçarem e o estômago congelou. N’dilo imaginava que esse truque de Fênix não funcionava com ele, mas aparentemente se enganara, ou Fênix teria praticado ou suas palavras eram muito mais sérias que as de Zal’irckas. Quando a mulher terminou de falar, N’dilo não estava mais sorrindo.
1 A gata ou a felina em português.



2 A tradução do nome Ádila pode ser entendida como líder, ou cacique, mas não existe um significado literal.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Dentro do quarto, Fênix havia acabado de sair do banho quando Douglas a avisou do estado de seu aluno. Ela vestia apenas uma calcinha simples e sutiã e, é claro, a máscara. O alemão deduziu que ela tinha tomado banho com a máscara ou já a tinha devolvido ao rosto. Fênix estava arrumando alguma coisa numa espécie de cinto e jogou tudo dentro da mala aberta. Se dirigiu ao furgão do jeito que estava e se sentou ao lado de seu aluno.
Então estás sentindo dores?
Não exatamente, Douglas estava me perguntando sobre o tempo em que estive em treinamento contigo, e eu gostaria de saber de ti se não há problemas nisso. Mas realmente estou dolorido.
Tu que decides se deve contar sobre teu treinamento ou não. Me surpreende o fato de tu estares já desperto. Ao que parece, teu organismo é muito mais forte do que eu havia previsto.
Talvez fosse hora de eu te surpreender e não o contrário.
Talvez. Eu lhe aplicarei uma outra dose de analgésicos, mas não muito. Ao chegarmos no encontro, já não deves ter mais nenhuma droga em seu corpo, caso contrário a magia de Jazek1 pode não surtir efeito, e eu não quero entrar em atritos desnecessários com uma de minhas irmãs.
A mulher preparou uma pequena seringa enquanto conversava e a espetou no braço de Hugo, que gemeu e perguntou:
Irmãs? Tu tens irmãs, Fênix? Como é possível?
Considero-a minha irmã por que ela foi também visitada por Zal’irckas assim como N’dilo. E também recebeu dele um dom e uma maldição.
É um nome muito estranho, o que ela fez para merecê-lo?
Ela mesmo o escolheu, na verdade, quando a conheceres tu verás que é um nome apropriado.
E Fênix é um nome apropriado?
A mulher retirou a seringa do braço do rapaz e a jogou num cesto, então se curvou sobre ele e o mirou nos olhos, Hugo sentiu um calafrio lhe percorrendo a espinha, o estômago se apertou e sentiu náuseas. Quando Fênix abriu a boca a sua voz parecia ter um pequeno eco:
Talvez tu mesmo descubra se meu nome é apropriado ou não, quando a hora chegar.
E saiu do furgão.

Douglas se aproximou da mala em cima da cama e ergueu o cinto em que Fênix estava mexendo. Era um cinto de balas com coldre e tinha uma arma enorme. Identificou-a como uma Cassul .454 com mira a laser, estava carregada, com cuidado colocou-a ao lado da mala. Dentro desta ainda haviam duas espadas, ou melhor duas katanas, duas barras duplas, mais uma espada curta. Havia uma pequena alça e Douglas ao puxá-la, descobriu um segundo compartimento. Ali estavam encaixadas mais duas adagas, e duas sai (pareciam garfos desproporcionais), dois braceletes, e uma espécie de ganchos com uma cinta para encaixar o punho. Douglas retirou um jogo de ganchos e os encaixou na mão direita. O punho ficou parecido com a garra de um animal, com pontas para agarramento ou ataque, o alemão imaginou o estrago que um golpe com aquilo faria em alguém, devolveu a garra à mala e retomou o revólver na mão. Retirou as balas e estava examinando-o detalhadamente quando Fênix retornou ao quarto.
Fênix, você quer matar elefantes? Sabe o que uma arma dessas faz numa pessoa? Sabe que ficas muito bem de roupas íntimas?
Tu achas que carregaria uma arma sem saber utilizá-la? Quanto à minha aparência, tenho consciência dela. E tu, que me desejas tão fortemente, sabes que este desejo é tão inútil quanto infantil?
A mulher estava a uns três metros de distância, e Douglas apontou a arma em sua direção e sorriu:
Talvez, mas se este canhão estivesse carregado, meu desejo inútil e infantil seria saciado.
Não sejas tolo, Douglas, tu sabes que não conseguirias acionar o gatilho da arma.
Douglas jogou a arma dentro da mala e falou desanimado:
Tem razão.
Vá banhar-se. - Empurrou o alemão para trás e recomeçou a arrumar seus apetrechos.
Douglas pegou algumas peças de roupa em sua mala e se dirigiu ao banheiro, parecia contrariado. Fênix recarregou o revólver e o colocou no coldre. Da tampa da mala tirou um macacão e o vestiu, tirou também um par de botas de couro de cano alto, calçou-as. A roupa e os calçados tinham vários encaixes de metal costurados, onde ela foi colocando as diversas armas da mala. Prendeu o cinto de balas com o revólver à esquerda, encaixou uma das katanas à direita e uma às costas. As barras duplas foram postas nas coxas, a espada curta foi presa na perna esquerda e as sai na perna direita, abaixo do joelho. Colocou os braceletes, que cobriam todo o antebraço, e encaixou as adagas nos ombros e os ganchos na parte de trás do cinto. Abriu um terceiro compartimento na mala, tirou um par de luvas de couro e o calçou, um garrote que prendeu no cinto, dois estiletes para encaixe nos braceletes. Um bastão de 80 cm foi preso às costas, um cantil e uma pequena bolsa contendo apetrechos cirúrgicos ainda couberam no cinto. Fênix ainda passou mais um cinto do ombro direito até o revólver, repleto de balas comuns e de ponta explosiva. Uma bolsa com shurikens, as estrelas japonesas da morte, foi presa no segundo cinto. Prendeu os cabelos ruivos e fez um pequeno rabo-de-cavalo. O macacão possuía vários cintos internos, os quais Fênix foi ajustando conforme foi pondo os equipamentos no corpo, várias pontas de couro ficaram aparecendo pelo macacão.
Fênix levou sete minutos para esvaziar a mala, e no momento em que Douglas saiu do banheiro ela estava ajustando uma enorme capa com capuz sobre o corpo.
Você está parecendo uma daquelas figuras de druidas que vemos nos livros antigos.
Sempre compareci nestas ocasiões completamente paramentada, não descontinuarei a tradição. Seria melhor que Gato também estivesse com seu equipamento, mas isto não é possível.
Mas você não sente calor com esta roupa toda?
Não, dificilmente sou afetada por estas sensações.
Douglas, que estava só de calças, soltou um sorriso amarelo e procurou uma camisa dentro da mala e um terno, espalhou-os na cama.
Você é quem sabe. Eu devo ir à rigor também?
Sim, não desejo que meus semelhantes imaginem que não tenho colaboradores à altura de meu posto na irmandade.
Será que a toda-poderosa Fênix tem que obedecer à padrões preestabelecidos?
Douglas olhava para a mulher da maneira mais cínica possível e Fênix ficou em silêncio por alguns segundos, de braços cruzados, depois respondeu num tom de reprovação:
Infelizmente.
E sentou na cama, afastando as malas com a mão. Pela primeira vez a mulher mascarada parecia derrotada. Douglas ficou impressionado diante da demonstração de impotência, ainda que mínima, daquela que parecia uma muralha contra sentimentos. Ele deduziu que, para que Fênix chegasse a demonstrar o que sentia, aquele protocolo deveria desagradá-la terrivelmente. Quis falar alguma coisa, mas não achou palavras para consolar a mulher. Momentos depois, uma campainha tocou e, numa gaveta ao lado da porta, surgiu uma bandeja com um desjejum completo. Douglas a apanhou e colocou em cima de uma das malas e se dirigiu à Fênix:
Quer comer?
Sim.
1 Jazek é uma palavra de múltiplos significados, tais como estranha, negra, trevas, incomum, ou também como uma afirmação de negação generalizada.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

frases

A diferença entre o empresário e a prostituta é que a prostituta sabe de antemão que o cliente vai foder com ela.

Reinaldo Schroeder.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

vidros de carros

Os vidros das portas dos carros no Brasil deveriam ser fixos, assim como o parabrisa. Desta maneira as pessoas não iriam atirar lixo para fora.

sábado, 29 de outubro de 2011

nimrods, capítulo perdido

(632 a.C.)
Nos anos que se seguiram depois do encontro com Zal’irckas, Fênix andou por quase todo o mundo conhecido. A máscara e a sua força a mantinham numa distância segura de tudo e todos. Mas não a impedia de conseguir amantes quando desejasse; sempre havia muitos curiosos. Certo dia um pobre coitado tentou lhe retirar a máscara, simplesmente caiu morto ao tocar o metal.
A cada cinco ou seis anos, retornava à Creta, para dar instruções aos mercadores sob seu comando e recolher os frutos de seu trabalho. Uma vez teve que ficar fora de Creta por trinta anos e seus subordinados não a reconheceram mais como a dona do palacete, teve que usar de força para convencê-los e nunca mais teve problemas enquanto o palacete lhe foi útil.
Quando ouviu rumores de que mais ao Oriente havia civilizações quase desconhecidas, comprou uma caravana e tomou o rumo do nascer do sol. Parou em Jerusalém, onde se dizia grega ou romana, devido ao preconceito dos judeus, mas ainda assim era melhor contratar algum homem que se fizesse passar por seu marido ou pai, a fim de obter melhores chances de negócios. Enquanto seu contratado cuidava de reabastecer a caravana de água e comida, Fênix ficou em um quarto da melhor estalagem da cidade.
Ao fim da tarde Gideão voltou acompanhado de um homem alto e moreno, que não se apresentou ao entrar.
Desejo ter contigo, Fênix. A sós.
Quem és tu, estranho?
Vim a pedido de Zal’irckas. Ele me pediu que a acompanhasse pelo Oriente.
Fênix se virou para Gideão e pediu que esperasse fora do quarto. Fez um gesto para que o estranho se sentasse à sua frente. O homem sorria constantemente e olhava para Fênix de maneira curiosa e quase infantil.
Contrataste o garoto apenas para cuidar de sua caravana ou ele tem ainda outras funções para ti?
Tendes cuidado estranho, outra insinuação como esta e lhe arranco a língua. Não abuses de minha hospitalidade.
Acalma-te, mulher, não quis ofendê-la. Peço-lhe desculpas pelo meu joguete. Não devemos lutar entre nós, já que somos como irmãos.
Não lhe conheço, e não tenho intimidades contigo para que me chames de irmã. - A voz de Fênix se tornou rouca e com eco distante. - Quem és tu e por que Zal’irckas te procurou?
Fênix, outras como tu tentaram este embuste comigo e não conseguiram. Não tentes inutilmente me persuadir. Vou lhe contar o que queres saber porque me agrada. Meu nome é N’dilo Odini1, Zal’irckas me deu este nome quando falou comigo. Disse-me para procurar a mulher de máscara em Jerusalém e acompanhá-la em sua viagem.
Fênix se levantou e caminhava de um lado para outro, pensando, olhava para o chão. De repente, parou e levantou a cabeça, puxou os cabelos para trás e os prendeu.
Quero saber por que Zal’irckas lhe procurou, quando isto aconteceu e porque lhe pediu para que me acompanhasse ao Oriente.
N’dilo se levantou e segurou-a pelos ombros, olhando diretamente nos olhos brancos e disse:
Há quanto tempo vives? Cem, quinhentos, mil anos? Eu sou muito mais velho que tu, e Zal’irckas é infinitamente mais antigo que nós, Fênix. Tenho ordens dele para te ensinar a continuar viva neste mundo de vidas curtas. Um dia os homens comuns se aperceberão de nossa existência, pode levar séculos, milênios, mas não poderemos nos esconder ou usar de força e ouro, como fazemos agora. Devemos nos preparar e saber usar nossa longa vida em algo produtivo, criar um lugar para nós, a fim de usarmos a nossa experiência em favor de nós mesmos.
Fênix se virou e ficou em silêncio, segurava os próprios ombros. Estava de frente à janela aberta, ao longe se via um vulto de uma ave de rapina. O pássaro pousou no beiral da janela, era o mesmo pássaro cor de fogo que vira quando Zal’irckas lhe fez a proposta de imortalidade. Fênix pareceu sentir um arrepio e então o animal alçou vôo na noite enluarada.
Conheço aquele pássaro, vi-o acompanhando Zal’irckas.
Sim. - Fênix fez outra pausa - N’dilo, não concordo com o que disseste sobre o futuro, mas sinto que não serás uma companhia totalmente desagradável em minha jornada para o Oriente, uma vez que falas bem e assim poderá me contar histórias de tua longa vida.

(1995 d.C.)
Começava a chover fortemente e o motorista diminuiu a velocidade drasticamente.
Douglas, por que diminuíste a marcha? - Fênix perguntou em alemão.
Estamos atrás de uma fileira de caminhões e há muito movimento no sentido contrário, e ainda por cima, começou a chover em cântaros. Por enquanto, não podemos ir mais depressa.
Muito bem, volte a dirigir mais rapidamente assim que for possível.
Vou tentar.
Hugo lutava contra a ação do calmante e dos anestésicos, tentando prestar atenção às histórias que Fênix lhe contava, mas as substâncias estavam ganhando terreno rapidamente, e a sua voz se arrastou num lamento:
N’dilo... é um... nimrod... tam...bém? Está vi... vo?
Sim, sempre é ele que organiza os encontros, arrumando os locais e contatando-nos a cada quinze anos. Felizmente, não se deixou calejar pelo tempo.
Eu também vi... um ... páss...aro... cor.... - E dormiu.
Fênix recolocou o banco no lugar e ficou olhando os limpadores fazerem flic, flic. A carreta que se arrastava à frente do furgão tinha apenas metade das luzes necessárias e soltava uma fumaça negra pelo escapamento, que erguia-se lentamente, por causa da chuva. Os faróis que viam em sentido contrário espoucavam em bolhas de luz no pára-brisa.
Como está o garoto?
Adormeceu há pouco.
Talvez não tenha sido uma boa idéia tirá-lo do hospital. Ele ainda está muito fraco para isso.
Infelizmente, foi necessário. Eu não poderia comparecer ao encontro sem levá-lo comigo. Apesar das agruras que sofreu, seu organismo suportaria ainda mais sem conseqüências permanentes, mas Hugo ainda não se acostumou à dor. Que horas são agora?
Onze e quarenta e oito.
Encoste, é melhor que tu descanses. Eu dirijo até de manhã.
Douglas ligou a seta e parou o carro no acostamento, trocou de lugar com a mulher e reclinou o banco.
Não vá muito depressa, Fênix. Eu não quero me sacudir à toa.
Seu sarcasmo é inútil e desnecessário, Douglas.
O alemão dormiu pesadamente, e acordou com dores pelo corpo. Tinha a sensação de ter levado uma surra, demorou alguns minutos para perceber que ainda estava dentro do furgão, e que estavam ainda rodando.
Vamos parar para comer em breve. Arrume-se.
Quero tomar banho e trocar de roupa também. - Respondeu com a voz arrastada de sono. - Que horas são?
Oito e vinte e três. Não se preocupe, Pararei num motel pois também necessito trocar-me.
Douglas levantou o banco e puxou um pente do bolso, arrumou rapidamente o cabelo e olhou por cima do encosto para Hugo.
Ele ainda está sob o efeito dos sedativos?
Sim, deverá dormir mais uma ou duas horas.
O alemão se esticou no banco e bocejou longa e sonoramente, começou a se coçar e falou com a voz arrastada.
Você dirigiu a noite toda? Já devíamos ter chegado em São Paulo então.
Choveu fortemente durante várias horas e o movimento estava intenso. Não houve condições de dirigir adequadamente. Vamos parar ali.
O furgão diminuiu e encostou num motel de ótima aparência, Fênix pediu um quarto e café para três. O motel tinha garagens individuais para cada quarto e o veículo por pouco não coube no cubículo. Douglas fechou a porta e abriu a lateral do carro, Fênix entrou no quarto com uma mala na mão esquerda e logo ouviu-se o chuveiro se abrir, ele jogou as outras malas em cima cama e berrou:
Quanto tempo vamos ficar aqui?
Temos que sair no máximo às dez e trinta. Trouxeste as malas?
Sim. -Douglas se sentiu tentando a espiá-la, já que a porta estava aberta, verificar se ela tirava a máscara para banhar-se, assim poderia ver seu rosto. Imediatamente retirou a idéia da cabeça, estranha como era, Fênix poderia não se incomodar com sua presença ou espancá-lo até desmaiar.
A máscara era uma coisa que não lhe saía do pensamento, pois a mulher não a retirava da fronte em situação alguma. Douglas chegou a perguntar por que ela usava o artefato de uma maneira tão intensa, ao que Fênix respondeu:
Há muitos anos fiz um acordo com uma determinada entidade sobre o uso da máscara.
Que tipo de acordo?
Não é de tua real necessidade saber de tais detalhes.
Dali em diante não perguntou mais nada à Fênix que não se relacionasse às tarefas que lhe eram impostas. Mas continuou analisando a mulher de longe, então a mascara não tinha apenas valor estético ou de proteção como havia imaginado anteriormente. Será que isto estaria ligado à personalidade e à força de Fênix? Haveria então alguma verdade em rituais de magia e tudo o mais? O mago Paulo Coelho dizia ser possível retirar energia da natureza e conhecer a data da própria morte através de rituais relativamente simples. Mesmo que fosse algo do gênero, como era possível suportar aquele metal o tempo todo no rosto? O suor, por exemplo, como era retirado daquela parte do corpo? E a higiene? Questões como essa às vezes lhe retiravam o sono por completo. Não ousava perguntar nada à Fênix pois tinha quase certeza de que ela não lhe responderia. Talvez Hugo, ou Gato como ela o chamava, soubesse de alguma coisa, pois havia sido seu aluno e na noite anterior tinham conversado por várias horas. Sim, talvez pudesse arrancar alguma coisa de Hugo. Foi até o furgão.
Fênix se enganara, não havia passado nem meia hora desde que haviam entrado no motel e Hugo já estava desperto, embora ainda com a fala arrastada. Pelo menos uma vez ela errou, pensou. Puxou o banco do passageiro e sentou-se ao lado do enfermo.
Sprech du Deutsch?
O quê?
Eu falo em português, espero que me entenda nesta linguagem.
Seu sarcasmo é ridículo.
Você está falando igual à Fênix, não é à toa que ela gosta de você.
Não sei se ela gosta de mim, acho que estou apenas sendo treinado. Aliás foi a única coisa que com certeza nós dois fizemos juntos. Fênix sempre me surpreende, me excita e me assusta. Como foi que se encontrou com ela? E qual é o seu nome? Quem é você, afinal?
Douglas levantou-se e abriu um dos armários, tirou uma garrafa e a abriu, sentou-se e tomou um grande gole fazendo uma careta.
Muito bem, meu nome é Douglas Marx, sou alemão naturalizado brasileiro. Meu pai me apresentou à Fênix alguns anos atrás, dizendo-me que quando ela precisasse, eu deveria atendê-la prontamente. É uma história longa e gosto de contar histórias tomando a hellfire aqui. - E sacudiu a garrafa - É uma receita de família, batizada por um primo americano de meu avô. - Fez uma pausa, deixando Hugo na expectativa. - Eu não sei se vou contar esta história agora. Acho que vou deixar para depois que você me contar a sua.
Que interesse você tem nisso, Douglas? Quer nos estudar?
Talvez eu seja só curioso.
Acredito que não existam problemas em lhe contar alguma coisa. -Fez uma expressão de dor e respirou profundamente.
O que foi?
O efeito dos sedativos está passando, acho. Estou começando a sentir dores pelo corpo todo.
Vou falar com Fênix. - e saiu do furgão.
Maldição, pensou Douglas, alguma coisa parecia se armar contra sua curiosidade. No momento em que o rapaz iria contar alguma coisa ele começa a sentir dores? Era realmente muita coincidência.
1 “O primeiro de todos” ou “o mais velho” em português.