— O DEUS-FERA DEVE MORRER.
— NÃO! ISSO É PROIBIDO! ELE TEM O PROGRAMA MESTRE. SEM ELE A MANADA NÃO PROCRIA.... SERÁ O FIM DOS RODAMAMUTES.
— OUTRO LÍDER TOMARÁ SEU LUGAR.
— MAS NEM MESMO VOCÊ PODE MATAR O DEUS-FERA.
— ELE SERÁ FORTE... MAS EU SEREI MAIS FORTE. ELE SERÁ VIOLENTO... MAS EU SEREI MAIS VIOLENTO! COMPARADO A MIM, ELE NÃO SERÁ NADA!
Trecho de um diálogo de A Era Metalzóica,
Graphic Novel de Pat Mills e Kevin O’Nell
Capítulo Seis
O Urso da Montanha
Jacques Frederique Russel nasceu e se criou nas florestas de pinheiros do Canadá. Sua principal fonte de renda era a caça de renas e sua principal diversão era pescar e atormentar as garotas das cidades onde passava em sua vida de nômade. Às vezes, quando a caça ficava escassa, Jacques servia de guia para turistas ou pesquisadores. Na virada do século sentiu-se atraído na direção de Nova Iorque. Quase todas as noites sonhava que lhe aconteceria algo inacreditável naquela cidade, algo que mudaria sua vida. Alguma espécie de revelação ou coisa parecida. Roubou uma carroça com uma dupla de cavalos e se dirigiu à estrada de ferro mais próxima, tomou alguns trens errados, mas finalmente conseguiu chegar em Nova Iorque em janeiro de 1903. Com o dinheiro da venda dos cavalos e da carroça comprou umas poucas peças de roupa e um relógio velho. Pelo menos estarei razoavelmente vestido para o meu destino, pensava, embora não tenha sido fácil encontrar um alfaiate que costurasse roupas grandes o suficiente para si. Estava usando apenas camisa e calça, enquanto quase todos que estavam à sua volta usavam pesados casacos, já que aquele seria o mês mais frio do ano. Jacques já havia notado isto em sua juventude, mas nunca se preocupou com o fato, assim como não se preocupava com sua idade, que segundo as suas contas já estaria próxima dos cento e dez anos. Mesmo assim aparentava no máximo trinta ou trinta e cinco. Quando comentava este assunto com outros, a maioria não acreditava, e nômade como era, não havia como provar. Mas Jacques não se importava com isso, desde que houvesse boas caçadas e um ou outro maluco a fim de se aventurar país adentro, não havia problemas.
O único problema surgido em sua vida era aquele sonho , onde uma mulher mascarada lhe dizia coisas estranhas, como poder infinito, imortalidade, magia. E sempre em Nova Iorque, Jacques não via a cidade em seu sonho, apenas sabia que estava naquela cidade. Às vezes era informado disso pela mulher. Ele sentia que só se livraria dos sonhos se fosse até a cidade.
— Mr. Russel, Mr. Russel. Por aqui. - Gritou um rapaz franzino assim que Jacques pisou no chão da plataforma de trens. - Meu nome é John Stormstone, estávamos esperando pelo senhor. Venha comigo.
O rapaz se virou e ia dar o primeiro passo quando Jacques o segurou. A mão praticamente ocultou o ombro do rapaz, que era pelo menos meio metro mais baixo que o canadense, como quase todo mundo que passava por ali.
— Espere aí, garoto. Por quê eu deveria acompanhar você? Nem sei o que quer comigo. E como sabe quem eu sou?
O rapaz não se intimidou com o tamanho de seu interlocutor e respondeu num tom de superioridade:
— Não está interessado em saber do que se tratam seus sonhos? Quem acha que o trouxe para cá?
— Você sabe dos meus sonhos? - Espantou-se o gigantesco homem, mas logo retornou ao seu ar despreocupado: Muito bem, garoto, eu vou lhe acompanhar até quem me chama.
A plataforma estava repleta de pessoas naquele dia e Jacques até que se divertia vendo como Stormstone tinha que desviar de todos, embora com aquele corpo magro ele facilmente passaria num buraco de agulha. O canadense acompanhava-o a um ou dois metros atrás, e conseguia andar facilmente, já que as pessoas simplesmente saíam de seu caminho. Talvez elas tivessem medo de esbarrar num corpo tão grande, ou lhe davam passagem por respeito à sua força. As moças e senhoras o olhavam com admiração, e Jacques lhes lançava um sorriso ou uma piscadela, sabendo que elas se envergonhariam. Sabia que não era realmente bonito, mas talvez se fizesse a barba e cortasse o cabelo, arrumasse boas roupas e usasse de delicadeza; talvez fosse então um pouco atraente.
Jacques e Stormstone saíram da plataforma e entraram numa carroça, que rangeu quando o canadense subiu. Percorreram diversas ruas da cidade, passando pelos bairros pobres, onde o cheiro de urina e fezes de cavalo se misturavam às humanas, moscas entravam pelas janelas do carro.
— Estes são dejetos da sociedade. - Comentou Stormstone. - Pessoas que subsistem de maneira indigna, às vezes inumana. Eu gostaria de poder matar todos, mas além de inútil seria nojento e trabalhoso demais.
— Se pudesse, você mataria a todos, realmente?
— Claro que sim, são todos uns inúteis.
Jacques ficou em silêncio, observando o quadro triste que se descortinava à sua frente. Mulheres e crianças mendigavam pela rua mostrando chagas abertas, alguns se atiravam na carroça, pedindo pão ou uma moeda, e eram afastadas a chicotadas pelo cocheiro. Bêbados cambaleavam ou dormiam em escadas, no chão ou encostados em postes. Algumas fogueiras conseguidas à custa de casas esquentavam uns pobres diabos.
— Temos mesmo que passar por aqui? É degradante.
— Tenho ordens de lhe mostrar esta parte da cidade para lhe mostrar no que o ser humano está se transformando.
Meia hora depois Jacques começou a notar ruas e casas mais bem cuidadas e menos gente nas ruas. Notadamente as condições sociais da população era muito melhor do que o visto anteriormente. Logo o cocheiro guiava o carro por ruas arborizadas e cobertas de neve branca e mansões enormes e confortáveis. A carroça guinou na estrada e passou pelo portão de entrada de uma das casas mais elegantes da região. Pararam logo depois do portão e Stormstone desceu, seguido pelo canadense.
— Senhor Stormstone, a quem você responde? Quem é seu chefe?
— Fui encarregado de alguns serviços nesta região já há alguns anos por uma mulher muito interessante que....
— Ora, garoto! Você não me parece do tipo que aceita ordens de uma mulher, não tente me enganar. - Jacques deu um pequeno tapa nas costas do rapaz, mas a força foi tanta que este quase caiu. Stormstone puxou de uma faca e vociferou:
— Não encoste em mim, animal nojento, ou mato-o!
O canadense primeiro pareceu ficar confuso, mas soltou uma sonora gargalhada que pareceu empurrar o rapaz mais para longe.
— Não gaste a saliva à toa, garoto! Algumas mulheres canadenses me puseram mais medo só com as unhas do que você com esta agulha! Já. matei ursos com estas mãos, rapazinho, e eles têm mais garras que você. Não pense que me intimida. - Avisou entre pequenos ataques de riso.
John Stormstone avaliou o oponente em potencial, e guardou a faca, respondendo:
— Não vou lhe matar, agora, porque Jazek o quer inteiro. Mas não abuse dos desejos da minha chefe.
Jacques ficou o mais reto que pôde, para parecer ainda maior do que era e cruzou os braços, analisando o estranho rapaz à sua frente. Estava vermelho de raiva e o ralo cabelo loiro esvoaçava ao sabor da leve brisa, perto do canadense ele parecia uma criança birrenta, tanto no temperamento como no físico. Jacques, ainda rindo da patética demonstração de ódio, pediu:
— Será uma honra conhecer uma mulher tão poderosa. Vamos em frente.
O americano concordou e pediu que Jacques o seguisse, entraram na mansão de três andares. O hall era imenso e bem arejado e uma escada enorme levava ao segundo andar. Um enorme desperdício, pensou o canadense, antes vira centenas de pessoas pedindo pão na rua e agora via grandes corredores cheios de belos quadros e esculturas, que com certeza não custavam pouco dinheiro. Stormstone ia dizendo os nomes das obras de arte uma por uma e às vezes parava em frente de uma e a admirava ou contava alguma história sobre a peça. Jacques achava aquilo tudo entediante, preferira estar correndo atrás de algum urso ou rena, ou mesmo bufando em cima de alguma garota, mas percebeu que o pequenino realmente tinha prazer naquilo, então não interferiu no prazer do outro só porque não poderia satisfazer o seu. O americano virou à esquerda num corredor menos iluminado e instruiu:
— Agora você deve ir sozinho, foi uma exigência dela. Vá em frente, ela vai lhe dizer quando parar.
O homenzinho saiu rapidamente e desapareceu por um dos corredores. Jacques ficou olhando para o corredor mal iluminado, que parecia desaparecer na escuridão de uma garganta de algum animal enorme. Pensava se devia fazer mesmo isso. Afinal, por que estava ali? Tinha vindo do interior do Canadá onde estava feliz e tranqüilo, comendo carne de urso e frutas selvagens. Mas, por que não o fazia de uma vez? Pelo menos estaria livre daqueles sonhos idiotas. Resolveu ir embora daquela loucura, mas quando deu o primeiro passo, sentiu como se puxassem sua alma na direção daquela garganta escura, agora às suas costas.
— Jacques Frederique Russel, tendes medo do desconhecido? Tanta força e tanta coragem esmorecem diante de um corredor escuro? Realmente não mereces ser membro de nossa irmandade.
A voz vinha de algum ponto na escuridão e o canadense olhou para dentro do corredor, mas não conseguiu ver ninguém. Sabia que aquelas palavras eram para provocá-lo a enfrentar a escuridão e provavelmente cair numa armadilha. Soltou novamente uma gargalhada que fez o chão tremer e gritou:
— Prove que sua irmandade merece minha presença se apresentando corretamente, posso ser um homem sem estudos mas com certeza não sou tão mal-educado como vocês.
As luzes se acenderam e no fim do corredor, em frente à uma porta decorada com figuras felinas, uma mulher estava de pé, completamente nua. O cabelo branco, longo, cobria-lhe a face, era magra e alta, mais alta que a média das mulheres, a pele era branca como o cabelo. Jacques pensou ter visto um brilho metálico por baixo da cabeleira quando ela começou a andar em sua direção, ela jogou a cabeça para trás e o canadense pôde ver a fonte do brilho, uma máscara prateada que lhe cobria quase a totalidade da face, à exceção da boca, onde a máscara formava um “V” invertido, deixando à mostra parte das bochechas e o queixo. Apesar da máscara lha cobrir os olhos ela andava como se enxergasse perfeitamente. Conforme ia se aproximando do canadense, as tochas atrás de si iam se apagando sozinhas. Jacques estava surpreso e com medo, mas não se movia, a sua curiosidade sobre aquela situação era grande demais. A mulher ficou a um metro aproximadamente de seu imenso corpo, sua cabeça ficava na altura do peito do homem, e o encarou, dizendo:
— Monseiur Russel, peço desculpas pela provocação, eu tinha de ter certeza sobre tua maturidade. Meu nome é Jazek, eu o chamei até aqui em teus sonhos porque precisamos de ti. Venha comigo.
A mulher virou-se e caminhou na direção das portas no fundo do corredor, a luz parecia acompanhá-la, as tochas acendiam à sua frente e se apagavam sozinhas às suas costas. Jacques não queria acompanhá-la, mas suas pernas começaram a se mover para frente, e apesar de tudo a moça era bonita afinal, tinha seios grandes e empinados e coxas grossas, cintura fina. A pele excessivamente branca completava a raridade da mulher. Se tudo aquilo fosse uma loucura como estava começando a imaginar, talvez pudesse se divertir um pouco com a loucura daquela mulher cor de leite.
— Você sempre anda nua pela casa?
— Apenas quando necessário. As roupas mortais são inadequadas para certos rituais e ainda não tive tempo para confeccionar roupas adequadas.
— Muito interessante. E que rituais são esses?
— Não posso lhe dizer, ainda.
Chegaram à porta e a mulher abriu-a, um cheiro de incenso invadiu o corredor. Jacques começava a sentir o efeito da visão à sua frente entre suas pernas, se aquela mulher continuasse daquele jeito ela iria se arrepender. Como se ouvisse os pensamentos do canadense, a albina disse num tom fúnebre:
— É necessário instruir-te agora, depois iremos satisfazer nossos desejos.
— Nada disso, vamos nos satisfazer agora!
Jacques esticou os braços para agarrá-la e a mulher se abaixou, virou-se rapidamente e deu uma violenta cotovelada no abdome do canadense. Ele se curvou de dor e ela o agarrou pelo pescoço, girando o imenso corpo por cima do seu. Jacques caiu de costas no chão. Ficou de pé e foi atingido por um pontapé nas costas, deu dois passos para a frente e caiu de joelhos. Jazek saltou por sobre sua cabeça e o atingiu com outro pontapé no queixo, o gigante deu alguns passos para trás evitando os outros golpes da mulher, golpeou-a com a mão aberta no rosto e ela caiu no chão. Jacques saltou, esperando cair sobre a albina, mas ela rolou para o lado e o canadense atingiu o solo com todo o seu peso, quebrando a clavícula e o braço esquerdo. Deitou-se de costas e segurando o braço quebrado, estranhamente soltou uma imensa gargalhada e comentou:
— Acho que agora teremos que deixar nossos desejos para depois de qualquer maneira.
Jazek sentou sobre o peito do canadense e inclinou o corpo para frente, apoiando os braços nos joelhos.
— Acreditaste mesmo que eu me deixaria possuir por tu, se esta não fosse minha vontade? És realmente tolo como imaginei. Mas não te preocupes, tua dor é pequena e facilmente extirpável. Na verdade teu braço quebrado está doendo menos que teu amor-próprio.
— Tem razão. Nunca fui tão humilhado em minha vida. Jogado no chão e domado por alguém tão pequeno. É vergonhoso.
— Não te preocupes com isto também, ninguém além de nós ficará sabendo de tua derrota.
Jazek se deitou sobre o corpo de Jacques e o beijou longamente, ao fim do beijo as dores haviam sumido. O gigante se levantou e a mando da mulher, sentou-se no centro de um círculo dentro do cômodo, Jazek sentou num outro círculo, cerca de um metro de distância do primeiro.
— Como fez aquilo? Você só me beijou e fiquei bom. É incrível.
— Aprendi muitas coisas em minha longa vida, Jacques, mas curar é algo que nasceu comigo. Assim como tua força e longevidade.
— O que quer dizer?
— Quantos outros homens com cento e dez anos de idade conheces? Tu aparentas no máximo trinta, e creio que não envelhecerás mais, digo-te que não morrerás de velhice, pois os anos passam mas não te afetam mais assim como há muito cessaram de pesar em mim.
— Isto é muito estranho, você diz que não vou morrer? E por quê? E que história era aquela de irmandade? Quem é você? - Jacques falava rápido e mostrava um tremor na voz. Parecia estar com medo, ou ansioso, queria sair dali mas não conseguia se mover. A voz da mulher parecia ter colado-o no chão, com seu tom sério e tenebroso.
Jazek esperou que se calasse e começou a explicar. Contou que havia um pequeno grupo de pessoas que foram agraciadas com a semi-imortalidade, que se autodenominavam nimrods. Envelheciam apenas até certo ponto e nunca adoeciam. Apenas se fossem gravemente feridos poderiam ser mortos. Além de tudo, cada um havia nascido com um dom excepcional: força, velocidade, agilidade, resistência. Com o tempo talvez substituíssem o gênero humano do planeta, o qual até agora tinha conseguido muitas conquistas e muito sofrimento, como o que vira no caminho até a mansão. Este grupo de privilegiados tinha ainda um terceiro dom: conforme a sensibilidade de cada um, eles podiam sentir à distância um nimrod, ou um nimrod em potencial, pois nem todos desenvolviam plenamente seus dons, estes eram chamados de craj’nimrods1.
A magia de Jazek, que curara seus ossos em segundos, era uma coisa que ela aprendera ao longo dos seus quase três milênios de vida, seu dom nimrod ela não revelou. Nem mesmo revelou o porquê da máscara. Apenas disse que era um acordo antigo como ela própria, outra mulher nimrod usava também uma máscara parecida, por motivos semelhantes. Ela o havia chamado para que fosse instruído na língua e nos conhecimentos de luta, matemática, astronomia, medicina e também no amor porque o corpo de um nimrod era diferente também em algumas zonas erógenas. Aprender tudo o que Jazek propunha não era uma tarefa fácil, fosse para a mestra, fosse para o aluno, e ela tinha apenas dois anos para ensinar-lhe tudo. Alguma coisa poderia ser passada por magia, mas quase tudo seria da maneira mais difícil.
— Por que temos apenas dois anos?
— Dentro de dois anos, todos os nimrods irão se reunir na Itália para o encontro.
— E eu estarei pronto até lá?
— Não, mas tu foste encontrado já adulto e meus companheiros levarão isto em consideração, deves aprender no mínimo o nosso idioma e receber seu nome nimrod. Eles sentirão, assim como eu, que tu és um verdadeiro nimrod.
— Então vamos começar.
— Sim, comecemos. Teu nome a partir de hoje, teu nome será Nirus’oses, que em nosso verdadeiro idioma significa “o grande urso”, é bem apropriado, já que tu te assemelhas àqueles animais, no porte e no vigor.
Jazek se levantou e com o pé esquerdo empurrou o canadense para trás, deitando-o no chão frio. As lâmpadas dentro do cômodo apagaram-se sozinhas e num tom rouco de desejo, murmurou:
— Agora satisfaremos nossos desejos.
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