sábado, 7 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Uma hora depois o furgão modificado saía do motel e se dirigia a São Paulo, andando num ritmo muito acima do normal. Fênix conversava com seu aluno:
Eu, N’dilo e sua filha, à qual ele me apresentou depois, andamos por meses no deserto até chegarmos a uma pequena vila, lá conseguimos alimentos e roupas novas, em troca de nossas histórias. Percorremos uma grande distância de vila em vila, ficando apenas alguns dias em cada uma. Até que N’dilo e Cit’anis1 casaram-se, então ficamos dois meses hospedados na casa de Jazek.
Cit’anis era uma nimrod?
Ela é a filha de N’dilo. - Hugo arregalou os olhos, espantado, mas Fênix continuou: Sei o que pensas, na época eu também os desaconselhei, tendo o apoio de Jazek. Mas enquanto discutíamos, o pássaro cor de fogo de Zal’irckas, entrou na casa, através de uma janela aberta, segundos depois ele apareceu na porta de entrada.

(630 a.C.)
Por que discutis este assunto de maneira tão mundana? Vós ainda não sabeis que não sois como todos? Vós já transgredistes a mais implacável das leis, e agora quereis retornar aos preconceitos dos homens? Fênix e Jazek, não há porque impedir esta união. Há amor mais verdadeiro do que aquele que existe entre um pai e sua filha?
Mas é errado. Que filhos poderão nascer desta união? - Reclamou Jazek
Só assim terão filhos. Pois a semente de N’dilo não florescerá em uma mortal.
E por que não, Zal’irckas? Somos assim tão diferentes? - Perguntou Fênix.
O feiticeiro olhou para Fênix com uma expressão incrédula, em seguida sorriu e comentou:
É estranho que me perguntes isto, Fênix. Aprendeste tão pouco em tanto tempo? Teu tempo com N’dilo foi inútil? Com quantos homens dormiste desde que Jonel se foi? Cem, ou mais? Nunca ficaste grávida e podes conhecer mais uma centena de amantes que não dará a luz enquanto não encontrares outro como tu.
Eu gastei horas tentando convencê-la disto mas ela não me ouve. Já expliquei que Cit’anis é fruto de minha união com uma mulher nimrod. - Explicou N’dilo.
Mulher nimrod? - Perguntaram todos.
Há muitos anos conheci em Ninive, um homem chamado Nimrod. Ele era caçador e era muito espirituoso. Tinha uma força muito grande e uma personalidade incorrigível. Eu chamo a nossa irmandade de nimrods em homenagem a ele.
Muito interessante, embora infantil. - Comentou Jazek.
É realmente interessante, penso que deve ser mantido. Quanto ao casamento, creio que já discutimos o suficiente. - Zal’irckas comentou num tom de ordem indiscutível.
Houve um longo momento de silêncio. O feiticeiro se levantou e saiu, todos ficaram observando a porta aberta, minutos depois, uma mulher entrou seguida por Zal’irckas. Ela se sentou e o feiticeiro a apresentou:
Até agora eu os reuni para que discutissem entre si, infelizmente não tenho mais tempo disponível para tanto. Eu vos apresento Ádila, a quinta nimrod, como N’dilo vos chama, de agora em diante vós pressentireis outros como vós e deveis vos reunir com regularidade.
Devemos obedecê-la2 em sua ausência? Não me rebaixarei a tanto. - Comentou Jazek
Não é necessária uma nova discussão sobre este tema. Ádila será líder num futuro distante, quando existirem centenas de vós. E vós quatro serão seus generais. Isto é tudo, agora eu tenho de partir. Paz entre vós.
E desapareceu no ar, o pássaro cor de fogo, que havia ficado no beiral da janela durante a breve reunião, alçou vôo e desapareceu também. N’dilo mantinha um sorriso quase felino colado ao rosto. Durante todo o tempo que estivera viajando com Fênix, tentara de todas as maneiras achar uma brecha na muralha e finalmente descobrira que até mesmo aquela mulher mascarada e irritante tinha que obedecer alguém. De que adiantava tanta força e frieza se ela tinha que se curvar como qualquer outro às ordens de um superior?
Como que lendo aqueles pensamentos, Fênix se virou para ele e disse:
Tu e tua filha se arrependerão de terem desposado um ao outro. Apesar de que Zal’irckas diz, vós não trareis ao nosso meio uma criatura sã, entretanto nada posso fazer para impedir, pois que os dois já dormem juntos desde antes de conhecer-nos. Temo por nós cinco e pelas centenas de nós que Zal’irckas diz haver no futuro.
A voz de Fênix estava rouca e ecoava dentro dos ouvidos de N’dilo e Cit’anis, os dois sentiram os pelos da nuca eriçarem e o estômago congelou. N’dilo imaginava que esse truque de Fênix não funcionava com ele, mas aparentemente se enganara, ou Fênix teria praticado ou suas palavras eram muito mais sérias que as de Zal’irckas. Quando a mulher terminou de falar, N’dilo não estava mais sorrindo.
1 A gata ou a felina em português.



2 A tradução do nome Ádila pode ser entendida como líder, ou cacique, mas não existe um significado literal.



Nenhum comentário:

Postar um comentário