Dentro do quarto, Fênix havia acabado de sair do banho quando Douglas a avisou do estado de seu aluno. Ela vestia apenas uma calcinha simples e sutiã e, é claro, a máscara. O alemão deduziu que ela tinha tomado banho com a máscara ou já a tinha devolvido ao rosto. Fênix estava arrumando alguma coisa numa espécie de cinto e jogou tudo dentro da mala aberta. Se dirigiu ao furgão do jeito que estava e se sentou ao lado de seu aluno.
— Então estás sentindo dores?
— Não exatamente, Douglas estava me perguntando sobre o tempo em que estive em treinamento contigo, e eu gostaria de saber de ti se não há problemas nisso. Mas realmente estou dolorido.
— Tu que decides se deve contar sobre teu treinamento ou não. Me surpreende o fato de tu estares já desperto. Ao que parece, teu organismo é muito mais forte do que eu havia previsto.
— Talvez fosse hora de eu te surpreender e não o contrário.
— Talvez. Eu lhe aplicarei uma outra dose de analgésicos, mas não muito. Ao chegarmos no encontro, já não deves ter mais nenhuma droga em seu corpo, caso contrário a magia de Jazek1 pode não surtir efeito, e eu não quero entrar em atritos desnecessários com uma de minhas irmãs.
A mulher preparou uma pequena seringa enquanto conversava e a espetou no braço de Hugo, que gemeu e perguntou:
— Irmãs? Tu tens irmãs, Fênix? Como é possível?
— Considero-a minha irmã por que ela foi também visitada por Zal’irckas assim como N’dilo. E também recebeu dele um dom e uma maldição.
— É um nome muito estranho, o que ela fez para merecê-lo?
— Ela mesmo o escolheu, na verdade, quando a conheceres tu verás que é um nome apropriado.
— E Fênix é um nome apropriado?
A mulher retirou a seringa do braço do rapaz e a jogou num cesto, então se curvou sobre ele e o mirou nos olhos, Hugo sentiu um calafrio lhe percorrendo a espinha, o estômago se apertou e sentiu náuseas. Quando Fênix abriu a boca a sua voz parecia ter um pequeno eco:
— Talvez tu mesmo descubra se meu nome é apropriado ou não, quando a hora chegar.
E saiu do furgão.
Douglas se aproximou da mala em cima da cama e ergueu o cinto em que Fênix estava mexendo. Era um cinto de balas com coldre e tinha uma arma enorme. Identificou-a como uma Cassul .454 com mira a laser, estava carregada, com cuidado colocou-a ao lado da mala. Dentro desta ainda haviam duas espadas, ou melhor duas katanas, duas barras duplas, mais uma espada curta. Havia uma pequena alça e Douglas ao puxá-la, descobriu um segundo compartimento. Ali estavam encaixadas mais duas adagas, e duas sai (pareciam garfos desproporcionais), dois braceletes, e uma espécie de ganchos com uma cinta para encaixar o punho. Douglas retirou um jogo de ganchos e os encaixou na mão direita. O punho ficou parecido com a garra de um animal, com pontas para agarramento ou ataque, o alemão imaginou o estrago que um golpe com aquilo faria em alguém, devolveu a garra à mala e retomou o revólver na mão. Retirou as balas e estava examinando-o detalhadamente quando Fênix retornou ao quarto.
— Fênix, você quer matar elefantes? Sabe o que uma arma dessas faz numa pessoa? Sabe que ficas muito bem de roupas íntimas?
— Tu achas que carregaria uma arma sem saber utilizá-la? Quanto à minha aparência, tenho consciência dela. E tu, que me desejas tão fortemente, sabes que este desejo é tão inútil quanto infantil?
A mulher estava a uns três metros de distância, e Douglas apontou a arma em sua direção e sorriu:
— Talvez, mas se este canhão estivesse carregado, meu desejo inútil e infantil seria saciado.
— Não sejas tolo, Douglas, tu sabes que não conseguirias acionar o gatilho da arma.
Douglas jogou a arma dentro da mala e falou desanimado:
— Tem razão.
— Vá banhar-se. - Empurrou o alemão para trás e recomeçou a arrumar seus apetrechos.
Douglas pegou algumas peças de roupa em sua mala e se dirigiu ao banheiro, parecia contrariado. Fênix recarregou o revólver e o colocou no coldre. Da tampa da mala tirou um macacão e o vestiu, tirou também um par de botas de couro de cano alto, calçou-as. A roupa e os calçados tinham vários encaixes de metal costurados, onde ela foi colocando as diversas armas da mala. Prendeu o cinto de balas com o revólver à esquerda, encaixou uma das katanas à direita e uma às costas. As barras duplas foram postas nas coxas, a espada curta foi presa na perna esquerda e as sai na perna direita, abaixo do joelho. Colocou os braceletes, que cobriam todo o antebraço, e encaixou as adagas nos ombros e os ganchos na parte de trás do cinto. Abriu um terceiro compartimento na mala, tirou um par de luvas de couro e o calçou, um garrote que prendeu no cinto, dois estiletes para encaixe nos braceletes. Um bastão de 80 cm foi preso às costas, um cantil e uma pequena bolsa contendo apetrechos cirúrgicos ainda couberam no cinto. Fênix ainda passou mais um cinto do ombro direito até o revólver, repleto de balas comuns e de ponta explosiva. Uma bolsa com shurikens, as estrelas japonesas da morte, foi presa no segundo cinto. Prendeu os cabelos ruivos e fez um pequeno rabo-de-cavalo. O macacão possuía vários cintos internos, os quais Fênix foi ajustando conforme foi pondo os equipamentos no corpo, várias pontas de couro ficaram aparecendo pelo macacão.
Fênix levou sete minutos para esvaziar a mala, e no momento em que Douglas saiu do banheiro ela estava ajustando uma enorme capa com capuz sobre o corpo.
— Você está parecendo uma daquelas figuras de druidas que vemos nos livros antigos.
— Sempre compareci nestas ocasiões completamente paramentada, não descontinuarei a tradição. Seria melhor que Gato também estivesse com seu equipamento, mas isto não é possível.
— Mas você não sente calor com esta roupa toda?
— Não, dificilmente sou afetada por estas sensações.
Douglas, que estava só de calças, soltou um sorriso amarelo e procurou uma camisa dentro da mala e um terno, espalhou-os na cama.
— Você é quem sabe. Eu devo ir à rigor também?
— Sim, não desejo que meus semelhantes imaginem que não tenho colaboradores à altura de meu posto na irmandade.
— Será que a toda-poderosa Fênix tem que obedecer à padrões preestabelecidos?
Douglas olhava para a mulher da maneira mais cínica possível e Fênix ficou em silêncio por alguns segundos, de braços cruzados, depois respondeu num tom de reprovação:
— Infelizmente.
E sentou na cama, afastando as malas com a mão. Pela primeira vez a mulher mascarada parecia derrotada. Douglas ficou impressionado diante da demonstração de impotência, ainda que mínima, daquela que parecia uma muralha contra sentimentos. Ele deduziu que, para que Fênix chegasse a demonstrar o que sentia, aquele protocolo deveria desagradá-la terrivelmente. Quis falar alguma coisa, mas não achou palavras para consolar a mulher. Momentos depois, uma campainha tocou e, numa gaveta ao lado da porta, surgiu uma bandeja com um desjejum completo. Douglas a apanhou e colocou em cima de uma das malas e se dirigiu à Fênix:
— Quer comer?
— Sim.
1 Jazek é uma palavra de múltiplos significados, tais como estranha, negra, trevas, incomum, ou também como uma afirmação de negação generalizada.
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