sábado, 28 de abril de 2012

Começa mais uma história

Bem, não é exatamente uma história. É uma série de diálogos, que se passam num futuro muito distante, onde toda a vida na Terra, e toda nossa sociedade fica irreconhecível.
não vou dizer mais que isto, o resto vocês conferem em:
https://sites.google.com/site/contareconta/home/dialogos-perdidos--01

Boa Leitura

terça-feira, 10 de abril de 2012

nimrods finalmente organizado

E aí pessoal?

REsolvi botar uma ordem na bagunça da história dos Nimrods: criei uma conta no Google Sites e coloquei a história toda lá.
Começo, meio e fim de tudo: https://sites.google.com/site/contareconta/
Lá também tem umas outras histórias

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

 — Se fosse apenas por mim eu aceitaria, mas eu não posso mais deixar um ente querido sozinho, não de novo.
Parece-me que o amor não foi feito para nós.
Não. Eu acredito que nós é não somos feitos para o amor. Nós tornamos vítimas do que fizemos de nós mesmos.
Jazek se desvencilhou novamente de Jacques e se dirigiu à porta, girou a maçaneta mas não abriu.
Tens razão, Nirus’oses, não podemos mais acreditar em nós mesmos, já mentimos tanto que não podemos mais dizer a verdade e ser o que gostaríamos de ser. Adeus e seja feliz em sua mentira, eu não posso mais contar esta possibilidade.
Saiu e fechou a porta com força. Lágrimas corriam pelo rosto de Jacques, era possível que ele estivesse mesmo vivendo uma mentira com Joan? Não, o que sentia por ela era verdadeiro e intenso. Voltou a olhar pela janela, por que Joan ainda não retornara? O que as gêmeas estariam fazendo com ela afinal?

Jazek andava rápido pelo corredor, em direção ao seu quarto. Se a máscara permitisse estaria chorando copiosamente naquele momento. Numa das esquinas do velho hotel encostou-se e se deixou escorregar pela parede, ficando de cócoras, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar. Sentou no chão e relaxou o corpo. Não se importava mais se alguém a visse, nem se passasse vergonha ou se fosse expulsa da comunidade nimrod. Não era possível que aquilo lhe tivesse acontecido, não a ela, que já vira homens se arrastarem a vida toda atrás dela, como Stormstone, que a seguia como a um cão e morreu defendendo-a. Nunca tão pouco tempo havia passado de maneira tão lenta. Quarenta e cinco anos deveriam ter parecido apenas dois ou três, mas pareceram séculos até ter uma chance de falar novamente com seu amado, apenas para ter sido rejeitada por ele. Era a maior humilhação que já tivera em seus quase dois mil e novecentos anos de vida.
Súbito escutou passos no corredor, ou melhor, sentiu passos no corredor, pois a pessoa se movia com absoluto silêncio. Em sua cegueira, Jazek percebeu que dez metros à sua direita uma mulher alta, talvez um metro e setenta e cinco, por volta de uns sessenta e seis quilos, cabelos pelos ombros, trazia algo metálico no rosto. Era Fênix, andava devagar e decidida, como sempre. Jazek se levantou e se recompôs, arrumou os cabelos, embora não estivessem despenteados. Maldição, pensou, de todos os cento e doze nimrods, tinha que ser justamente ela a lhe encontrar num estado tão deplorável? Justamente a mais fria e insensível criatura no planeta? Vê-la naquela situação era uma arma de que Fênix com certeza não abriria mão de usar. Apesar do uma representava para outra, ela não se deixaria abalar. A cada passo da mulher seu coração batia mais rápido, e cada passo parecia demorar horas. Fênix chegou até a alguns centímetros de sua colega de máscaras e a encarou, com um olhar que parecia atravessá-la como manteiga, e falou, não naquela voz que costumava provocar calafrios e mal-estar até nos nimrods mais corajosos, mas num fio de voz que conotava até, (quem poderia saber? ), uma tristeza sem par.
Tenho inveja de ti, mulher.
O primeiro desejo de Jazek ao ouvir estas palavras foi o de socar Fênix, mas seria um esforço inútil, ela não estava em condições de lutar naquela hora. Com uma mistura de alívio e espanto, fazendo um esforço sobre-humano para não chorar, perguntou:
Por quê?
Tu estavas disposta a abandonar tudo pelo homem que amava, mesmo tendo que suportar severas represálias, e mesmo sendo rejeitada não perdeste o respeito por ti mesmo, saindo de maneira digna de sua vida. Eu nunca tive a oportunidade de amar tão intensamente alguém e temo que não conseguirei me entregar de tal maneira a uma emoção destas.
Fênix sacou uma de suas espadas com a mão esquerda, e apoiando a ponta no assoalho, se ajoelhou como um cavaleiro medieval.
Eu me curvo em homenagem a ti, Jazek, Feiticeira e guerreira. Mais que meu respeito pelo o que és para mim, tu agora contas com minha lealdade incondicional. - Se levantou e começou a andar em direção à porta no fim do corredor. Jazek estava realmente surpresa, antes de sua companheira sair ela a chamou:
Fênix.
Sim?
Por que justamente tu é quem me falar de sentimentos? Como tu mesma disseste, nunca tiveste nenhum.
Um silêncio mortal se fez sentir no corredor, Jazek parecia poder ouvir a própria respiração e as batidas cardíacas. Fênix fez uma evolução com a lâmina e a guardou, o raspar do aço no couro parecia o som de um tigre urrando. A albina sentiu os cabelos da nuca eriçarem, uma pedra de gelo lhe correu pela espinha e seu estômago contraiu. Fênix falou com uma voz de trovão que ficou ecoando nos ouvidos de Jazek:
Nós sentimos falta apenas daquilo que não temos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Joan se agarrou como pôde à cintura da morena, que em minutos estava a quilômetros do alojamento, ultrapassando carros em movimento como se estivessem parados. A outra moto andava apenas a alguns metros à frente, costurando no transito. O vento parecia um grupo de tambores dentro do tímpano. O rosto ardia e os olhos mal ficavam abertos. As motos fechavam a frente dos carros e alguns perdiam o controle, um chegou a bater numa caminhonete. Depois de passar raspando por um caminhão enorme, a morena diminuiu a marcha, deixando alguns carros passar por ela, Joan percebeu que a outra mulher acompanhou a manobra instantaneamente, então ela gritou:
Você é maluca, Sucuri.
Eu sou Anaconda, em nosso idioma oficial meu nome é Nitza, minha irmã se chama Anitza. Apenas a pronúncia é diferente, para identificar uma ou outra, mas como pode ver isso é apenas redundância.
Vamos ajudar quem se acidentou?
Isto não é necessário. Estão todos vivos. Veja agora nossa dança.
As gêmeas aceleraram as motos e começaram a fazer círculos no asfalto, Joan quase caiu da moto e gritava, pedindo para pararem, mas as duas arrancaram violentamente e ela teve que agarrar com força na morena. Emparelharam-se e sacaram duas espadas, Nitza reduziu a velocidade e quando Anitza estava a uns duzentos metros freou e virou a moto na direção da irmã, as duas pararam e começaram a girar as armas no ar. Anitza acelerou e continuando a girar a espada, pôs a máquina em movimento, ela vinha rapidamente. Com uma fração de segundo de atraso, Nitza fez o mesmo. O coração de Joan disparou, aquelas duas eram malucas demais, e pareciam se dar conta disso, e ter prazer. Ela segurava com toda a força que tinha na cintura da morena, e encolheu a cabeça nas costas da piloto quando a irmã se aproximou. Como dois cavaleiros medievais, elas pareciam se enfrentar em cima de cavalos, uma chuva de faíscas pareceu cair no asfalto quando as lâminas se encontraram. As motos derraparam e giraram violentamente, mão esquerda empunhando a lâmina, mão direita girando o acelerador, Nitza disparou com a moto e sua irmã foi atrás. Os carros que transitavam por ali eram obrigados a desviar das duas e alguns chegaram a bater entre si. Elas começaram a correr novamente entre os carros, passando a milímetros de pará-choques e carrocerias.
Nitza entregou a espada à sua companheira de banco e gritou que ela devia defender-lhe da irmã. Joan segurou a lâmina desajeitadamente e respondeu:
Ela é sua irmã, não lhe faria mal.
Eu sei, mas eu não me referia à minha defesa, ela pode querer seu pescoço desta vez.
Por Deus!
Sim, reze por seu Deus na hora de nossa morte. - Nitza gritou a plenos pulmões e acelerou a moto ainda mais. Joan reparou que os carros ao seu redor pareciam andar em marcha ré.
Anitza avançava por trás, espada apontada para a frente. Joan virou o rosto para e viu apenas um brilho metálico.

Jacques estava perdendo a terceira partida de xadrez para Jazek em menos de duas horas, ele sempre perdera de sua ex-amante e professora, mas nunca numa velocidade tão grande.
Sinto que tu estás fora do jogo, Nirus’oses, estás preocupado com tua amada?
Tu perguntas apenas porque queres escutar de minha boca, Jazek. Mas sim, estou preocupado com ela. Já saíram há mais de sete horas e tenho medo do que aquelas duas serpentes podem estar fazendo com Joan.
Não te preocupes com ela, as gêmeas não vão machucá-la. Afinal, tua esposa é uma de nós, apesar de não conhecer os nossos costumes.
Eu não tive tempo de ensinar nem o nosso idioma a ela.
O gigante se levantou e se apoiou no beiral da janela, suspirou fundo. Jazek o abraçou por trás e o beijou nas costas, sua pele raspava duro na dela.
Tu sentes falta de Joan, e com razão. Ela é muito parecida contigo. - Jazek suspirou e começou a falar com a voz trêmula - Mas há também alguém que sente muitas saudades de seu companheiro, porque há quarenta e cinco anos ele silenciou para ela. Esse nimrod significou tanto para ela que até hoje não procurou outro que pudesse substituí-lo.
Jacques abaixou a cabeça, fechou os olhos. Estava comovido, assistir à queda uma fortaleza como a mulher que o abraçava naquele momento era um fato raro. Ela com certeza sondara a área antes de jogar com ele, seria a destruição de sua posição hierárquica na comunidade nimrod se alguém mais escutasse aquelas palavras, ditas com emoção verdadeira. Ninguém mais acreditaria na imagem de mulher imperturbável transmitida por ela ao longo de centenas de anos. Não seria expulsa da irmandade, mas o crédito entre os nimrods teria que ser galgado degrau a degrau novamente. Jazek cobrava muito de seus alunos e companheiros mas também tinha que dar o exemplo, e este teria que ser imaculado. Até poderia levar quem quisesse para seu leito, mas nunca se envolver emocionalmente. O canadense se virou e abraçou a mulher mascarada, o corpo dela quase desaparecia nos braços dele.
Jazek, tu sabes porque me afastei de todos vós, não apenas de ti. Vós sois tão indiferentes, tão pouco verdadeiros. Tu mesmo não te comporta da mesma maneira em todos os lugares. Eu sei e sinto que me desejas ao teu lado, mas também sei que não podes declarar isto aos outros e que não podes demonstrar teu amor por mim a quem quer que seja. Tu sabes que não concordo com isto e que não conseguirei manter-me frio em relação a ti em frente aos outros.
A albina se afastou do corpo quente e aconchegante do canadense e sentiu uma lufada de vento frio. Ficou de costas para o ex-amante e cerrou os punhos à altura da cintura. Jazek se sentia humilhada, ultrajada, nenhum homem, nimrod ou não, a havia negado até aquele momento. Por quê justamente ela tinha que amar justamente aquele que não a deseja mais? Ela tinha dado tudo a ele, conhecimento, habilidade, ensinou-o tudo o que sabia, tudo, para agora ela ser rejeitada. O brutamontes ainda a chamara de inconstante, mal ele sabia o quanto implicaria admitir um amor aos outros. Neste momento ela amaldiçoou Zal’irckas por tê-la feito como ela era. Agora ela teria que renunciar ao único amor de sua vida, para manter sua posição de curandeira e feiticeira ou se submeter à uma nova apreciação da comunidade, pois estaria alterando seu modo de ser. Bem fizera Fênix que calou as críticas à sua pessoa, mantendo sua posição de respeito à força e à custa de muitos ossos quebrados. A mulher era temida, amada e até odiada, pelo mundo todo, mas nunca criticada ou apontada de modo pejorativo. Entretanto, ela era Jazek, curandeira, feiticeira e guerreira indomável, e não Fênix, fria, calculista, maquiavélica, imbatível e invulnerável. Por fim conseguiu falar, mas a voz tremia como um ramo ao vento:
Nirus’oses, se eu aceitar ser o que desejas, tu me amarias?
Jacques quase não acreditou nas palavras, assim como não acreditava no que acontecia com aquela mulher à sua frente, era possível que Jazek o amasse tanto? Entretanto, ele já amava outra, e apesar de ainda sentir muita falta de sua professora e amante, não poderia trair sua esposa. Por que Jazek demorou tanto a se decidir entre ser ela mesma e ser o que mostrava que era? Maldição, se pudesse seguir seus desejos, arrancaria a roupa de Jazek ali mesmo e lhe daria o que ela tanto queria e continuaria amando-a como era antes de ir embora, mas manter uma amante lhe parecia errado, e também perderia o amor de sua atual companheira. Abraçou a mulher por trás e as lágrimas finalmente chegaram aos seus olhos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Depois de encarar Fênix frente a frente, Joan acreditou em todas as palavras de seu marido. Ela também sentiu um frio na espinha e o estômago revirar quando a mascarada falou. Assim como seu marido considerou todos muito distantes e frios uns com os outros, não simpatizando com ninguém, apesar de saber que todos ali eram seus iguais. Todos ficavam discutindo suas conquistas através dos anos e guerras que venceram, alguns chegavam a discutir quantas vezes teria morrido se não fossem nimrods. As únicas exceções eram Fênix e Jazek, mas as duas mulheres pareciam duas muralhas inexpugnáveis, mantendo entre si uma animada conversa, mas mostrando um desprezo total com os membros mais novos, entendendo-se novos como aqueles que não chegaram à casa dos quinhentos anos. Achando tudo aquilo ridículo demais, Joan se separou do marido o qual estava numa disputa acirrada de força com o filho de N’dilo, que apesar de bem mais magro parecia extremamente forte. Sentou em uma das duas enormes Harley-Davidson que estavam no pátio do hotel abandonado, o qual servia de alojamento para os quase trezentos nimrods presentes.
Ze nîst dzus die noir?1
O que disse?
Na sua frente estavam duas mulheres idênticas, Joan já as tinha visto antes, eram irmãs gêmeas que Jacques apresentou-lhe como Anaconda e Sucuri. Ela riu ao ouvir o apelido das duas, mas ao saber que realmente poderiam ser perigosas como as serpentes que lhes emprestavam os nomes; não achou mais graça. Eram morenas, altas e com uma beleza corporal fora do comum, na verdade as achava mais bonitas que a si própria. Usavam roupas justas de couro escuro. Elas se entreolharam e sorriram, depois a da esquerda deu um passo à frente e respondeu em inglês:
Seu marido não lhe ensinou a nossa linguagem? Que tipo de nimrod ele acha que é? Ninguém pode apresentar um novo membro à nós sem ter ensinado-lhe o idioma. Eu lhe perguntei o que faz sentada nesta moto, já que ela é minha e de minha irmã.
Desculpe, mas achei que não haveria problema. Eu estava cansada de toda esta bagunça sobre nimrods que resolvi me encostar no primeiro lugar confortável que vi. Mas já estou indo embora, não se preocupe.
Não, não se incomode. Não devemos ser tão herméticos com os recém-chegados, afinal, se você nem teve tempo de aprender a falar conosco é natural que esteja estranhando nossos costumes. Infelizmente não há como explicá-los, apenas se acostumar com eles.
Como qualquer outra sociedade, não é?
Sim.- Falou a da direita. - A diferença é que você vai ter todo o tempo do mundo para conviver conosco. Pode ser divertido, ou pode ser um inferno. Seu marido, por exemplo, antipatiza conosco e resolveu viver sozinho, ou melhor, acompanhado. - Sentou-se na outra moto. - Vamos dar uma volta?
Não sei pilotar.
Eu piloto.
Antes que Joan pudesse dizer alguma coisa a morena já a tinha colocado na garupa e montado na moto, em segundos já estavam saindo do pátio.
Agarre-se bem em mim, estas belezas voam.
Esqueci de perguntar quem é você.
Isso é indiferente, já que Anaconda e Sucuri são dois nomes para a mesma serpente. Eu e minha irmã somos uma só pessoa.
Perto dali, Jacques conseguia derrubar, a certo custo, o filho de N’dilo. Ao ver que sua mulher saía com as gêmeas, falou com certo medo na voz:
Maldição, tudo menos isso.
1 “O que fazes sentada aí?” em português.



nimrods, mais um capítulo

Jazek estava orgulhosa de seu aluno e, por enquanto, amante. Desde que o chamara do Canadá para Nova Iorque, ele se mostrara digno de ser um da irmandade nimrod. Ela ainda achava o nome infantil e ridículo, mas era cada vez mais aceito pelos outros membros, perto de trezentos agora. Já haviam sido muito mais, mas disputas idiotas de poder entre os mais novos estavam aos poucos destruindo a congregação. Era ultrajante ver criaturas iguais entre si lutarem para mostrar que possuíam mais terras, ouro ou idade. A sociedade nimrod estava tomando o mesmo caminho que a humana, caminho que ela mostrara a Nirus’oses, o Urso, quando o chamou para si. Em vez de cooperarem entre si para que fossem todos prósperos, alguns competiam entre si com o objetivo de autodepreciação.
É claro que se algum membro a desafiasse numa luta, ela aceitaria, mas apenas com caráter de treino ou para testar o aluno de algum colega. Estes combates eram muito comuns nos encontros. Nunca como uma disputa por alguma posse. Fênix, ela sabia, aceitaria este tipo de luta, mas ninguém ousava sequer se aproximar das duas mulheres, que alguns imaginavam serem dois demônios.
Jacques foi aceito na irmandade já falando fluentemente o “nimrodês”, como ele o apelidou e, como todos foi medido, pesado, registrado e recebeu um anel com seu nome marcado.
Jacques Frederique Russel, canadense, nascido em outubro de 1793, altura: dois metros e doze centímetros, peso: cento e vinte e oito quilos, cabelos castanhos, olhos idem. Este homem se parece comigo.
Acredito que sim, pois és tu que estas descrito nessa ficha. - Comentou Jazek
Duas coisas sempre me perturbaram nestes dois anos, e gostaria que me explicasse.
Jazek, sabendo de antemão o que seu aluno perguntaria, sentou-se na larga cama e desfez a trança do cabelo, tirou o casaco e o jogou no chão. Deitou-se e perguntou:
O que desejas saber, Urso?
Primeiro, como você enxerga com este metal em frente aos olhos? - Jacques já falava o zal linr com grande eloqüência, e como tinha uma bela voz, Jazek sentia prazer em ouvi-lo falar.
Eu fiz um acordo com Zal’irckas, há muito tempo atrás. Havia apenas cinco de nós naquele tempo. Eu, N’dilo, Fênix, Cit’anis e Ádila. Tu os conheceste hoje, em tua apresentação. Pois bem, Zal’irckas apareceu para mim e me fez uma proposta de imortalidade. Não a nossa semi-imortalidade, ainda sujeita às condições da morte, ele me propôs uma vida realmente sem fim. A um certo preço: a minha visão e meu rosto. De que adiantaria ser eternamente cega, comentei; Zal’irckas afirmou que minha cegueira era necessária para que minha verdadeira visão fosse libertada.
E que visão é essa?
Eu não conseguiria explicar, tu terias que ser cego para entender.
Podes tentar, não pode?
Muito bem, eu sinto as coisas ao meu redor, em todas as direções. Eu percebo o seu formato, sua cor, inclusive sua densidade e temperatura. Não necessito vê-las ou tocá-las para saber como agir com elas.
Isto me parece mágica, mas eu acredito. Foi assim que me jogaste no chão com tamanha facilidade quando nos conhecemos?
Isto já é parte de sua segunda pergunta, acredito. Eu também obtive uma força muito grande, fora até dos padrões nimrods. Zal’irckas com certeza me pregou uma peça no dia em que me deu a máscara.
Este Zal’irckas de quem tu falas tanto, ainda está vivo? Gostaria de conhecê-lo.
Ele não é uma pessoa a ser apresentada, Nirus’oses, se tu fores digno, ele aparecerá para ti.
Muito bem, então não falemos mais nisto. Vamos comemorar a minha ascensão à categoria nimrod.
Se colocou por cima dela e a beijou nos lábios, pescoço, seios. A pele era macia e firme, a dele dura como rocha. Depois, ela se deitou sobre o canadense, que a envolveu com um dos braços.
Não tens receio de contar-me estas coisas? Teus dons nimrods e os acordos que fizeste.
Mesmo que tu queiras espalhar o pouco que contei sobre mim, minha magia não o deixará abrir a boca. Mas quem lhe disse que te contei meus dons nimrods?

Jazek nunca lhe contara seu dom nimrod, e Jacques era tomado por pensamentos neste sentido, às vezes. Era possível ainda que ela tivesse mais alguma habilidade? Pelo que se lembrava Jazek era feiticeira, curandeira, guerreira, imortal, especialista em armas e ótima amante. Qual seria seu “dom especial”? Jacques acreditava que seria sua força, muito acima do que seria normal num corpo aparentemente tão delicado. Apesar do que ela lhe disse em sua última noite juntos na Itália, que só poderia usar seu dom apenas uma vez, ele ainda achava que estava sendo enganado pela sua ex-professora. Entretanto, se esta afirmação fosse verdade, Jazek deveria conter algo extremamente poderoso dentro de si, algo tão extraordinário que não pudesse ser revelado. Mas o que? O que poderia causar tanta cautela de um ser tão forte quanto Jazek, que parecia ter encarado o próprio inferno nos seus quase três milênios de vida? E quem era Zal’irckas que ela mencionava tanto? Ele seria um nimrod também? Então por que não comparecia aos encontros a cada quinze anos?
Cansado de fazer estas e muitas outras perguntas à sua mestra, sem receber respostas adequadas, Jacques Frederique Russel, o Grande Urso, decidiu deixá-la, à muito custo, e voltar à morar no norte do Canadá. Não que estivesse irritado, Jacques nunca guardava rancor de ninguém, mas se cansara de Jazek e dos mistérios que ela encerrava dentro de si. O canadense gostava muito mais de falar abertamente sobre tudo. Como a maior parte de seus colegas nimrods parecia gostar de fazer exatamente o contrário, resolveu entrar em contato com eles apenas nos encontros, organizados por N’dilo a cada quinze anos. Quando recebia alguma carta ou telefonema, apenas respondia-os sem muito interesse em encontrá-los pessoalmente, se algum aparecesse em sua casa, recebia-o com afetuosidade, mas nunca retribuía a visita. Foi assim até fins de 1964 quando, numa viagem pelo interior do país, descobriu uma linda garota de longos cabelos loiros e olhos verdes que pareciam arder no rosto. Jacques a identificou imediatamente como uma nimrod e se apaixonou perdidamente por ela. A reciproca foi idêntica e meio ano depois estavam casados. Joan se recusou a princípio, dada a imensa diferença entre os dois, mas o sentimento prevaleceu e se tornou uma mulher dedicada. Como sua família era conservadora, só ficou realmente sozinha com seu amado na noite de núpcias e sentiu-se quase rasgar-se ao meio durante as investidas de seu esposo que tentou, mas não conseguiu ser delicado ao deflorar sua noiva.
Por Deus, Jacques, nunca imaginei que fosse assim. Eu não vou conseguir andar por dias.
Eu sinto muito, sei que eu não devia ter agido assim, mas não consegui me controlar. Perdoe-me.
Não estou lhe culpando. Eu acho que devia ter me preparado, afinal, um homem do seu tamanho teria que ter um pênis fora do comum também.
Ainda acho que deveria ter ido mais devagar com você. Eu nunca tinha feito amor com uma virgem antes, e acho que fiquei nervoso.
Acho que vamos ter que nos acostumar.
E se acostumaram, até rápido demais, pensou Jacques. No dia seguinte voltaram a se amar e ela não sentiu mais dor nenhuma e até pediu uma segunda dose. Ele percebeu que a mulher se curava rápido demais até para uma nimrod e era ágil como uma gata. Conseguia se movimentar melhor que ele dentro da floresta e tinha um ótimo senso de direção. Os animais se aproximavam dela mas não a incomodavam. Até os cães mais ferozes se acalmavam e deitavam aos seus pés. Tinha ótima pontaria e seria uma excelente caçadora se gostasse de caça. Tolerava a atividade do marido porque sabia que era algo que estava no seu sangue, mas não a aprovava.
Jacques ainda não tinha contado a verdade sobre si a ela por medo de que sua esposa acreditasse que ele enlouquecera. Quando recebeu o convite para o próximo encontro, a ser realizado em agosto de 1965, na Austrália, foi obrigado a lhe falar.
Dois mil e oitocentos anos? Espera que eu acredite nisso? você está brincando? - Joan estava de pé na porta do banheiro, com as mãos na cintura, com uma expressão de surpresa estampada no rosto. - E você tem três mil provavelmente.
Não, Joan, eu tenho apenas cento e setenta e dois anos de idade.
Joan soltou uma gargalhada e se deixou sentar no chão. Cobriu o rosto com a mão e, ainda rindo, comentou.
Essa foi boa, e eu pensando que você falava a sério. Você não tem outra coisa para fazer, não?
Jacques, que estava sentado na cama se levantou e tentou, sem sucesso, impor o tom mórbido na voz que Jazek se mostrou mestre em utilizar:
Estou falando sério, Joan, e dentro de dois meses iremos para a Austrália, você acreditando ou não. É um compromisso que assumi antes de você nascer, e não vou desonrá-lo agora. Jazek me mataria.
Essa é a mulher de dois mil e tantos anos? O que mais ela tem de especial?
Jacques contou tudo o que sabia de Jazek e o que aprendeu com ela. Contou sobre os outros nimrods, dos encontros e dos espetáculos que davam. Falou dos sonhos que tivera antes de se encontrar com os outros nimrods e como conseguiu diferenciá-la como uma nimrod.
Quer dizer que eu sou imortal também? Isto é ridículo.
O gigante sentou-se em frente à esposa e inclinou-se, acariciou-lhe o cabelo e a beijou na testa. depois olhou-a bem dentro dos olhos e falou sério:
Já percebeu quantas vezes o seu hímen cresceu depois de ter sido rompido por mim? E que nunca ficou doente, nem mesmo uma gripe? Você não teve espinhas e até agora não ficou menstruada, o único sangramento que teve foi por causa dos seguidos rompimentos de seu hímen. Quando se corta, em poucos minutos o ferimento desaparece, e a cicatriz leva no máximo uma semana para desaparecer também. Além de que basta você pedir que todo mundo ao seu redor faz o que pediu. Acha que todo mundo é como você?
Joan ficou séria, pensando no que o marido lhe disse. Tinha notado tudo aquilo mas nunca dera importância a tais coisas, afinal fora assim desde o nascimento e achava que era natural. Mas colocado assim por outra pessoa, tudo mudava de figura. Era realmente possível alguém viver indefinidamente? Mas por quê? E como ninguém descobrira nada até agora?
Eu não sei por quê somos tão diferentes, mesmo entre os próprios nimrods, mas nós não somos feitos para julgar o destino. E quanto ao fato de ninguém saber de nossa existência... bem, algumas pessoas têm conhecimentos sobre nós. Elas sabem quem somos e o que fazemos e onde estamos. Elas nos mantêm no anonimato e nos dão cobertura em troca de favores que só nós podemos fazer.
E que tipo de favores são esses?
Dinheiro, intimidação, trabalhos sujos, contrabando. Nós mantemos certas famílias nos altos círculos da sociedade e elas nos mantêm onde nós queremos.
Fora o nosso poder de persuasão, não é?
Sim, nós temos a habilidade de fazer as pessoas acreditarem em nós.
Mas se nós trabalhamos para estas famílias, estamos presos a elas, somos dependentes dos mortais.
Sim e não. Precisamos deles para manter a nossa tranqüilidade, mas eles precisam muito mais de nós, porque se nós nos ausentarmos eles caem como um castelo de cartas. Já fizemos isto antes para mostrar a nossa força.
E você já matou alguém neste processo?
Jacques se levantou e deu algumas voltas no quarto, ficou olhando pela janela, apoiou as mãos no beiral. Sua voz se tornou grave e triste.
Infelizmente.
Joan se levantou e abraçou o marido, parecia estar chorando.
Não sei se poderei conviver com um assassino.
Você acredita que eu sou um assassino?
Não sei em que acreditar, tudo o que você disse parece mágico demais, e as provas mostradas são tão débeis...
Eu sei, meu amor, eu sei, mas no encontro você vai encontrar provas melhores.
É bom mesmo. Senão eu não poderei mais confiar em você.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Depois de encarar Fênix frente a frente, Joan acreditou em todas as palavras de seu marido. Ela também sentiu um frio na espinha e o estômago revirar quando a mascarada falou. Assim como seu marido considerou todos muito distantes e frios uns com os outros, não simpatizando com ninguém, apesar de saber que todos ali eram seus iguais. Todos ficavam discutindo suas conquistas através dos anos e guerras que venceram, alguns chegavam a discutir quantas vezes teria morrido se não fossem nimrods. As únicas exceções eram Fênix e Jazek, mas as duas mulheres pareciam duas muralhas inexpugnáveis, mantendo entre si uma animada conversa, mas mostrando um desprezo total com os membros mais novos, entendendo-se novos como aqueles que não chegaram à casa dos quinhentos anos. Achando tudo aquilo ridículo demais, Joan se separou do marido o qual estava numa disputa acirrada de força com o filho de N’dilo, que apesar de bem mais magro parecia extremamente forte. Sentou em uma das duas enormes Harley-Davidson que estavam no pátio do hotel abandonado, o qual servia de alojamento para os quase trezentos nimrods presentes.
Ze nîst dzus die noir?1
O que disse?
Na sua frente estavam duas mulheres idênticas, Joan já as tinha visto antes, eram irmãs gêmeas que Jacques apresentou-lhe como Anaconda e Sucuri. Ela riu ao ouvir o apelido das duas, mas ao saber que realmente poderiam ser perigosas como as serpentes que lhes emprestavam os nomes; não achou mais graça. Eram morenas, altas e com uma beleza corporal fora do comum, na verdade as achava mais bonitas que a si própria. Usavam roupas justas de couro escuro. Elas se entreolharam e sorriram, depois a da esquerda deu um passo à frente e respondeu em inglês:
Seu marido não lhe ensinou a nossa linguagem? Que tipo de nimrod ele acha que é? Ninguém pode apresentar um novo membro à nós sem ter ensinado-lhe o idioma. Eu lhe perguntei o que faz sentada nesta moto, já que ela é minha e de minha irmã.
Desculpe, mas achei que não haveria problema. Eu estava cansada de toda esta bagunça sobre nimrods que resolvi me encostar no primeiro lugar confortável que vi. Mas já estou indo embora, não se preocupe.
Não, não se incomode. Não devemos ser tão herméticos com os recém-chegados, afinal, se você nem teve tempo de aprender a falar conosco é natural que esteja estranhando nossos costumes. Infelizmente não há como explicá-los, apenas se acostumar com eles.
Como qualquer outra sociedade, não é?
Sim.- Falou a da direita. - A diferença é que você vai ter todo o tempo do mundo para conviver conosco. Pode ser divertido, ou pode ser um inferno. Seu marido, por exemplo, antipatiza conosco e resolveu viver sozinho, ou melhor, acompanhado. - Sentou-se na outra moto. - Vamos dar uma volta?
Não sei pilotar.
Eu piloto.
Antes que Joan pudesse dizer alguma coisa a morena já a tinha colocado na garupa e montado na moto, em segundos já estavam saindo do pátio.
Agarre-se bem em mim, estas belezas voam.
Esqueci de perguntar quem é você.
Isso é indiferente, já que Anaconda e Sucuri são dois nomes para a mesma serpente. Eu e minha irmã somos uma só pessoa.
Perto dali, Jacques conseguia derrubar, a certo custo, o filho de N’dilo. Ao ver que sua mulher saía com as gêmeas, falou com certo medo na voz:
Maldição, tudo menos isso.
1 “O que fazes sentada aí?” em português.