terça-feira, 10 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Jazek estava orgulhosa de seu aluno e, por enquanto, amante. Desde que o chamara do Canadá para Nova Iorque, ele se mostrara digno de ser um da irmandade nimrod. Ela ainda achava o nome infantil e ridículo, mas era cada vez mais aceito pelos outros membros, perto de trezentos agora. Já haviam sido muito mais, mas disputas idiotas de poder entre os mais novos estavam aos poucos destruindo a congregação. Era ultrajante ver criaturas iguais entre si lutarem para mostrar que possuíam mais terras, ouro ou idade. A sociedade nimrod estava tomando o mesmo caminho que a humana, caminho que ela mostrara a Nirus’oses, o Urso, quando o chamou para si. Em vez de cooperarem entre si para que fossem todos prósperos, alguns competiam entre si com o objetivo de autodepreciação.
É claro que se algum membro a desafiasse numa luta, ela aceitaria, mas apenas com caráter de treino ou para testar o aluno de algum colega. Estes combates eram muito comuns nos encontros. Nunca como uma disputa por alguma posse. Fênix, ela sabia, aceitaria este tipo de luta, mas ninguém ousava sequer se aproximar das duas mulheres, que alguns imaginavam serem dois demônios.
Jacques foi aceito na irmandade já falando fluentemente o “nimrodês”, como ele o apelidou e, como todos foi medido, pesado, registrado e recebeu um anel com seu nome marcado.
Jacques Frederique Russel, canadense, nascido em outubro de 1793, altura: dois metros e doze centímetros, peso: cento e vinte e oito quilos, cabelos castanhos, olhos idem. Este homem se parece comigo.
Acredito que sim, pois és tu que estas descrito nessa ficha. - Comentou Jazek
Duas coisas sempre me perturbaram nestes dois anos, e gostaria que me explicasse.
Jazek, sabendo de antemão o que seu aluno perguntaria, sentou-se na larga cama e desfez a trança do cabelo, tirou o casaco e o jogou no chão. Deitou-se e perguntou:
O que desejas saber, Urso?
Primeiro, como você enxerga com este metal em frente aos olhos? - Jacques já falava o zal linr com grande eloqüência, e como tinha uma bela voz, Jazek sentia prazer em ouvi-lo falar.
Eu fiz um acordo com Zal’irckas, há muito tempo atrás. Havia apenas cinco de nós naquele tempo. Eu, N’dilo, Fênix, Cit’anis e Ádila. Tu os conheceste hoje, em tua apresentação. Pois bem, Zal’irckas apareceu para mim e me fez uma proposta de imortalidade. Não a nossa semi-imortalidade, ainda sujeita às condições da morte, ele me propôs uma vida realmente sem fim. A um certo preço: a minha visão e meu rosto. De que adiantaria ser eternamente cega, comentei; Zal’irckas afirmou que minha cegueira era necessária para que minha verdadeira visão fosse libertada.
E que visão é essa?
Eu não conseguiria explicar, tu terias que ser cego para entender.
Podes tentar, não pode?
Muito bem, eu sinto as coisas ao meu redor, em todas as direções. Eu percebo o seu formato, sua cor, inclusive sua densidade e temperatura. Não necessito vê-las ou tocá-las para saber como agir com elas.
Isto me parece mágica, mas eu acredito. Foi assim que me jogaste no chão com tamanha facilidade quando nos conhecemos?
Isto já é parte de sua segunda pergunta, acredito. Eu também obtive uma força muito grande, fora até dos padrões nimrods. Zal’irckas com certeza me pregou uma peça no dia em que me deu a máscara.
Este Zal’irckas de quem tu falas tanto, ainda está vivo? Gostaria de conhecê-lo.
Ele não é uma pessoa a ser apresentada, Nirus’oses, se tu fores digno, ele aparecerá para ti.
Muito bem, então não falemos mais nisto. Vamos comemorar a minha ascensão à categoria nimrod.
Se colocou por cima dela e a beijou nos lábios, pescoço, seios. A pele era macia e firme, a dele dura como rocha. Depois, ela se deitou sobre o canadense, que a envolveu com um dos braços.
Não tens receio de contar-me estas coisas? Teus dons nimrods e os acordos que fizeste.
Mesmo que tu queiras espalhar o pouco que contei sobre mim, minha magia não o deixará abrir a boca. Mas quem lhe disse que te contei meus dons nimrods?

Jazek nunca lhe contara seu dom nimrod, e Jacques era tomado por pensamentos neste sentido, às vezes. Era possível ainda que ela tivesse mais alguma habilidade? Pelo que se lembrava Jazek era feiticeira, curandeira, guerreira, imortal, especialista em armas e ótima amante. Qual seria seu “dom especial”? Jacques acreditava que seria sua força, muito acima do que seria normal num corpo aparentemente tão delicado. Apesar do que ela lhe disse em sua última noite juntos na Itália, que só poderia usar seu dom apenas uma vez, ele ainda achava que estava sendo enganado pela sua ex-professora. Entretanto, se esta afirmação fosse verdade, Jazek deveria conter algo extremamente poderoso dentro de si, algo tão extraordinário que não pudesse ser revelado. Mas o que? O que poderia causar tanta cautela de um ser tão forte quanto Jazek, que parecia ter encarado o próprio inferno nos seus quase três milênios de vida? E quem era Zal’irckas que ela mencionava tanto? Ele seria um nimrod também? Então por que não comparecia aos encontros a cada quinze anos?
Cansado de fazer estas e muitas outras perguntas à sua mestra, sem receber respostas adequadas, Jacques Frederique Russel, o Grande Urso, decidiu deixá-la, à muito custo, e voltar à morar no norte do Canadá. Não que estivesse irritado, Jacques nunca guardava rancor de ninguém, mas se cansara de Jazek e dos mistérios que ela encerrava dentro de si. O canadense gostava muito mais de falar abertamente sobre tudo. Como a maior parte de seus colegas nimrods parecia gostar de fazer exatamente o contrário, resolveu entrar em contato com eles apenas nos encontros, organizados por N’dilo a cada quinze anos. Quando recebia alguma carta ou telefonema, apenas respondia-os sem muito interesse em encontrá-los pessoalmente, se algum aparecesse em sua casa, recebia-o com afetuosidade, mas nunca retribuía a visita. Foi assim até fins de 1964 quando, numa viagem pelo interior do país, descobriu uma linda garota de longos cabelos loiros e olhos verdes que pareciam arder no rosto. Jacques a identificou imediatamente como uma nimrod e se apaixonou perdidamente por ela. A reciproca foi idêntica e meio ano depois estavam casados. Joan se recusou a princípio, dada a imensa diferença entre os dois, mas o sentimento prevaleceu e se tornou uma mulher dedicada. Como sua família era conservadora, só ficou realmente sozinha com seu amado na noite de núpcias e sentiu-se quase rasgar-se ao meio durante as investidas de seu esposo que tentou, mas não conseguiu ser delicado ao deflorar sua noiva.
Por Deus, Jacques, nunca imaginei que fosse assim. Eu não vou conseguir andar por dias.
Eu sinto muito, sei que eu não devia ter agido assim, mas não consegui me controlar. Perdoe-me.
Não estou lhe culpando. Eu acho que devia ter me preparado, afinal, um homem do seu tamanho teria que ter um pênis fora do comum também.
Ainda acho que deveria ter ido mais devagar com você. Eu nunca tinha feito amor com uma virgem antes, e acho que fiquei nervoso.
Acho que vamos ter que nos acostumar.
E se acostumaram, até rápido demais, pensou Jacques. No dia seguinte voltaram a se amar e ela não sentiu mais dor nenhuma e até pediu uma segunda dose. Ele percebeu que a mulher se curava rápido demais até para uma nimrod e era ágil como uma gata. Conseguia se movimentar melhor que ele dentro da floresta e tinha um ótimo senso de direção. Os animais se aproximavam dela mas não a incomodavam. Até os cães mais ferozes se acalmavam e deitavam aos seus pés. Tinha ótima pontaria e seria uma excelente caçadora se gostasse de caça. Tolerava a atividade do marido porque sabia que era algo que estava no seu sangue, mas não a aprovava.
Jacques ainda não tinha contado a verdade sobre si a ela por medo de que sua esposa acreditasse que ele enlouquecera. Quando recebeu o convite para o próximo encontro, a ser realizado em agosto de 1965, na Austrália, foi obrigado a lhe falar.
Dois mil e oitocentos anos? Espera que eu acredite nisso? você está brincando? - Joan estava de pé na porta do banheiro, com as mãos na cintura, com uma expressão de surpresa estampada no rosto. - E você tem três mil provavelmente.
Não, Joan, eu tenho apenas cento e setenta e dois anos de idade.
Joan soltou uma gargalhada e se deixou sentar no chão. Cobriu o rosto com a mão e, ainda rindo, comentou.
Essa foi boa, e eu pensando que você falava a sério. Você não tem outra coisa para fazer, não?
Jacques, que estava sentado na cama se levantou e tentou, sem sucesso, impor o tom mórbido na voz que Jazek se mostrou mestre em utilizar:
Estou falando sério, Joan, e dentro de dois meses iremos para a Austrália, você acreditando ou não. É um compromisso que assumi antes de você nascer, e não vou desonrá-lo agora. Jazek me mataria.
Essa é a mulher de dois mil e tantos anos? O que mais ela tem de especial?
Jacques contou tudo o que sabia de Jazek e o que aprendeu com ela. Contou sobre os outros nimrods, dos encontros e dos espetáculos que davam. Falou dos sonhos que tivera antes de se encontrar com os outros nimrods e como conseguiu diferenciá-la como uma nimrod.
Quer dizer que eu sou imortal também? Isto é ridículo.
O gigante sentou-se em frente à esposa e inclinou-se, acariciou-lhe o cabelo e a beijou na testa. depois olhou-a bem dentro dos olhos e falou sério:
Já percebeu quantas vezes o seu hímen cresceu depois de ter sido rompido por mim? E que nunca ficou doente, nem mesmo uma gripe? Você não teve espinhas e até agora não ficou menstruada, o único sangramento que teve foi por causa dos seguidos rompimentos de seu hímen. Quando se corta, em poucos minutos o ferimento desaparece, e a cicatriz leva no máximo uma semana para desaparecer também. Além de que basta você pedir que todo mundo ao seu redor faz o que pediu. Acha que todo mundo é como você?
Joan ficou séria, pensando no que o marido lhe disse. Tinha notado tudo aquilo mas nunca dera importância a tais coisas, afinal fora assim desde o nascimento e achava que era natural. Mas colocado assim por outra pessoa, tudo mudava de figura. Era realmente possível alguém viver indefinidamente? Mas por quê? E como ninguém descobrira nada até agora?
Eu não sei por quê somos tão diferentes, mesmo entre os próprios nimrods, mas nós não somos feitos para julgar o destino. E quanto ao fato de ninguém saber de nossa existência... bem, algumas pessoas têm conhecimentos sobre nós. Elas sabem quem somos e o que fazemos e onde estamos. Elas nos mantêm no anonimato e nos dão cobertura em troca de favores que só nós podemos fazer.
E que tipo de favores são esses?
Dinheiro, intimidação, trabalhos sujos, contrabando. Nós mantemos certas famílias nos altos círculos da sociedade e elas nos mantêm onde nós queremos.
Fora o nosso poder de persuasão, não é?
Sim, nós temos a habilidade de fazer as pessoas acreditarem em nós.
Mas se nós trabalhamos para estas famílias, estamos presos a elas, somos dependentes dos mortais.
Sim e não. Precisamos deles para manter a nossa tranqüilidade, mas eles precisam muito mais de nós, porque se nós nos ausentarmos eles caem como um castelo de cartas. Já fizemos isto antes para mostrar a nossa força.
E você já matou alguém neste processo?
Jacques se levantou e deu algumas voltas no quarto, ficou olhando pela janela, apoiou as mãos no beiral. Sua voz se tornou grave e triste.
Infelizmente.
Joan se levantou e abraçou o marido, parecia estar chorando.
Não sei se poderei conviver com um assassino.
Você acredita que eu sou um assassino?
Não sei em que acreditar, tudo o que você disse parece mágico demais, e as provas mostradas são tão débeis...
Eu sei, meu amor, eu sei, mas no encontro você vai encontrar provas melhores.
É bom mesmo. Senão eu não poderei mais confiar em você.

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