quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Joan se agarrou como pôde à cintura da morena, que em minutos estava a quilômetros do alojamento, ultrapassando carros em movimento como se estivessem parados. A outra moto andava apenas a alguns metros à frente, costurando no transito. O vento parecia um grupo de tambores dentro do tímpano. O rosto ardia e os olhos mal ficavam abertos. As motos fechavam a frente dos carros e alguns perdiam o controle, um chegou a bater numa caminhonete. Depois de passar raspando por um caminhão enorme, a morena diminuiu a marcha, deixando alguns carros passar por ela, Joan percebeu que a outra mulher acompanhou a manobra instantaneamente, então ela gritou:
Você é maluca, Sucuri.
Eu sou Anaconda, em nosso idioma oficial meu nome é Nitza, minha irmã se chama Anitza. Apenas a pronúncia é diferente, para identificar uma ou outra, mas como pode ver isso é apenas redundância.
Vamos ajudar quem se acidentou?
Isto não é necessário. Estão todos vivos. Veja agora nossa dança.
As gêmeas aceleraram as motos e começaram a fazer círculos no asfalto, Joan quase caiu da moto e gritava, pedindo para pararem, mas as duas arrancaram violentamente e ela teve que agarrar com força na morena. Emparelharam-se e sacaram duas espadas, Nitza reduziu a velocidade e quando Anitza estava a uns duzentos metros freou e virou a moto na direção da irmã, as duas pararam e começaram a girar as armas no ar. Anitza acelerou e continuando a girar a espada, pôs a máquina em movimento, ela vinha rapidamente. Com uma fração de segundo de atraso, Nitza fez o mesmo. O coração de Joan disparou, aquelas duas eram malucas demais, e pareciam se dar conta disso, e ter prazer. Ela segurava com toda a força que tinha na cintura da morena, e encolheu a cabeça nas costas da piloto quando a irmã se aproximou. Como dois cavaleiros medievais, elas pareciam se enfrentar em cima de cavalos, uma chuva de faíscas pareceu cair no asfalto quando as lâminas se encontraram. As motos derraparam e giraram violentamente, mão esquerda empunhando a lâmina, mão direita girando o acelerador, Nitza disparou com a moto e sua irmã foi atrás. Os carros que transitavam por ali eram obrigados a desviar das duas e alguns chegaram a bater entre si. Elas começaram a correr novamente entre os carros, passando a milímetros de pará-choques e carrocerias.
Nitza entregou a espada à sua companheira de banco e gritou que ela devia defender-lhe da irmã. Joan segurou a lâmina desajeitadamente e respondeu:
Ela é sua irmã, não lhe faria mal.
Eu sei, mas eu não me referia à minha defesa, ela pode querer seu pescoço desta vez.
Por Deus!
Sim, reze por seu Deus na hora de nossa morte. - Nitza gritou a plenos pulmões e acelerou a moto ainda mais. Joan reparou que os carros ao seu redor pareciam andar em marcha ré.
Anitza avançava por trás, espada apontada para a frente. Joan virou o rosto para e viu apenas um brilho metálico.

Jacques estava perdendo a terceira partida de xadrez para Jazek em menos de duas horas, ele sempre perdera de sua ex-amante e professora, mas nunca numa velocidade tão grande.
Sinto que tu estás fora do jogo, Nirus’oses, estás preocupado com tua amada?
Tu perguntas apenas porque queres escutar de minha boca, Jazek. Mas sim, estou preocupado com ela. Já saíram há mais de sete horas e tenho medo do que aquelas duas serpentes podem estar fazendo com Joan.
Não te preocupes com ela, as gêmeas não vão machucá-la. Afinal, tua esposa é uma de nós, apesar de não conhecer os nossos costumes.
Eu não tive tempo de ensinar nem o nosso idioma a ela.
O gigante se levantou e se apoiou no beiral da janela, suspirou fundo. Jazek o abraçou por trás e o beijou nas costas, sua pele raspava duro na dela.
Tu sentes falta de Joan, e com razão. Ela é muito parecida contigo. - Jazek suspirou e começou a falar com a voz trêmula - Mas há também alguém que sente muitas saudades de seu companheiro, porque há quarenta e cinco anos ele silenciou para ela. Esse nimrod significou tanto para ela que até hoje não procurou outro que pudesse substituí-lo.
Jacques abaixou a cabeça, fechou os olhos. Estava comovido, assistir à queda uma fortaleza como a mulher que o abraçava naquele momento era um fato raro. Ela com certeza sondara a área antes de jogar com ele, seria a destruição de sua posição hierárquica na comunidade nimrod se alguém mais escutasse aquelas palavras, ditas com emoção verdadeira. Ninguém mais acreditaria na imagem de mulher imperturbável transmitida por ela ao longo de centenas de anos. Não seria expulsa da irmandade, mas o crédito entre os nimrods teria que ser galgado degrau a degrau novamente. Jazek cobrava muito de seus alunos e companheiros mas também tinha que dar o exemplo, e este teria que ser imaculado. Até poderia levar quem quisesse para seu leito, mas nunca se envolver emocionalmente. O canadense se virou e abraçou a mulher mascarada, o corpo dela quase desaparecia nos braços dele.
Jazek, tu sabes porque me afastei de todos vós, não apenas de ti. Vós sois tão indiferentes, tão pouco verdadeiros. Tu mesmo não te comporta da mesma maneira em todos os lugares. Eu sei e sinto que me desejas ao teu lado, mas também sei que não podes declarar isto aos outros e que não podes demonstrar teu amor por mim a quem quer que seja. Tu sabes que não concordo com isto e que não conseguirei manter-me frio em relação a ti em frente aos outros.
A albina se afastou do corpo quente e aconchegante do canadense e sentiu uma lufada de vento frio. Ficou de costas para o ex-amante e cerrou os punhos à altura da cintura. Jazek se sentia humilhada, ultrajada, nenhum homem, nimrod ou não, a havia negado até aquele momento. Por quê justamente ela tinha que amar justamente aquele que não a deseja mais? Ela tinha dado tudo a ele, conhecimento, habilidade, ensinou-o tudo o que sabia, tudo, para agora ela ser rejeitada. O brutamontes ainda a chamara de inconstante, mal ele sabia o quanto implicaria admitir um amor aos outros. Neste momento ela amaldiçoou Zal’irckas por tê-la feito como ela era. Agora ela teria que renunciar ao único amor de sua vida, para manter sua posição de curandeira e feiticeira ou se submeter à uma nova apreciação da comunidade, pois estaria alterando seu modo de ser. Bem fizera Fênix que calou as críticas à sua pessoa, mantendo sua posição de respeito à força e à custa de muitos ossos quebrados. A mulher era temida, amada e até odiada, pelo mundo todo, mas nunca criticada ou apontada de modo pejorativo. Entretanto, ela era Jazek, curandeira, feiticeira e guerreira indomável, e não Fênix, fria, calculista, maquiavélica, imbatível e invulnerável. Por fim conseguiu falar, mas a voz tremia como um ramo ao vento:
Nirus’oses, se eu aceitar ser o que desejas, tu me amarias?
Jacques quase não acreditou nas palavras, assim como não acreditava no que acontecia com aquela mulher à sua frente, era possível que Jazek o amasse tanto? Entretanto, ele já amava outra, e apesar de ainda sentir muita falta de sua professora e amante, não poderia trair sua esposa. Por que Jazek demorou tanto a se decidir entre ser ela mesma e ser o que mostrava que era? Maldição, se pudesse seguir seus desejos, arrancaria a roupa de Jazek ali mesmo e lhe daria o que ela tanto queria e continuaria amando-a como era antes de ir embora, mas manter uma amante lhe parecia errado, e também perderia o amor de sua atual companheira. Abraçou a mulher por trás e as lágrimas finalmente chegaram aos seus olhos.

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