quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

 — Se fosse apenas por mim eu aceitaria, mas eu não posso mais deixar um ente querido sozinho, não de novo.
Parece-me que o amor não foi feito para nós.
Não. Eu acredito que nós é não somos feitos para o amor. Nós tornamos vítimas do que fizemos de nós mesmos.
Jazek se desvencilhou novamente de Jacques e se dirigiu à porta, girou a maçaneta mas não abriu.
Tens razão, Nirus’oses, não podemos mais acreditar em nós mesmos, já mentimos tanto que não podemos mais dizer a verdade e ser o que gostaríamos de ser. Adeus e seja feliz em sua mentira, eu não posso mais contar esta possibilidade.
Saiu e fechou a porta com força. Lágrimas corriam pelo rosto de Jacques, era possível que ele estivesse mesmo vivendo uma mentira com Joan? Não, o que sentia por ela era verdadeiro e intenso. Voltou a olhar pela janela, por que Joan ainda não retornara? O que as gêmeas estariam fazendo com ela afinal?

Jazek andava rápido pelo corredor, em direção ao seu quarto. Se a máscara permitisse estaria chorando copiosamente naquele momento. Numa das esquinas do velho hotel encostou-se e se deixou escorregar pela parede, ficando de cócoras, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar. Sentou no chão e relaxou o corpo. Não se importava mais se alguém a visse, nem se passasse vergonha ou se fosse expulsa da comunidade nimrod. Não era possível que aquilo lhe tivesse acontecido, não a ela, que já vira homens se arrastarem a vida toda atrás dela, como Stormstone, que a seguia como a um cão e morreu defendendo-a. Nunca tão pouco tempo havia passado de maneira tão lenta. Quarenta e cinco anos deveriam ter parecido apenas dois ou três, mas pareceram séculos até ter uma chance de falar novamente com seu amado, apenas para ter sido rejeitada por ele. Era a maior humilhação que já tivera em seus quase dois mil e novecentos anos de vida.
Súbito escutou passos no corredor, ou melhor, sentiu passos no corredor, pois a pessoa se movia com absoluto silêncio. Em sua cegueira, Jazek percebeu que dez metros à sua direita uma mulher alta, talvez um metro e setenta e cinco, por volta de uns sessenta e seis quilos, cabelos pelos ombros, trazia algo metálico no rosto. Era Fênix, andava devagar e decidida, como sempre. Jazek se levantou e se recompôs, arrumou os cabelos, embora não estivessem despenteados. Maldição, pensou, de todos os cento e doze nimrods, tinha que ser justamente ela a lhe encontrar num estado tão deplorável? Justamente a mais fria e insensível criatura no planeta? Vê-la naquela situação era uma arma de que Fênix com certeza não abriria mão de usar. Apesar do uma representava para outra, ela não se deixaria abalar. A cada passo da mulher seu coração batia mais rápido, e cada passo parecia demorar horas. Fênix chegou até a alguns centímetros de sua colega de máscaras e a encarou, com um olhar que parecia atravessá-la como manteiga, e falou, não naquela voz que costumava provocar calafrios e mal-estar até nos nimrods mais corajosos, mas num fio de voz que conotava até, (quem poderia saber? ), uma tristeza sem par.
Tenho inveja de ti, mulher.
O primeiro desejo de Jazek ao ouvir estas palavras foi o de socar Fênix, mas seria um esforço inútil, ela não estava em condições de lutar naquela hora. Com uma mistura de alívio e espanto, fazendo um esforço sobre-humano para não chorar, perguntou:
Por quê?
Tu estavas disposta a abandonar tudo pelo homem que amava, mesmo tendo que suportar severas represálias, e mesmo sendo rejeitada não perdeste o respeito por ti mesmo, saindo de maneira digna de sua vida. Eu nunca tive a oportunidade de amar tão intensamente alguém e temo que não conseguirei me entregar de tal maneira a uma emoção destas.
Fênix sacou uma de suas espadas com a mão esquerda, e apoiando a ponta no assoalho, se ajoelhou como um cavaleiro medieval.
Eu me curvo em homenagem a ti, Jazek, Feiticeira e guerreira. Mais que meu respeito pelo o que és para mim, tu agora contas com minha lealdade incondicional. - Se levantou e começou a andar em direção à porta no fim do corredor. Jazek estava realmente surpresa, antes de sua companheira sair ela a chamou:
Fênix.
Sim?
Por que justamente tu é quem me falar de sentimentos? Como tu mesma disseste, nunca tiveste nenhum.
Um silêncio mortal se fez sentir no corredor, Jazek parecia poder ouvir a própria respiração e as batidas cardíacas. Fênix fez uma evolução com a lâmina e a guardou, o raspar do aço no couro parecia o som de um tigre urrando. A albina sentiu os cabelos da nuca eriçarem, uma pedra de gelo lhe correu pela espinha e seu estômago contraiu. Fênix falou com uma voz de trovão que ficou ecoando nos ouvidos de Jazek:
Nós sentimos falta apenas daquilo que não temos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário