quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

 — Se fosse apenas por mim eu aceitaria, mas eu não posso mais deixar um ente querido sozinho, não de novo.
Parece-me que o amor não foi feito para nós.
Não. Eu acredito que nós é não somos feitos para o amor. Nós tornamos vítimas do que fizemos de nós mesmos.
Jazek se desvencilhou novamente de Jacques e se dirigiu à porta, girou a maçaneta mas não abriu.
Tens razão, Nirus’oses, não podemos mais acreditar em nós mesmos, já mentimos tanto que não podemos mais dizer a verdade e ser o que gostaríamos de ser. Adeus e seja feliz em sua mentira, eu não posso mais contar esta possibilidade.
Saiu e fechou a porta com força. Lágrimas corriam pelo rosto de Jacques, era possível que ele estivesse mesmo vivendo uma mentira com Joan? Não, o que sentia por ela era verdadeiro e intenso. Voltou a olhar pela janela, por que Joan ainda não retornara? O que as gêmeas estariam fazendo com ela afinal?

Jazek andava rápido pelo corredor, em direção ao seu quarto. Se a máscara permitisse estaria chorando copiosamente naquele momento. Numa das esquinas do velho hotel encostou-se e se deixou escorregar pela parede, ficando de cócoras, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar. Sentou no chão e relaxou o corpo. Não se importava mais se alguém a visse, nem se passasse vergonha ou se fosse expulsa da comunidade nimrod. Não era possível que aquilo lhe tivesse acontecido, não a ela, que já vira homens se arrastarem a vida toda atrás dela, como Stormstone, que a seguia como a um cão e morreu defendendo-a. Nunca tão pouco tempo havia passado de maneira tão lenta. Quarenta e cinco anos deveriam ter parecido apenas dois ou três, mas pareceram séculos até ter uma chance de falar novamente com seu amado, apenas para ter sido rejeitada por ele. Era a maior humilhação que já tivera em seus quase dois mil e novecentos anos de vida.
Súbito escutou passos no corredor, ou melhor, sentiu passos no corredor, pois a pessoa se movia com absoluto silêncio. Em sua cegueira, Jazek percebeu que dez metros à sua direita uma mulher alta, talvez um metro e setenta e cinco, por volta de uns sessenta e seis quilos, cabelos pelos ombros, trazia algo metálico no rosto. Era Fênix, andava devagar e decidida, como sempre. Jazek se levantou e se recompôs, arrumou os cabelos, embora não estivessem despenteados. Maldição, pensou, de todos os cento e doze nimrods, tinha que ser justamente ela a lhe encontrar num estado tão deplorável? Justamente a mais fria e insensível criatura no planeta? Vê-la naquela situação era uma arma de que Fênix com certeza não abriria mão de usar. Apesar do uma representava para outra, ela não se deixaria abalar. A cada passo da mulher seu coração batia mais rápido, e cada passo parecia demorar horas. Fênix chegou até a alguns centímetros de sua colega de máscaras e a encarou, com um olhar que parecia atravessá-la como manteiga, e falou, não naquela voz que costumava provocar calafrios e mal-estar até nos nimrods mais corajosos, mas num fio de voz que conotava até, (quem poderia saber? ), uma tristeza sem par.
Tenho inveja de ti, mulher.
O primeiro desejo de Jazek ao ouvir estas palavras foi o de socar Fênix, mas seria um esforço inútil, ela não estava em condições de lutar naquela hora. Com uma mistura de alívio e espanto, fazendo um esforço sobre-humano para não chorar, perguntou:
Por quê?
Tu estavas disposta a abandonar tudo pelo homem que amava, mesmo tendo que suportar severas represálias, e mesmo sendo rejeitada não perdeste o respeito por ti mesmo, saindo de maneira digna de sua vida. Eu nunca tive a oportunidade de amar tão intensamente alguém e temo que não conseguirei me entregar de tal maneira a uma emoção destas.
Fênix sacou uma de suas espadas com a mão esquerda, e apoiando a ponta no assoalho, se ajoelhou como um cavaleiro medieval.
Eu me curvo em homenagem a ti, Jazek, Feiticeira e guerreira. Mais que meu respeito pelo o que és para mim, tu agora contas com minha lealdade incondicional. - Se levantou e começou a andar em direção à porta no fim do corredor. Jazek estava realmente surpresa, antes de sua companheira sair ela a chamou:
Fênix.
Sim?
Por que justamente tu é quem me falar de sentimentos? Como tu mesma disseste, nunca tiveste nenhum.
Um silêncio mortal se fez sentir no corredor, Jazek parecia poder ouvir a própria respiração e as batidas cardíacas. Fênix fez uma evolução com a lâmina e a guardou, o raspar do aço no couro parecia o som de um tigre urrando. A albina sentiu os cabelos da nuca eriçarem, uma pedra de gelo lhe correu pela espinha e seu estômago contraiu. Fênix falou com uma voz de trovão que ficou ecoando nos ouvidos de Jazek:
Nós sentimos falta apenas daquilo que não temos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Joan se agarrou como pôde à cintura da morena, que em minutos estava a quilômetros do alojamento, ultrapassando carros em movimento como se estivessem parados. A outra moto andava apenas a alguns metros à frente, costurando no transito. O vento parecia um grupo de tambores dentro do tímpano. O rosto ardia e os olhos mal ficavam abertos. As motos fechavam a frente dos carros e alguns perdiam o controle, um chegou a bater numa caminhonete. Depois de passar raspando por um caminhão enorme, a morena diminuiu a marcha, deixando alguns carros passar por ela, Joan percebeu que a outra mulher acompanhou a manobra instantaneamente, então ela gritou:
Você é maluca, Sucuri.
Eu sou Anaconda, em nosso idioma oficial meu nome é Nitza, minha irmã se chama Anitza. Apenas a pronúncia é diferente, para identificar uma ou outra, mas como pode ver isso é apenas redundância.
Vamos ajudar quem se acidentou?
Isto não é necessário. Estão todos vivos. Veja agora nossa dança.
As gêmeas aceleraram as motos e começaram a fazer círculos no asfalto, Joan quase caiu da moto e gritava, pedindo para pararem, mas as duas arrancaram violentamente e ela teve que agarrar com força na morena. Emparelharam-se e sacaram duas espadas, Nitza reduziu a velocidade e quando Anitza estava a uns duzentos metros freou e virou a moto na direção da irmã, as duas pararam e começaram a girar as armas no ar. Anitza acelerou e continuando a girar a espada, pôs a máquina em movimento, ela vinha rapidamente. Com uma fração de segundo de atraso, Nitza fez o mesmo. O coração de Joan disparou, aquelas duas eram malucas demais, e pareciam se dar conta disso, e ter prazer. Ela segurava com toda a força que tinha na cintura da morena, e encolheu a cabeça nas costas da piloto quando a irmã se aproximou. Como dois cavaleiros medievais, elas pareciam se enfrentar em cima de cavalos, uma chuva de faíscas pareceu cair no asfalto quando as lâminas se encontraram. As motos derraparam e giraram violentamente, mão esquerda empunhando a lâmina, mão direita girando o acelerador, Nitza disparou com a moto e sua irmã foi atrás. Os carros que transitavam por ali eram obrigados a desviar das duas e alguns chegaram a bater entre si. Elas começaram a correr novamente entre os carros, passando a milímetros de pará-choques e carrocerias.
Nitza entregou a espada à sua companheira de banco e gritou que ela devia defender-lhe da irmã. Joan segurou a lâmina desajeitadamente e respondeu:
Ela é sua irmã, não lhe faria mal.
Eu sei, mas eu não me referia à minha defesa, ela pode querer seu pescoço desta vez.
Por Deus!
Sim, reze por seu Deus na hora de nossa morte. - Nitza gritou a plenos pulmões e acelerou a moto ainda mais. Joan reparou que os carros ao seu redor pareciam andar em marcha ré.
Anitza avançava por trás, espada apontada para a frente. Joan virou o rosto para e viu apenas um brilho metálico.

Jacques estava perdendo a terceira partida de xadrez para Jazek em menos de duas horas, ele sempre perdera de sua ex-amante e professora, mas nunca numa velocidade tão grande.
Sinto que tu estás fora do jogo, Nirus’oses, estás preocupado com tua amada?
Tu perguntas apenas porque queres escutar de minha boca, Jazek. Mas sim, estou preocupado com ela. Já saíram há mais de sete horas e tenho medo do que aquelas duas serpentes podem estar fazendo com Joan.
Não te preocupes com ela, as gêmeas não vão machucá-la. Afinal, tua esposa é uma de nós, apesar de não conhecer os nossos costumes.
Eu não tive tempo de ensinar nem o nosso idioma a ela.
O gigante se levantou e se apoiou no beiral da janela, suspirou fundo. Jazek o abraçou por trás e o beijou nas costas, sua pele raspava duro na dela.
Tu sentes falta de Joan, e com razão. Ela é muito parecida contigo. - Jazek suspirou e começou a falar com a voz trêmula - Mas há também alguém que sente muitas saudades de seu companheiro, porque há quarenta e cinco anos ele silenciou para ela. Esse nimrod significou tanto para ela que até hoje não procurou outro que pudesse substituí-lo.
Jacques abaixou a cabeça, fechou os olhos. Estava comovido, assistir à queda uma fortaleza como a mulher que o abraçava naquele momento era um fato raro. Ela com certeza sondara a área antes de jogar com ele, seria a destruição de sua posição hierárquica na comunidade nimrod se alguém mais escutasse aquelas palavras, ditas com emoção verdadeira. Ninguém mais acreditaria na imagem de mulher imperturbável transmitida por ela ao longo de centenas de anos. Não seria expulsa da irmandade, mas o crédito entre os nimrods teria que ser galgado degrau a degrau novamente. Jazek cobrava muito de seus alunos e companheiros mas também tinha que dar o exemplo, e este teria que ser imaculado. Até poderia levar quem quisesse para seu leito, mas nunca se envolver emocionalmente. O canadense se virou e abraçou a mulher mascarada, o corpo dela quase desaparecia nos braços dele.
Jazek, tu sabes porque me afastei de todos vós, não apenas de ti. Vós sois tão indiferentes, tão pouco verdadeiros. Tu mesmo não te comporta da mesma maneira em todos os lugares. Eu sei e sinto que me desejas ao teu lado, mas também sei que não podes declarar isto aos outros e que não podes demonstrar teu amor por mim a quem quer que seja. Tu sabes que não concordo com isto e que não conseguirei manter-me frio em relação a ti em frente aos outros.
A albina se afastou do corpo quente e aconchegante do canadense e sentiu uma lufada de vento frio. Ficou de costas para o ex-amante e cerrou os punhos à altura da cintura. Jazek se sentia humilhada, ultrajada, nenhum homem, nimrod ou não, a havia negado até aquele momento. Por quê justamente ela tinha que amar justamente aquele que não a deseja mais? Ela tinha dado tudo a ele, conhecimento, habilidade, ensinou-o tudo o que sabia, tudo, para agora ela ser rejeitada. O brutamontes ainda a chamara de inconstante, mal ele sabia o quanto implicaria admitir um amor aos outros. Neste momento ela amaldiçoou Zal’irckas por tê-la feito como ela era. Agora ela teria que renunciar ao único amor de sua vida, para manter sua posição de curandeira e feiticeira ou se submeter à uma nova apreciação da comunidade, pois estaria alterando seu modo de ser. Bem fizera Fênix que calou as críticas à sua pessoa, mantendo sua posição de respeito à força e à custa de muitos ossos quebrados. A mulher era temida, amada e até odiada, pelo mundo todo, mas nunca criticada ou apontada de modo pejorativo. Entretanto, ela era Jazek, curandeira, feiticeira e guerreira indomável, e não Fênix, fria, calculista, maquiavélica, imbatível e invulnerável. Por fim conseguiu falar, mas a voz tremia como um ramo ao vento:
Nirus’oses, se eu aceitar ser o que desejas, tu me amarias?
Jacques quase não acreditou nas palavras, assim como não acreditava no que acontecia com aquela mulher à sua frente, era possível que Jazek o amasse tanto? Entretanto, ele já amava outra, e apesar de ainda sentir muita falta de sua professora e amante, não poderia trair sua esposa. Por que Jazek demorou tanto a se decidir entre ser ela mesma e ser o que mostrava que era? Maldição, se pudesse seguir seus desejos, arrancaria a roupa de Jazek ali mesmo e lhe daria o que ela tanto queria e continuaria amando-a como era antes de ir embora, mas manter uma amante lhe parecia errado, e também perderia o amor de sua atual companheira. Abraçou a mulher por trás e as lágrimas finalmente chegaram aos seus olhos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Depois de encarar Fênix frente a frente, Joan acreditou em todas as palavras de seu marido. Ela também sentiu um frio na espinha e o estômago revirar quando a mascarada falou. Assim como seu marido considerou todos muito distantes e frios uns com os outros, não simpatizando com ninguém, apesar de saber que todos ali eram seus iguais. Todos ficavam discutindo suas conquistas através dos anos e guerras que venceram, alguns chegavam a discutir quantas vezes teria morrido se não fossem nimrods. As únicas exceções eram Fênix e Jazek, mas as duas mulheres pareciam duas muralhas inexpugnáveis, mantendo entre si uma animada conversa, mas mostrando um desprezo total com os membros mais novos, entendendo-se novos como aqueles que não chegaram à casa dos quinhentos anos. Achando tudo aquilo ridículo demais, Joan se separou do marido o qual estava numa disputa acirrada de força com o filho de N’dilo, que apesar de bem mais magro parecia extremamente forte. Sentou em uma das duas enormes Harley-Davidson que estavam no pátio do hotel abandonado, o qual servia de alojamento para os quase trezentos nimrods presentes.
Ze nîst dzus die noir?1
O que disse?
Na sua frente estavam duas mulheres idênticas, Joan já as tinha visto antes, eram irmãs gêmeas que Jacques apresentou-lhe como Anaconda e Sucuri. Ela riu ao ouvir o apelido das duas, mas ao saber que realmente poderiam ser perigosas como as serpentes que lhes emprestavam os nomes; não achou mais graça. Eram morenas, altas e com uma beleza corporal fora do comum, na verdade as achava mais bonitas que a si própria. Usavam roupas justas de couro escuro. Elas se entreolharam e sorriram, depois a da esquerda deu um passo à frente e respondeu em inglês:
Seu marido não lhe ensinou a nossa linguagem? Que tipo de nimrod ele acha que é? Ninguém pode apresentar um novo membro à nós sem ter ensinado-lhe o idioma. Eu lhe perguntei o que faz sentada nesta moto, já que ela é minha e de minha irmã.
Desculpe, mas achei que não haveria problema. Eu estava cansada de toda esta bagunça sobre nimrods que resolvi me encostar no primeiro lugar confortável que vi. Mas já estou indo embora, não se preocupe.
Não, não se incomode. Não devemos ser tão herméticos com os recém-chegados, afinal, se você nem teve tempo de aprender a falar conosco é natural que esteja estranhando nossos costumes. Infelizmente não há como explicá-los, apenas se acostumar com eles.
Como qualquer outra sociedade, não é?
Sim.- Falou a da direita. - A diferença é que você vai ter todo o tempo do mundo para conviver conosco. Pode ser divertido, ou pode ser um inferno. Seu marido, por exemplo, antipatiza conosco e resolveu viver sozinho, ou melhor, acompanhado. - Sentou-se na outra moto. - Vamos dar uma volta?
Não sei pilotar.
Eu piloto.
Antes que Joan pudesse dizer alguma coisa a morena já a tinha colocado na garupa e montado na moto, em segundos já estavam saindo do pátio.
Agarre-se bem em mim, estas belezas voam.
Esqueci de perguntar quem é você.
Isso é indiferente, já que Anaconda e Sucuri são dois nomes para a mesma serpente. Eu e minha irmã somos uma só pessoa.
Perto dali, Jacques conseguia derrubar, a certo custo, o filho de N’dilo. Ao ver que sua mulher saía com as gêmeas, falou com certo medo na voz:
Maldição, tudo menos isso.
1 “O que fazes sentada aí?” em português.



nimrods, mais um capítulo

Jazek estava orgulhosa de seu aluno e, por enquanto, amante. Desde que o chamara do Canadá para Nova Iorque, ele se mostrara digno de ser um da irmandade nimrod. Ela ainda achava o nome infantil e ridículo, mas era cada vez mais aceito pelos outros membros, perto de trezentos agora. Já haviam sido muito mais, mas disputas idiotas de poder entre os mais novos estavam aos poucos destruindo a congregação. Era ultrajante ver criaturas iguais entre si lutarem para mostrar que possuíam mais terras, ouro ou idade. A sociedade nimrod estava tomando o mesmo caminho que a humana, caminho que ela mostrara a Nirus’oses, o Urso, quando o chamou para si. Em vez de cooperarem entre si para que fossem todos prósperos, alguns competiam entre si com o objetivo de autodepreciação.
É claro que se algum membro a desafiasse numa luta, ela aceitaria, mas apenas com caráter de treino ou para testar o aluno de algum colega. Estes combates eram muito comuns nos encontros. Nunca como uma disputa por alguma posse. Fênix, ela sabia, aceitaria este tipo de luta, mas ninguém ousava sequer se aproximar das duas mulheres, que alguns imaginavam serem dois demônios.
Jacques foi aceito na irmandade já falando fluentemente o “nimrodês”, como ele o apelidou e, como todos foi medido, pesado, registrado e recebeu um anel com seu nome marcado.
Jacques Frederique Russel, canadense, nascido em outubro de 1793, altura: dois metros e doze centímetros, peso: cento e vinte e oito quilos, cabelos castanhos, olhos idem. Este homem se parece comigo.
Acredito que sim, pois és tu que estas descrito nessa ficha. - Comentou Jazek
Duas coisas sempre me perturbaram nestes dois anos, e gostaria que me explicasse.
Jazek, sabendo de antemão o que seu aluno perguntaria, sentou-se na larga cama e desfez a trança do cabelo, tirou o casaco e o jogou no chão. Deitou-se e perguntou:
O que desejas saber, Urso?
Primeiro, como você enxerga com este metal em frente aos olhos? - Jacques já falava o zal linr com grande eloqüência, e como tinha uma bela voz, Jazek sentia prazer em ouvi-lo falar.
Eu fiz um acordo com Zal’irckas, há muito tempo atrás. Havia apenas cinco de nós naquele tempo. Eu, N’dilo, Fênix, Cit’anis e Ádila. Tu os conheceste hoje, em tua apresentação. Pois bem, Zal’irckas apareceu para mim e me fez uma proposta de imortalidade. Não a nossa semi-imortalidade, ainda sujeita às condições da morte, ele me propôs uma vida realmente sem fim. A um certo preço: a minha visão e meu rosto. De que adiantaria ser eternamente cega, comentei; Zal’irckas afirmou que minha cegueira era necessária para que minha verdadeira visão fosse libertada.
E que visão é essa?
Eu não conseguiria explicar, tu terias que ser cego para entender.
Podes tentar, não pode?
Muito bem, eu sinto as coisas ao meu redor, em todas as direções. Eu percebo o seu formato, sua cor, inclusive sua densidade e temperatura. Não necessito vê-las ou tocá-las para saber como agir com elas.
Isto me parece mágica, mas eu acredito. Foi assim que me jogaste no chão com tamanha facilidade quando nos conhecemos?
Isto já é parte de sua segunda pergunta, acredito. Eu também obtive uma força muito grande, fora até dos padrões nimrods. Zal’irckas com certeza me pregou uma peça no dia em que me deu a máscara.
Este Zal’irckas de quem tu falas tanto, ainda está vivo? Gostaria de conhecê-lo.
Ele não é uma pessoa a ser apresentada, Nirus’oses, se tu fores digno, ele aparecerá para ti.
Muito bem, então não falemos mais nisto. Vamos comemorar a minha ascensão à categoria nimrod.
Se colocou por cima dela e a beijou nos lábios, pescoço, seios. A pele era macia e firme, a dele dura como rocha. Depois, ela se deitou sobre o canadense, que a envolveu com um dos braços.
Não tens receio de contar-me estas coisas? Teus dons nimrods e os acordos que fizeste.
Mesmo que tu queiras espalhar o pouco que contei sobre mim, minha magia não o deixará abrir a boca. Mas quem lhe disse que te contei meus dons nimrods?

Jazek nunca lhe contara seu dom nimrod, e Jacques era tomado por pensamentos neste sentido, às vezes. Era possível ainda que ela tivesse mais alguma habilidade? Pelo que se lembrava Jazek era feiticeira, curandeira, guerreira, imortal, especialista em armas e ótima amante. Qual seria seu “dom especial”? Jacques acreditava que seria sua força, muito acima do que seria normal num corpo aparentemente tão delicado. Apesar do que ela lhe disse em sua última noite juntos na Itália, que só poderia usar seu dom apenas uma vez, ele ainda achava que estava sendo enganado pela sua ex-professora. Entretanto, se esta afirmação fosse verdade, Jazek deveria conter algo extremamente poderoso dentro de si, algo tão extraordinário que não pudesse ser revelado. Mas o que? O que poderia causar tanta cautela de um ser tão forte quanto Jazek, que parecia ter encarado o próprio inferno nos seus quase três milênios de vida? E quem era Zal’irckas que ela mencionava tanto? Ele seria um nimrod também? Então por que não comparecia aos encontros a cada quinze anos?
Cansado de fazer estas e muitas outras perguntas à sua mestra, sem receber respostas adequadas, Jacques Frederique Russel, o Grande Urso, decidiu deixá-la, à muito custo, e voltar à morar no norte do Canadá. Não que estivesse irritado, Jacques nunca guardava rancor de ninguém, mas se cansara de Jazek e dos mistérios que ela encerrava dentro de si. O canadense gostava muito mais de falar abertamente sobre tudo. Como a maior parte de seus colegas nimrods parecia gostar de fazer exatamente o contrário, resolveu entrar em contato com eles apenas nos encontros, organizados por N’dilo a cada quinze anos. Quando recebia alguma carta ou telefonema, apenas respondia-os sem muito interesse em encontrá-los pessoalmente, se algum aparecesse em sua casa, recebia-o com afetuosidade, mas nunca retribuía a visita. Foi assim até fins de 1964 quando, numa viagem pelo interior do país, descobriu uma linda garota de longos cabelos loiros e olhos verdes que pareciam arder no rosto. Jacques a identificou imediatamente como uma nimrod e se apaixonou perdidamente por ela. A reciproca foi idêntica e meio ano depois estavam casados. Joan se recusou a princípio, dada a imensa diferença entre os dois, mas o sentimento prevaleceu e se tornou uma mulher dedicada. Como sua família era conservadora, só ficou realmente sozinha com seu amado na noite de núpcias e sentiu-se quase rasgar-se ao meio durante as investidas de seu esposo que tentou, mas não conseguiu ser delicado ao deflorar sua noiva.
Por Deus, Jacques, nunca imaginei que fosse assim. Eu não vou conseguir andar por dias.
Eu sinto muito, sei que eu não devia ter agido assim, mas não consegui me controlar. Perdoe-me.
Não estou lhe culpando. Eu acho que devia ter me preparado, afinal, um homem do seu tamanho teria que ter um pênis fora do comum também.
Ainda acho que deveria ter ido mais devagar com você. Eu nunca tinha feito amor com uma virgem antes, e acho que fiquei nervoso.
Acho que vamos ter que nos acostumar.
E se acostumaram, até rápido demais, pensou Jacques. No dia seguinte voltaram a se amar e ela não sentiu mais dor nenhuma e até pediu uma segunda dose. Ele percebeu que a mulher se curava rápido demais até para uma nimrod e era ágil como uma gata. Conseguia se movimentar melhor que ele dentro da floresta e tinha um ótimo senso de direção. Os animais se aproximavam dela mas não a incomodavam. Até os cães mais ferozes se acalmavam e deitavam aos seus pés. Tinha ótima pontaria e seria uma excelente caçadora se gostasse de caça. Tolerava a atividade do marido porque sabia que era algo que estava no seu sangue, mas não a aprovava.
Jacques ainda não tinha contado a verdade sobre si a ela por medo de que sua esposa acreditasse que ele enlouquecera. Quando recebeu o convite para o próximo encontro, a ser realizado em agosto de 1965, na Austrália, foi obrigado a lhe falar.
Dois mil e oitocentos anos? Espera que eu acredite nisso? você está brincando? - Joan estava de pé na porta do banheiro, com as mãos na cintura, com uma expressão de surpresa estampada no rosto. - E você tem três mil provavelmente.
Não, Joan, eu tenho apenas cento e setenta e dois anos de idade.
Joan soltou uma gargalhada e se deixou sentar no chão. Cobriu o rosto com a mão e, ainda rindo, comentou.
Essa foi boa, e eu pensando que você falava a sério. Você não tem outra coisa para fazer, não?
Jacques, que estava sentado na cama se levantou e tentou, sem sucesso, impor o tom mórbido na voz que Jazek se mostrou mestre em utilizar:
Estou falando sério, Joan, e dentro de dois meses iremos para a Austrália, você acreditando ou não. É um compromisso que assumi antes de você nascer, e não vou desonrá-lo agora. Jazek me mataria.
Essa é a mulher de dois mil e tantos anos? O que mais ela tem de especial?
Jacques contou tudo o que sabia de Jazek e o que aprendeu com ela. Contou sobre os outros nimrods, dos encontros e dos espetáculos que davam. Falou dos sonhos que tivera antes de se encontrar com os outros nimrods e como conseguiu diferenciá-la como uma nimrod.
Quer dizer que eu sou imortal também? Isto é ridículo.
O gigante sentou-se em frente à esposa e inclinou-se, acariciou-lhe o cabelo e a beijou na testa. depois olhou-a bem dentro dos olhos e falou sério:
Já percebeu quantas vezes o seu hímen cresceu depois de ter sido rompido por mim? E que nunca ficou doente, nem mesmo uma gripe? Você não teve espinhas e até agora não ficou menstruada, o único sangramento que teve foi por causa dos seguidos rompimentos de seu hímen. Quando se corta, em poucos minutos o ferimento desaparece, e a cicatriz leva no máximo uma semana para desaparecer também. Além de que basta você pedir que todo mundo ao seu redor faz o que pediu. Acha que todo mundo é como você?
Joan ficou séria, pensando no que o marido lhe disse. Tinha notado tudo aquilo mas nunca dera importância a tais coisas, afinal fora assim desde o nascimento e achava que era natural. Mas colocado assim por outra pessoa, tudo mudava de figura. Era realmente possível alguém viver indefinidamente? Mas por quê? E como ninguém descobrira nada até agora?
Eu não sei por quê somos tão diferentes, mesmo entre os próprios nimrods, mas nós não somos feitos para julgar o destino. E quanto ao fato de ninguém saber de nossa existência... bem, algumas pessoas têm conhecimentos sobre nós. Elas sabem quem somos e o que fazemos e onde estamos. Elas nos mantêm no anonimato e nos dão cobertura em troca de favores que só nós podemos fazer.
E que tipo de favores são esses?
Dinheiro, intimidação, trabalhos sujos, contrabando. Nós mantemos certas famílias nos altos círculos da sociedade e elas nos mantêm onde nós queremos.
Fora o nosso poder de persuasão, não é?
Sim, nós temos a habilidade de fazer as pessoas acreditarem em nós.
Mas se nós trabalhamos para estas famílias, estamos presos a elas, somos dependentes dos mortais.
Sim e não. Precisamos deles para manter a nossa tranqüilidade, mas eles precisam muito mais de nós, porque se nós nos ausentarmos eles caem como um castelo de cartas. Já fizemos isto antes para mostrar a nossa força.
E você já matou alguém neste processo?
Jacques se levantou e deu algumas voltas no quarto, ficou olhando pela janela, apoiou as mãos no beiral. Sua voz se tornou grave e triste.
Infelizmente.
Joan se levantou e abraçou o marido, parecia estar chorando.
Não sei se poderei conviver com um assassino.
Você acredita que eu sou um assassino?
Não sei em que acreditar, tudo o que você disse parece mágico demais, e as provas mostradas são tão débeis...
Eu sei, meu amor, eu sei, mas no encontro você vai encontrar provas melhores.
É bom mesmo. Senão eu não poderei mais confiar em você.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Depois de encarar Fênix frente a frente, Joan acreditou em todas as palavras de seu marido. Ela também sentiu um frio na espinha e o estômago revirar quando a mascarada falou. Assim como seu marido considerou todos muito distantes e frios uns com os outros, não simpatizando com ninguém, apesar de saber que todos ali eram seus iguais. Todos ficavam discutindo suas conquistas através dos anos e guerras que venceram, alguns chegavam a discutir quantas vezes teria morrido se não fossem nimrods. As únicas exceções eram Fênix e Jazek, mas as duas mulheres pareciam duas muralhas inexpugnáveis, mantendo entre si uma animada conversa, mas mostrando um desprezo total com os membros mais novos, entendendo-se novos como aqueles que não chegaram à casa dos quinhentos anos. Achando tudo aquilo ridículo demais, Joan se separou do marido o qual estava numa disputa acirrada de força com o filho de N’dilo, que apesar de bem mais magro parecia extremamente forte. Sentou em uma das duas enormes Harley-Davidson que estavam no pátio do hotel abandonado, o qual servia de alojamento para os quase trezentos nimrods presentes.
Ze nîst dzus die noir?1
O que disse?
Na sua frente estavam duas mulheres idênticas, Joan já as tinha visto antes, eram irmãs gêmeas que Jacques apresentou-lhe como Anaconda e Sucuri. Ela riu ao ouvir o apelido das duas, mas ao saber que realmente poderiam ser perigosas como as serpentes que lhes emprestavam os nomes; não achou mais graça. Eram morenas, altas e com uma beleza corporal fora do comum, na verdade as achava mais bonitas que a si própria. Usavam roupas justas de couro escuro. Elas se entreolharam e sorriram, depois a da esquerda deu um passo à frente e respondeu em inglês:
Seu marido não lhe ensinou a nossa linguagem? Que tipo de nimrod ele acha que é? Ninguém pode apresentar um novo membro à nós sem ter ensinado-lhe o idioma. Eu lhe perguntei o que faz sentada nesta moto, já que ela é minha e de minha irmã.
Desculpe, mas achei que não haveria problema. Eu estava cansada de toda esta bagunça sobre nimrods que resolvi me encostar no primeiro lugar confortável que vi. Mas já estou indo embora, não se preocupe.
Não, não se incomode. Não devemos ser tão herméticos com os recém-chegados, afinal, se você nem teve tempo de aprender a falar conosco é natural que esteja estranhando nossos costumes. Infelizmente não há como explicá-los, apenas se acostumar com eles.
Como qualquer outra sociedade, não é?
Sim.- Falou a da direita. - A diferença é que você vai ter todo o tempo do mundo para conviver conosco. Pode ser divertido, ou pode ser um inferno. Seu marido, por exemplo, antipatiza conosco e resolveu viver sozinho, ou melhor, acompanhado. - Sentou-se na outra moto. - Vamos dar uma volta?
Não sei pilotar.
Eu piloto.
Antes que Joan pudesse dizer alguma coisa a morena já a tinha colocado na garupa e montado na moto, em segundos já estavam saindo do pátio.
Agarre-se bem em mim, estas belezas voam.
Esqueci de perguntar quem é você.
Isso é indiferente, já que Anaconda e Sucuri são dois nomes para a mesma serpente. Eu e minha irmã somos uma só pessoa.
Perto dali, Jacques conseguia derrubar, a certo custo, o filho de N’dilo. Ao ver que sua mulher saía com as gêmeas, falou com certo medo na voz:
Maldição, tudo menos isso.
1 “O que fazes sentada aí?” em português.



nimrods, mais um capítulo

Jazek estava orgulhosa de seu aluno e, por enquanto, amante. Desde que o chamara do Canadá para Nova Iorque, ele se mostrara digno de ser um da irmandade nimrod. Ela ainda achava o nome infantil e ridículo, mas era cada vez mais aceito pelos outros membros, perto de trezentos agora. Já haviam sido muito mais, mas disputas idiotas de poder entre os mais novos estavam aos poucos destruindo a congregação. Era ultrajante ver criaturas iguais entre si lutarem para mostrar que possuíam mais terras, ouro ou idade. A sociedade nimrod estava tomando o mesmo caminho que a humana, caminho que ela mostrara a Nirus’oses, o Urso, quando o chamou para si. Em vez de cooperarem entre si para que fossem todos prósperos, alguns competiam entre si com o objetivo de autodepreciação.
É claro que se algum membro a desafiasse numa luta, ela aceitaria, mas apenas com caráter de treino ou para testar o aluno de algum colega. Estes combates eram muito comuns nos encontros. Nunca como uma disputa por alguma posse. Fênix, ela sabia, aceitaria este tipo de luta, mas ninguém ousava sequer se aproximar das duas mulheres, que alguns imaginavam serem dois demônios.
Jacques foi aceito na irmandade já falando fluentemente o “nimrodês”, como ele o apelidou e, como todos foi medido, pesado, registrado e recebeu um anel com seu nome marcado.
Jacques Frederique Russel, canadense, nascido em outubro de 1793, altura: dois metros e doze centímetros, peso: cento e vinte e oito quilos, cabelos castanhos, olhos idem. Este homem se parece comigo.
Acredito que sim, pois és tu que estas descrito nessa ficha. - Comentou Jazek
Duas coisas sempre me perturbaram nestes dois anos, e gostaria que me explicasse.
Jazek, sabendo de antemão o que seu aluno perguntaria, sentou-se na larga cama e desfez a trança do cabelo, tirou o casaco e o jogou no chão. Deitou-se e perguntou:
O que desejas saber, Urso?
Primeiro, como você enxerga com este metal em frente aos olhos? - Jacques já falava o zal linr com grande eloqüência, e como tinha uma bela voz, Jazek sentia prazer em ouvi-lo falar.
Eu fiz um acordo com Zal’irckas, há muito tempo atrás. Havia apenas cinco de nós naquele tempo. Eu, N’dilo, Fênix, Cit’anis e Ádila. Tu os conheceste hoje, em tua apresentação. Pois bem, Zal’irckas apareceu para mim e me fez uma proposta de imortalidade. Não a nossa semi-imortalidade, ainda sujeita às condições da morte, ele me propôs uma vida realmente sem fim. A um certo preço: a minha visão e meu rosto. De que adiantaria ser eternamente cega, comentei; Zal’irckas afirmou que minha cegueira era necessária para que minha verdadeira visão fosse libertada.
E que visão é essa?
Eu não conseguiria explicar, tu terias que ser cego para entender.
Podes tentar, não pode?
Muito bem, eu sinto as coisas ao meu redor, em todas as direções. Eu percebo o seu formato, sua cor, inclusive sua densidade e temperatura. Não necessito vê-las ou tocá-las para saber como agir com elas.
Isto me parece mágica, mas eu acredito. Foi assim que me jogaste no chão com tamanha facilidade quando nos conhecemos?
Isto já é parte de sua segunda pergunta, acredito. Eu também obtive uma força muito grande, fora até dos padrões nimrods. Zal’irckas com certeza me pregou uma peça no dia em que me deu a máscara.
Este Zal’irckas de quem tu falas tanto, ainda está vivo? Gostaria de conhecê-lo.
Ele não é uma pessoa a ser apresentada, Nirus’oses, se tu fores digno, ele aparecerá para ti.
Muito bem, então não falemos mais nisto. Vamos comemorar a minha ascensão à categoria nimrod.
Se colocou por cima dela e a beijou nos lábios, pescoço, seios. A pele era macia e firme, a dele dura como rocha. Depois, ela se deitou sobre o canadense, que a envolveu com um dos braços.
Não tens receio de contar-me estas coisas? Teus dons nimrods e os acordos que fizeste.
Mesmo que tu queiras espalhar o pouco que contei sobre mim, minha magia não o deixará abrir a boca. Mas quem lhe disse que te contei meus dons nimrods?

Jazek nunca lhe contara seu dom nimrod, e Jacques era tomado por pensamentos neste sentido, às vezes. Era possível ainda que ela tivesse mais alguma habilidade? Pelo que se lembrava Jazek era feiticeira, curandeira, guerreira, imortal, especialista em armas e ótima amante. Qual seria seu “dom especial”? Jacques acreditava que seria sua força, muito acima do que seria normal num corpo aparentemente tão delicado. Apesar do que ela lhe disse em sua última noite juntos na Itália, que só poderia usar seu dom apenas uma vez, ele ainda achava que estava sendo enganado pela sua ex-professora. Entretanto, se esta afirmação fosse verdade, Jazek deveria conter algo extremamente poderoso dentro de si, algo tão extraordinário que não pudesse ser revelado. Mas o que? O que poderia causar tanta cautela de um ser tão forte quanto Jazek, que parecia ter encarado o próprio inferno nos seus quase três milênios de vida? E quem era Zal’irckas que ela mencionava tanto? Ele seria um nimrod também? Então por que não comparecia aos encontros a cada quinze anos?
Cansado de fazer estas e muitas outras perguntas à sua mestra, sem receber respostas adequadas, Jacques Frederique Russel, o Grande Urso, decidiu deixá-la, à muito custo, e voltar à morar no norte do Canadá. Não que estivesse irritado, Jacques nunca guardava rancor de ninguém, mas se cansara de Jazek e dos mistérios que ela encerrava dentro de si. O canadense gostava muito mais de falar abertamente sobre tudo. Como a maior parte de seus colegas nimrods parecia gostar de fazer exatamente o contrário, resolveu entrar em contato com eles apenas nos encontros, organizados por N’dilo a cada quinze anos. Quando recebia alguma carta ou telefonema, apenas respondia-os sem muito interesse em encontrá-los pessoalmente, se algum aparecesse em sua casa, recebia-o com afetuosidade, mas nunca retribuía a visita. Foi assim até fins de 1964 quando, numa viagem pelo interior do país, descobriu uma linda garota de longos cabelos loiros e olhos verdes que pareciam arder no rosto. Jacques a identificou imediatamente como uma nimrod e se apaixonou perdidamente por ela. A reciproca foi idêntica e meio ano depois estavam casados. Joan se recusou a princípio, dada a imensa diferença entre os dois, mas o sentimento prevaleceu e se tornou uma mulher dedicada. Como sua família era conservadora, só ficou realmente sozinha com seu amado na noite de núpcias e sentiu-se quase rasgar-se ao meio durante as investidas de seu esposo que tentou, mas não conseguiu ser delicado ao deflorar sua noiva.
Por Deus, Jacques, nunca imaginei que fosse assim. Eu não vou conseguir andar por dias.
Eu sinto muito, sei que eu não devia ter agido assim, mas não consegui me controlar. Perdoe-me.
Não estou lhe culpando. Eu acho que devia ter me preparado, afinal, um homem do seu tamanho teria que ter um pênis fora do comum também.
Ainda acho que deveria ter ido mais devagar com você. Eu nunca tinha feito amor com uma virgem antes, e acho que fiquei nervoso.
Acho que vamos ter que nos acostumar.
E se acostumaram, até rápido demais, pensou Jacques. No dia seguinte voltaram a se amar e ela não sentiu mais dor nenhuma e até pediu uma segunda dose. Ele percebeu que a mulher se curava rápido demais até para uma nimrod e era ágil como uma gata. Conseguia se movimentar melhor que ele dentro da floresta e tinha um ótimo senso de direção. Os animais se aproximavam dela mas não a incomodavam. Até os cães mais ferozes se acalmavam e deitavam aos seus pés. Tinha ótima pontaria e seria uma excelente caçadora se gostasse de caça. Tolerava a atividade do marido porque sabia que era algo que estava no seu sangue, mas não a aprovava.
Jacques ainda não tinha contado a verdade sobre si a ela por medo de que sua esposa acreditasse que ele enlouquecera. Quando recebeu o convite para o próximo encontro, a ser realizado em agosto de 1965, na Austrália, foi obrigado a lhe falar.
Dois mil e oitocentos anos? Espera que eu acredite nisso? você está brincando? - Joan estava de pé na porta do banheiro, com as mãos na cintura, com uma expressão de surpresa estampada no rosto. - E você tem três mil provavelmente.
Não, Joan, eu tenho apenas cento e setenta e dois anos de idade.
Joan soltou uma gargalhada e se deixou sentar no chão. Cobriu o rosto com a mão e, ainda rindo, comentou.
Essa foi boa, e eu pensando que você falava a sério. Você não tem outra coisa para fazer, não?
Jacques, que estava sentado na cama se levantou e tentou, sem sucesso, impor o tom mórbido na voz que Jazek se mostrou mestre em utilizar:
Estou falando sério, Joan, e dentro de dois meses iremos para a Austrália, você acreditando ou não. É um compromisso que assumi antes de você nascer, e não vou desonrá-lo agora. Jazek me mataria.
Essa é a mulher de dois mil e tantos anos? O que mais ela tem de especial?
Jacques contou tudo o que sabia de Jazek e o que aprendeu com ela. Contou sobre os outros nimrods, dos encontros e dos espetáculos que davam. Falou dos sonhos que tivera antes de se encontrar com os outros nimrods e como conseguiu diferenciá-la como uma nimrod.
Quer dizer que eu sou imortal também? Isto é ridículo.
O gigante sentou-se em frente à esposa e inclinou-se, acariciou-lhe o cabelo e a beijou na testa. depois olhou-a bem dentro dos olhos e falou sério:
Já percebeu quantas vezes o seu hímen cresceu depois de ter sido rompido por mim? E que nunca ficou doente, nem mesmo uma gripe? Você não teve espinhas e até agora não ficou menstruada, o único sangramento que teve foi por causa dos seguidos rompimentos de seu hímen. Quando se corta, em poucos minutos o ferimento desaparece, e a cicatriz leva no máximo uma semana para desaparecer também. Além de que basta você pedir que todo mundo ao seu redor faz o que pediu. Acha que todo mundo é como você?
Joan ficou séria, pensando no que o marido lhe disse. Tinha notado tudo aquilo mas nunca dera importância a tais coisas, afinal fora assim desde o nascimento e achava que era natural. Mas colocado assim por outra pessoa, tudo mudava de figura. Era realmente possível alguém viver indefinidamente? Mas por quê? E como ninguém descobrira nada até agora?
Eu não sei por quê somos tão diferentes, mesmo entre os próprios nimrods, mas nós não somos feitos para julgar o destino. E quanto ao fato de ninguém saber de nossa existência... bem, algumas pessoas têm conhecimentos sobre nós. Elas sabem quem somos e o que fazemos e onde estamos. Elas nos mantêm no anonimato e nos dão cobertura em troca de favores que só nós podemos fazer.
E que tipo de favores são esses?
Dinheiro, intimidação, trabalhos sujos, contrabando. Nós mantemos certas famílias nos altos círculos da sociedade e elas nos mantêm onde nós queremos.
Fora o nosso poder de persuasão, não é?
Sim, nós temos a habilidade de fazer as pessoas acreditarem em nós.
Mas se nós trabalhamos para estas famílias, estamos presos a elas, somos dependentes dos mortais.
Sim e não. Precisamos deles para manter a nossa tranqüilidade, mas eles precisam muito mais de nós, porque se nós nos ausentarmos eles caem como um castelo de cartas. Já fizemos isto antes para mostrar a nossa força.
E você já matou alguém neste processo?
Jacques se levantou e deu algumas voltas no quarto, ficou olhando pela janela, apoiou as mãos no beiral. Sua voz se tornou grave e triste.
Infelizmente.
Joan se levantou e abraçou o marido, parecia estar chorando.
Não sei se poderei conviver com um assassino.
Você acredita que eu sou um assassino?
Não sei em que acreditar, tudo o que você disse parece mágico demais, e as provas mostradas são tão débeis...
Eu sei, meu amor, eu sei, mas no encontro você vai encontrar provas melhores.
É bom mesmo. Senão eu não poderei mais confiar em você.

domingo, 8 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

 — O DEUS-FERA DEVE MORRER.
NÃO! ISSO É PROIBIDO! ELE TEM O PROGRAMA MESTRE. SEM ELE A MANADA NÃO PROCRIA.... SERÁ O FIM DOS RODAMAMUTES.
OUTRO LÍDER TOMARÁ SEU LUGAR.
MAS NEM MESMO VOCÊ PODE MATAR O DEUS-FERA.
ELE SERÁ FORTE... MAS EU SEREI MAIS FORTE. ELE SERÁ VIOLENTO... MAS EU SEREI MAIS VIOLENTO! COMPARADO A MIM, ELE NÃO SERÁ NADA!

Trecho de um diálogo de A Era Metalzóica,
Graphic Novel de Pat Mills e Kevin O’Nell

Capítulo Seis
O Urso da Montanha

Jacques Frederique Russel nasceu e se criou nas florestas de pinheiros do Canadá. Sua principal fonte de renda era a caça de renas e sua principal diversão era pescar e atormentar as garotas das cidades onde passava em sua vida de nômade. Às vezes, quando a caça ficava escassa, Jacques servia de guia para turistas ou pesquisadores. Na virada do século sentiu-se atraído na direção de Nova Iorque. Quase todas as noites sonhava que lhe aconteceria algo inacreditável naquela cidade, algo que mudaria sua vida. Alguma espécie de revelação ou coisa parecida. Roubou uma carroça com uma dupla de cavalos e se dirigiu à estrada de ferro mais próxima, tomou alguns trens errados, mas finalmente conseguiu chegar em Nova Iorque em janeiro de 1903. Com o dinheiro da venda dos cavalos e da carroça comprou umas poucas peças de roupa e um relógio velho. Pelo menos estarei razoavelmente vestido para o meu destino, pensava, embora não tenha sido fácil encontrar um alfaiate que costurasse roupas grandes o suficiente para si. Estava usando apenas camisa e calça, enquanto quase todos que estavam à sua volta usavam pesados casacos, já que aquele seria o mês mais frio do ano. Jacques já havia notado isto em sua juventude, mas nunca se preocupou com o fato, assim como não se preocupava com sua idade, que segundo as suas contas já estaria próxima dos cento e dez anos. Mesmo assim aparentava no máximo trinta ou trinta e cinco. Quando comentava este assunto com outros, a maioria não acreditava, e nômade como era, não havia como provar. Mas Jacques não se importava com isso, desde que houvesse boas caçadas e um ou outro maluco a fim de se aventurar país adentro, não havia problemas.
O único problema surgido em sua vida era aquele sonho , onde uma mulher mascarada lhe dizia coisas estranhas, como poder infinito, imortalidade, magia. E sempre em Nova Iorque, Jacques não via a cidade em seu sonho, apenas sabia que estava naquela cidade. Às vezes era informado disso pela mulher. Ele sentia que só se livraria dos sonhos se fosse até a cidade.
Mr. Russel, Mr. Russel. Por aqui. - Gritou um rapaz franzino assim que Jacques pisou no chão da plataforma de trens. - Meu nome é John Stormstone, estávamos esperando pelo senhor. Venha comigo.
O rapaz se virou e ia dar o primeiro passo quando Jacques o segurou. A mão praticamente ocultou o ombro do rapaz, que era pelo menos meio metro mais baixo que o canadense, como quase todo mundo que passava por ali.
Espere aí, garoto. Por quê eu deveria acompanhar você? Nem sei o que quer comigo. E como sabe quem eu sou?
O rapaz não se intimidou com o tamanho de seu interlocutor e respondeu num tom de superioridade:
Não está interessado em saber do que se tratam seus sonhos? Quem acha que o trouxe para cá?
Você sabe dos meus sonhos? - Espantou-se o gigantesco homem, mas logo retornou ao seu ar despreocupado: Muito bem, garoto, eu vou lhe acompanhar até quem me chama.
A plataforma estava repleta de pessoas naquele dia e Jacques até que se divertia vendo como Stormstone tinha que desviar de todos, embora com aquele corpo magro ele facilmente passaria num buraco de agulha. O canadense acompanhava-o a um ou dois metros atrás, e conseguia andar facilmente, já que as pessoas simplesmente saíam de seu caminho. Talvez elas tivessem medo de esbarrar num corpo tão grande, ou lhe davam passagem por respeito à sua força. As moças e senhoras o olhavam com admiração, e Jacques lhes lançava um sorriso ou uma piscadela, sabendo que elas se envergonhariam. Sabia que não era realmente bonito, mas talvez se fizesse a barba e cortasse o cabelo, arrumasse boas roupas e usasse de delicadeza; talvez fosse então um pouco atraente.
Jacques e Stormstone saíram da plataforma e entraram numa carroça, que rangeu quando o canadense subiu. Percorreram diversas ruas da cidade, passando pelos bairros pobres, onde o cheiro de urina e fezes de cavalo se misturavam às humanas, moscas entravam pelas janelas do carro.
Estes são dejetos da sociedade. - Comentou Stormstone. - Pessoas que subsistem de maneira indigna, às vezes inumana. Eu gostaria de poder matar todos, mas além de inútil seria nojento e trabalhoso demais.
Se pudesse, você mataria a todos, realmente?
Claro que sim, são todos uns inúteis.
Jacques ficou em silêncio, observando o quadro triste que se descortinava à sua frente. Mulheres e crianças mendigavam pela rua mostrando chagas abertas, alguns se atiravam na carroça, pedindo pão ou uma moeda, e eram afastadas a chicotadas pelo cocheiro. Bêbados cambaleavam ou dormiam em escadas, no chão ou encostados em postes. Algumas fogueiras conseguidas à custa de casas esquentavam uns pobres diabos.
Temos mesmo que passar por aqui? É degradante.
Tenho ordens de lhe mostrar esta parte da cidade para lhe mostrar no que o ser humano está se transformando.
Meia hora depois Jacques começou a notar ruas e casas mais bem cuidadas e menos gente nas ruas. Notadamente as condições sociais da população era muito melhor do que o visto anteriormente. Logo o cocheiro guiava o carro por ruas arborizadas e cobertas de neve branca e mansões enormes e confortáveis. A carroça guinou na estrada e passou pelo portão de entrada de uma das casas mais elegantes da região. Pararam logo depois do portão e Stormstone desceu, seguido pelo canadense.
Senhor Stormstone, a quem você responde? Quem é seu chefe?
Fui encarregado de alguns serviços nesta região já há alguns anos por uma mulher muito interessante que....
Ora, garoto! Você não me parece do tipo que aceita ordens de uma mulher, não tente me enganar. - Jacques deu um pequeno tapa nas costas do rapaz, mas a força foi tanta que este quase caiu. Stormstone puxou de uma faca e vociferou:
Não encoste em mim, animal nojento, ou mato-o!
O canadense primeiro pareceu ficar confuso, mas soltou uma sonora gargalhada que pareceu empurrar o rapaz mais para longe.
Não gaste a saliva à toa, garoto! Algumas mulheres canadenses me puseram mais medo só com as unhas do que você com esta agulha! Já. matei ursos com estas mãos, rapazinho, e eles têm mais garras que você. Não pense que me intimida. - Avisou entre pequenos ataques de riso.
John Stormstone avaliou o oponente em potencial, e guardou a faca, respondendo:
Não vou lhe matar, agora, porque Jazek o quer inteiro. Mas não abuse dos desejos da minha chefe.
Jacques ficou o mais reto que pôde, para parecer ainda maior do que era e cruzou os braços, analisando o estranho rapaz à sua frente. Estava vermelho de raiva e o ralo cabelo loiro esvoaçava ao sabor da leve brisa, perto do canadense ele parecia uma criança birrenta, tanto no temperamento como no físico. Jacques, ainda rindo da patética demonstração de ódio, pediu:
Será uma honra conhecer uma mulher tão poderosa. Vamos em frente.
O americano concordou e pediu que Jacques o seguisse, entraram na mansão de três andares. O hall era imenso e bem arejado e uma escada enorme levava ao segundo andar. Um enorme desperdício, pensou o canadense, antes vira centenas de pessoas pedindo pão na rua e agora via grandes corredores cheios de belos quadros e esculturas, que com certeza não custavam pouco dinheiro. Stormstone ia dizendo os nomes das obras de arte uma por uma e às vezes parava em frente de uma e a admirava ou contava alguma história sobre a peça. Jacques achava aquilo tudo entediante, preferira estar correndo atrás de algum urso ou rena, ou mesmo bufando em cima de alguma garota, mas percebeu que o pequenino realmente tinha prazer naquilo, então não interferiu no prazer do outro só porque não poderia satisfazer o seu. O americano virou à esquerda num corredor menos iluminado e instruiu:
Agora você deve ir sozinho, foi uma exigência dela. Vá em frente, ela vai lhe dizer quando parar.
O homenzinho saiu rapidamente e desapareceu por um dos corredores. Jacques ficou olhando para o corredor mal iluminado, que parecia desaparecer na escuridão de uma garganta de algum animal enorme. Pensava se devia fazer mesmo isso. Afinal, por que estava ali? Tinha vindo do interior do Canadá onde estava feliz e tranqüilo, comendo carne de urso e frutas selvagens. Mas, por que não o fazia de uma vez? Pelo menos estaria livre daqueles sonhos idiotas. Resolveu ir embora daquela loucura, mas quando deu o primeiro passo, sentiu como se puxassem sua alma na direção daquela garganta escura, agora às suas costas.
Jacques Frederique Russel, tendes medo do desconhecido? Tanta força e tanta coragem esmorecem diante de um corredor escuro? Realmente não mereces ser membro de nossa irmandade.
A voz vinha de algum ponto na escuridão e o canadense olhou para dentro do corredor, mas não conseguiu ver ninguém. Sabia que aquelas palavras eram para provocá-lo a enfrentar a escuridão e provavelmente cair numa armadilha. Soltou novamente uma gargalhada que fez o chão tremer e gritou:
Prove que sua irmandade merece minha presença se apresentando corretamente, posso ser um homem sem estudos mas com certeza não sou tão mal-educado como vocês.
As luzes se acenderam e no fim do corredor, em frente à uma porta decorada com figuras felinas, uma mulher estava de pé, completamente nua. O cabelo branco, longo, cobria-lhe a face, era magra e alta, mais alta que a média das mulheres, a pele era branca como o cabelo. Jacques pensou ter visto um brilho metálico por baixo da cabeleira quando ela começou a andar em sua direção, ela jogou a cabeça para trás e o canadense pôde ver a fonte do brilho, uma máscara prateada que lhe cobria quase a totalidade da face, à exceção da boca, onde a máscara formava um “V” invertido, deixando à mostra parte das bochechas e o queixo. Apesar da máscara lha cobrir os olhos ela andava como se enxergasse perfeitamente. Conforme ia se aproximando do canadense, as tochas atrás de si iam se apagando sozinhas. Jacques estava surpreso e com medo, mas não se movia, a sua curiosidade sobre aquela situação era grande demais. A mulher ficou a um metro aproximadamente de seu imenso corpo, sua cabeça ficava na altura do peito do homem, e o encarou, dizendo:
Monseiur Russel, peço desculpas pela provocação, eu tinha de ter certeza sobre tua maturidade. Meu nome é Jazek, eu o chamei até aqui em teus sonhos porque precisamos de ti. Venha comigo.
A mulher virou-se e caminhou na direção das portas no fundo do corredor, a luz parecia acompanhá-la, as tochas acendiam à sua frente e se apagavam sozinhas às suas costas. Jacques não queria acompanhá-la, mas suas pernas começaram a se mover para frente, e apesar de tudo a moça era bonita afinal, tinha seios grandes e empinados e coxas grossas, cintura fina. A pele excessivamente branca completava a raridade da mulher. Se tudo aquilo fosse uma loucura como estava começando a imaginar, talvez pudesse se divertir um pouco com a loucura daquela mulher cor de leite.
Você sempre anda nua pela casa?
Apenas quando necessário. As roupas mortais são inadequadas para certos rituais e ainda não tive tempo para confeccionar roupas adequadas.
Muito interessante. E que rituais são esses?
Não posso lhe dizer, ainda.
Chegaram à porta e a mulher abriu-a, um cheiro de incenso invadiu o corredor. Jacques começava a sentir o efeito da visão à sua frente entre suas pernas, se aquela mulher continuasse daquele jeito ela iria se arrepender. Como se ouvisse os pensamentos do canadense, a albina disse num tom fúnebre:
É necessário instruir-te agora, depois iremos satisfazer nossos desejos.
Nada disso, vamos nos satisfazer agora!
Jacques esticou os braços para agarrá-la e a mulher se abaixou, virou-se rapidamente e deu uma violenta cotovelada no abdome do canadense. Ele se curvou de dor e ela o agarrou pelo pescoço, girando o imenso corpo por cima do seu. Jacques caiu de costas no chão. Ficou de pé e foi atingido por um pontapé nas costas, deu dois passos para a frente e caiu de joelhos. Jazek saltou por sobre sua cabeça e o atingiu com outro pontapé no queixo, o gigante deu alguns passos para trás evitando os outros golpes da mulher, golpeou-a com a mão aberta no rosto e ela caiu no chão. Jacques saltou, esperando cair sobre a albina, mas ela rolou para o lado e o canadense atingiu o solo com todo o seu peso, quebrando a clavícula e o braço esquerdo. Deitou-se de costas e segurando o braço quebrado, estranhamente soltou uma imensa gargalhada e comentou:
Acho que agora teremos que deixar nossos desejos para depois de qualquer maneira.
Jazek sentou sobre o peito do canadense e inclinou o corpo para frente, apoiando os braços nos joelhos.
Acreditaste mesmo que eu me deixaria possuir por tu, se esta não fosse minha vontade? És realmente tolo como imaginei. Mas não te preocupes, tua dor é pequena e facilmente extirpável. Na verdade teu braço quebrado está doendo menos que teu amor-próprio.
Tem razão. Nunca fui tão humilhado em minha vida. Jogado no chão e domado por alguém tão pequeno. É vergonhoso.
Não te preocupes com isto também, ninguém além de nós ficará sabendo de tua derrota.
Jazek se deitou sobre o corpo de Jacques e o beijou longamente, ao fim do beijo as dores haviam sumido. O gigante se levantou e a mando da mulher, sentou-se no centro de um círculo dentro do cômodo, Jazek sentou num outro círculo, cerca de um metro de distância do primeiro.
Como fez aquilo? Você só me beijou e fiquei bom. É incrível.
Aprendi muitas coisas em minha longa vida, Jacques, mas curar é algo que nasceu comigo. Assim como tua força e longevidade.
O que quer dizer?
Quantos outros homens com cento e dez anos de idade conheces? Tu aparentas no máximo trinta, e creio que não envelhecerás mais, digo-te que não morrerás de velhice, pois os anos passam mas não te afetam mais assim como há muito cessaram de pesar em mim.
Isto é muito estranho, você diz que não vou morrer? E por quê? E que história era aquela de irmandade? Quem é você? - Jacques falava rápido e mostrava um tremor na voz. Parecia estar com medo, ou ansioso, queria sair dali mas não conseguia se mover. A voz da mulher parecia ter colado-o no chão, com seu tom sério e tenebroso.
Jazek esperou que se calasse e começou a explicar. Contou que havia um pequeno grupo de pessoas que foram agraciadas com a semi-imortalidade, que se autodenominavam nimrods. Envelheciam apenas até certo ponto e nunca adoeciam. Apenas se fossem gravemente feridos poderiam ser mortos. Além de tudo, cada um havia nascido com um dom excepcional: força, velocidade, agilidade, resistência. Com o tempo talvez substituíssem o gênero humano do planeta, o qual até agora tinha conseguido muitas conquistas e muito sofrimento, como o que vira no caminho até a mansão. Este grupo de privilegiados tinha ainda um terceiro dom: conforme a sensibilidade de cada um, eles podiam sentir à distância um nimrod, ou um nimrod em potencial, pois nem todos desenvolviam plenamente seus dons, estes eram chamados de craj’nimrods1.
A magia de Jazek, que curara seus ossos em segundos, era uma coisa que ela aprendera ao longo dos seus quase três milênios de vida, seu dom nimrod ela não revelou. Nem mesmo revelou o porquê da máscara. Apenas disse que era um acordo antigo como ela própria, outra mulher nimrod usava também uma máscara parecida, por motivos semelhantes. Ela o havia chamado para que fosse instruído na língua e nos conhecimentos de luta, matemática, astronomia, medicina e também no amor porque o corpo de um nimrod era diferente também em algumas zonas erógenas. Aprender tudo o que Jazek propunha não era uma tarefa fácil, fosse para a mestra, fosse para o aluno, e ela tinha apenas dois anos para ensinar-lhe tudo. Alguma coisa poderia ser passada por magia, mas quase tudo seria da maneira mais difícil.
Por que temos apenas dois anos?
Dentro de dois anos, todos os nimrods irão se reunir na Itália para o encontro.
E eu estarei pronto até lá?
Não, mas tu foste encontrado já adulto e meus companheiros levarão isto em consideração, deves aprender no mínimo o nosso idioma e receber seu nome nimrod. Eles sentirão, assim como eu, que tu és um verdadeiro nimrod.
Então vamos começar.
Sim, comecemos. Teu nome a partir de hoje, teu nome será Nirus’oses, que em nosso verdadeiro idioma significa “o grande urso”, é bem apropriado, já que tu te assemelhas àqueles animais, no porte e no vigor.
Jazek se levantou e com o pé esquerdo empurrou o canadense para trás, deitando-o no chão frio. As lâmpadas dentro do cômodo apagaram-se sozinhas e num tom rouco de desejo, murmurou:
Agora satisfaremos nossos desejos.
1 “Nimrods quebrados” ou “meio nimrod” em português



sábado, 7 de janeiro de 2012

nimrods, mais um capítulo

Uma hora depois o furgão modificado saía do motel e se dirigia a São Paulo, andando num ritmo muito acima do normal. Fênix conversava com seu aluno:
Eu, N’dilo e sua filha, à qual ele me apresentou depois, andamos por meses no deserto até chegarmos a uma pequena vila, lá conseguimos alimentos e roupas novas, em troca de nossas histórias. Percorremos uma grande distância de vila em vila, ficando apenas alguns dias em cada uma. Até que N’dilo e Cit’anis1 casaram-se, então ficamos dois meses hospedados na casa de Jazek.
Cit’anis era uma nimrod?
Ela é a filha de N’dilo. - Hugo arregalou os olhos, espantado, mas Fênix continuou: Sei o que pensas, na época eu também os desaconselhei, tendo o apoio de Jazek. Mas enquanto discutíamos, o pássaro cor de fogo de Zal’irckas, entrou na casa, através de uma janela aberta, segundos depois ele apareceu na porta de entrada.

(630 a.C.)
Por que discutis este assunto de maneira tão mundana? Vós ainda não sabeis que não sois como todos? Vós já transgredistes a mais implacável das leis, e agora quereis retornar aos preconceitos dos homens? Fênix e Jazek, não há porque impedir esta união. Há amor mais verdadeiro do que aquele que existe entre um pai e sua filha?
Mas é errado. Que filhos poderão nascer desta união? - Reclamou Jazek
Só assim terão filhos. Pois a semente de N’dilo não florescerá em uma mortal.
E por que não, Zal’irckas? Somos assim tão diferentes? - Perguntou Fênix.
O feiticeiro olhou para Fênix com uma expressão incrédula, em seguida sorriu e comentou:
É estranho que me perguntes isto, Fênix. Aprendeste tão pouco em tanto tempo? Teu tempo com N’dilo foi inútil? Com quantos homens dormiste desde que Jonel se foi? Cem, ou mais? Nunca ficaste grávida e podes conhecer mais uma centena de amantes que não dará a luz enquanto não encontrares outro como tu.
Eu gastei horas tentando convencê-la disto mas ela não me ouve. Já expliquei que Cit’anis é fruto de minha união com uma mulher nimrod. - Explicou N’dilo.
Mulher nimrod? - Perguntaram todos.
Há muitos anos conheci em Ninive, um homem chamado Nimrod. Ele era caçador e era muito espirituoso. Tinha uma força muito grande e uma personalidade incorrigível. Eu chamo a nossa irmandade de nimrods em homenagem a ele.
Muito interessante, embora infantil. - Comentou Jazek.
É realmente interessante, penso que deve ser mantido. Quanto ao casamento, creio que já discutimos o suficiente. - Zal’irckas comentou num tom de ordem indiscutível.
Houve um longo momento de silêncio. O feiticeiro se levantou e saiu, todos ficaram observando a porta aberta, minutos depois, uma mulher entrou seguida por Zal’irckas. Ela se sentou e o feiticeiro a apresentou:
Até agora eu os reuni para que discutissem entre si, infelizmente não tenho mais tempo disponível para tanto. Eu vos apresento Ádila, a quinta nimrod, como N’dilo vos chama, de agora em diante vós pressentireis outros como vós e deveis vos reunir com regularidade.
Devemos obedecê-la2 em sua ausência? Não me rebaixarei a tanto. - Comentou Jazek
Não é necessária uma nova discussão sobre este tema. Ádila será líder num futuro distante, quando existirem centenas de vós. E vós quatro serão seus generais. Isto é tudo, agora eu tenho de partir. Paz entre vós.
E desapareceu no ar, o pássaro cor de fogo, que havia ficado no beiral da janela durante a breve reunião, alçou vôo e desapareceu também. N’dilo mantinha um sorriso quase felino colado ao rosto. Durante todo o tempo que estivera viajando com Fênix, tentara de todas as maneiras achar uma brecha na muralha e finalmente descobrira que até mesmo aquela mulher mascarada e irritante tinha que obedecer alguém. De que adiantava tanta força e frieza se ela tinha que se curvar como qualquer outro às ordens de um superior?
Como que lendo aqueles pensamentos, Fênix se virou para ele e disse:
Tu e tua filha se arrependerão de terem desposado um ao outro. Apesar de que Zal’irckas diz, vós não trareis ao nosso meio uma criatura sã, entretanto nada posso fazer para impedir, pois que os dois já dormem juntos desde antes de conhecer-nos. Temo por nós cinco e pelas centenas de nós que Zal’irckas diz haver no futuro.
A voz de Fênix estava rouca e ecoava dentro dos ouvidos de N’dilo e Cit’anis, os dois sentiram os pelos da nuca eriçarem e o estômago congelou. N’dilo imaginava que esse truque de Fênix não funcionava com ele, mas aparentemente se enganara, ou Fênix teria praticado ou suas palavras eram muito mais sérias que as de Zal’irckas. Quando a mulher terminou de falar, N’dilo não estava mais sorrindo.
1 A gata ou a felina em português.



2 A tradução do nome Ádila pode ser entendida como líder, ou cacique, mas não existe um significado literal.