domingo, 31 de julho de 2011

Nimrods, capítulo quatro, parte um

Alea jacta est.
“A sorte foi lançada”
Palavras atribuídas à Júlio César ao atravessar o Rio Rubicão,
avançando sobre Roma com suas legiões, em represália ao
rebaixamento do seu posto de general provinciano

Capítulo Quatro
Fuga

Hugo sentiu-se envergonhado quando ela entrou no quarto, teve vontade de se esconder e não ter que encarar o  olhar daquela mulher. Infelizmente, não podia se mexer com metade do corpo engessado. Foi obrigado a olhar o rosto coberto e frio de Fênix e engolir o que lhe restava de orgulho. Tentou falar e explicar sua situação, mas ela o silenciou com um gesto típico. Perguntou-lhe no idioma que usavam na Espanha.
— Foi para isso que tu gastaste nove de teus anos comigo? Então teu treinamento se transformou em um considerável desperdício de tempo. - Ela falava calmamente, mas com um desprezo palpável - Sei que os atacantes foram apenas seis homens. Eles deviam estar aqui no teu lugar e não o contrário. Não o treinei para isso, Gato. Quero ouvir de tua boca o que te aconteceu.
Ela parou aos pés da cama e ficou de braços cruzados, encarando-o nos olhos. Hugo ficou em silêncio pedindo clemência  com o olhar, mas ele sabia que não adiantaria ficar quieto.
— Há uma semana, eu estava voltando da casa de uma colega minha, quando passei por um terreno abandonado. Escutei o barulho de luta e gritos. Fui verificar o que era; seis homens estuprando uma mulher. Pulei sobre eles, espalhando-os. Eles se assustaram e ficaram ao meu redor. Eu estava atento a todos os seus movimentos, quando a mulher acordou. Então aconteceu uma coisa estranha, eu tive um momento de inconsciência. Então senti um golpe forte nas costelas, um na perna e outro na cabeça e perdi os sentidos. Acordei aqui no hospital há um dois dias.
— Sabes o que aconteceu com a mulher?
— Foi arrastada dali e estuprada em outro lugar. Jogaram-na numa valeta depois.
Fênix puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama, cruzando as pernas.
— Ao que parece, tu estás alcançando a verdadeira maturidade, Gato.
— Como assim maturidade? Eu já sou adulto há tempos. Fazem anos que deixei de ser teu aluno.
— Apenas três anos e tu falas como se fossem muito. Digo que para ti e para mim isto é como um segundo para os mortais comuns.
— E não somos mortais comuns?
— Tu sabes muito bem o que sou, e tu és como eu.
— Definitivamente, não sou como tu.
— Tu nem sabes o que és e queres julgar a ti mesmo. Para provar, vou listar algumas coisas que talvez estejam acontecendo contigo, quero que me confirmes se é verdade.
A mulher silenciou, como que esperando uma resposta do enfermo. Levantou-se e andou de um lado para outro no quarto quando começou a falar.
— Tu tens sofrido de constantes cefaléias, teus caninos se pronunciam, consegues enxergar em ambientes pouco iluminados, tens uma facilidade anormal com as mulheres, teu olfato melhorou e a audição também. Há uma mancha em forma de serpente em seu peito esquerdo. Tudo o que eu lhe disse é verdade, não?
— Sim, tens razão sobre tudo.
— Então, agora acreditas que és especial?
— Acho que sim. Não tenho certeza. Como tu podes saber de tudo o que acontece comigo?
Fênix sentou-se na beirada da cama e Hugo pensou que pela primeira vez a veria sorrir, mas o rosto de Fênix continuou duro como sempre. Ela pousou a mão esquerda no gesso da perna do rapaz e o mirou nos olhos.
— Não penses que eu não sabia quem tu eras quando teu pai entregou-te a mim. Já naquele tempo tu tinhas a aura característica dos nimrods. Por isto não te recusei, desde aquele dia eu soube que tu serias o meu último pupilo, pois naquele momento conquistaste meu amor. Eu te amo, Gato, mas como sabes, não da maneira que os homens conhecem. Eu te amo como te amo e assim será até o fim dos tempos.
Novamente, a mulher surpreendera seu pupilo. Apesar da declaração, as palavras de Fênix foram ditas com uma total indiferença, o que fazia Hugo pensar se ela estava sendo sincera. Entretanto, tudo o que a mulher fazia era mortalmente sério e nunca havia mentido a ele, apesar de o rapaz não acreditar em algumas coisas, como a idade da própria. Um tanto confuso, tentou conseguir um desvio na conversa.
— Fênix, tu disseste que eu tenho a aura dos nimrods. O que são nimrods?
A mulher pareceu hesitar, mas começou a falar na voz firme e bem compassada a que Hugo se acostumara na Espanha.
— Há um grupo de pessoas que são como nós, Gato. Pessoas que vivem praticamente à margem do mundo. Elas não envelhecem e não ficam doentes. Em geral são muito velhas. E a cada ano aparecem mais e mais nimrods. Leia na Bíblia, livro do Gênesis, capítulo dez, versículos oito a doze. Parece-me que a mulher que tentaste salvar é uma nimrod também. É comum entre nós sentir algum mal estar ao se encontrar com outro nimrod pela primeira vez.
Uma enfermeira entrou no quarto, anunciando o fim do horário de visitas e Fênix deixou o recinto, dizendo:
— Esta noite virei buscá-lo, Gato. Prepara-te.
A enfermeira, uma garota morena de lindos olhos negros, não entendeu nada, mas se despediu cordialmente de Fênix, e se voltou para Hugo, com uma cartela de comprimidos na mão.
— Muito bem, moço, é hora do seu remédio. Espero que queira tomá-los.
— E eu poderia evitar isso, Andréa? - Ele respondeu com um sorriso que fez Andréa sentir um arrepio na espinha, Hugo percebeu a alteração da moça, mas não comentou nada.
— Nem se você estivesse com plena saúde me impediria de realizar meu trabalho.
— Que perigo de garota!
— Ainda não viu nada. Tome, engula seus comprimidos. - Ele lhe pegou os comprimidos da mão e os engoliu, mas apesar de não estar mais sorrindo, Andréa continuava com a sensação de um arrepio na espinha. - O que conversava com aquela mulher?
— Está com ciúmes? Não se preocupe, discutíamos o meu futuro, nada de mais.
— Se seu futuro não é nada demais, então tenho pena da mulher  que vai se casar contigo.
— Acredito que Fênix não deixará, que eu me envolva com alguma mulher de agora em diante. - Devolveu o copo à moça, que o deixou cair no chão.
— Céus, que desastrada eu sou!- Pegou o copo e completou: Acho que é você que me deixa assim. - Inclinou-se para beijá-lo, mas ele a impediu, colocando o indicador nos seus lábios.
— Sinto muito, mas será melhor para você que não faça isso. Você é uma enfermeira e não devia se envolver com os pacientes.
Andréa corou e saiu em disparada do quarto, entrou no primeiro banheiro que viu e sentou num vaso. Começou a chorar, mas logo se recompôs. Não iria perder a compostura por um rapazinho daqueles, e daquela hora em diante o trataria com o merecido desprezo. Quando voltou ao quarto dele, mais tarde, para a refeição, se viu impedida de beijá-lo novamente. O que estaria acontecendo com ela? Ao pedir à enfermeira chefe que colocasse outra para atender o rapaz, foi novamente surpreendida:
— De novo? Você já é a terceira que me pede isso! Será que esse rapaz tem um pinto de ouro, meu Deus? Amanhã vou por um rapaz prá cuidar daquele corredor.
Andréa agradeceu e saiu da sala. Anos depois, casou-se e teve filhos, mas nunca mais sentira um arrepio de prazer como o que sentira quando falava com aquele rapaz enfermo.

Fênix  dirigiu-se ao balcão de informações do hospital e perguntou pelo médico responsável pelo tratamento de Hugo. A atendente se assustou, falando em seguida:
— É o doutor Cassius, o velho que está passando ali. - A mulher apontou um senhor de meia idade, totalmente calvo que estava andando devagar pelo corredor. Fênix trocou algumas palavras com ele e os dois foram para o escritório médico
— Seu pupilo, além de sorte, tem um organismo extremamente forte. É espantoso que já esteja consciente e lúcido. Normalmente, teríamos que entupi-lo de medicamentos, mas estamos apenas ministrando a metade geralmente usada. - Enquanto falava, Cassius tentava sondar o rosto frio e duro à sua frente, totalmente sem sucesso.
— Qual a extensão dos ferimentos?
— Ele teve três costelas quebradas, uma das quais perfurou o pulmão direito. O baço foi rompido, a bacia deslocada, pernas quebradas, e braço direito quebrado. Ele teve uma concussão na cabeça e delirou um pouco, mas isso já foi resolvido. - O médico deitou a ficha de Hugo na escrivaninha.
— E ele pode ser removido?
— Eu não poderia dizer que sim, mas o organismo dele está se recuperando muito bem. Eu o deixaria aqui mais uma semana, caso ele tenha uma recaída.
— Hugo teria que me acompanhar em certos afazeres em São Paulo no máximo até amanhã.
— É uma pena, mas creio que terão que ser adiados.
— Sim, é uma infelicidade. - Fênix pareceu hesitar por alguns momentos - Doutor Cassius, gostaria de ver a mulher a quem meu pupilo tentou ajudar.
O médico suspirou fundo e se esticou, depois disse:
— Normalmente evitamos até que parentes menos próximos visitem a vítima nestes casos, entretanto, seu garoto quase morreu tentando ajudá-la e acredito que podemos abrir uma exceção. Siga-me.
Saíram do recinto e foram andando pelo corredor, desviando de doentes em pé ou sentados no chão. Cassius reparou que todos olhavam para sua acompanhante, fosse com admiração, ou por medo. Quase todos se afastavam da mulher como se ela, além da máscara, trouxesse consigo a sombra de algo extremamente perigoso. Ele mesmo não se sentia à vontade ao lado dela, tinha vontade de deixá-la com outro médico para que visse a mulher, tentou diminuir a sensação incômoda de estar sendo avaliado puxando alguma conversa:
— Sabe, não costumamos receber pessoas mascaradas aqui, nem sei como lhe deixaram entrar, já que está usando essa máscara...
— Uso esta máscara por razões que tu não entenderias, sendo um homem deste tempo. - Fênix cortou a frase do médico num tom de desprezo que chegava a ser palpável. Não houve mais conversa até chegarem ao quarto onde a outra vítima do incidente se encontrava.
— Como está ela?
Cassius se sentiu tentado a não responder, mas a força na voz da mulher era tal que ele puxou a ficha médica e começou a explicar a situação da enferma:
— Múltiplas lesões e hematomas pelo corpo, fraturas na perna esquerda, braço direito, pulso esquerdo. Ela foi tantas vezes estuprada que a vagina se rompeu e o ânus idem, também teve tufos de cabelo arrancados e há marcas de fortes mordidas nos seios e pescoço. Ela teve hemorragias terríveis e está viva por sorte.
— Não, não é por sorte que ela vive. Ela, com certeza,  é uma mulher especial. Já vi o que vim ver aqui. Podemos ir embora.
Ao fechar a porta do quarto, o médico sentiu a mão de Fênix segurar o seu ombro. A voz da mulher parecia rouca e com um eco longínquo, forte e decidida. Cassius sentiu um arrepio passar pela espinha e o estômago revirar.
— Há uma ainda uma coisa que tu farás por mim, Doutor Cassius.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

nimrods, capitulo três parte dois

Um Lamborghini freou travando as quatro rodas para parar em frente ao prédio da Marx GmBH, um edifício de vinte andares em Berlim, deixando sua passageira na calçada. Ela fechou a porta do carro e este se afastou, com os pneus gritando no asfalto. A mulher atravessou a rua e entrou no prédio, dirigiu-se ao balcão de informações. A jovem recepcionista se assustou com a presença dela e disse num engasgo:
— Pois não? Eu posso ajudar em alguma coisa?
— Sim, tu podes me dizer onde posso encontrar Herr Helmut Marx. Creio que o seu escritório  se encontra neste prédio. - A voz era fria e distante, e a recepcionista teve um calafrio ao ouvi-la. Ainda um tanto assustada respondeu:
  A senhora está certa, o último andar é ocupado pelo escritório de Herr Marx. É melhor pegar um elevador, estão no fim do corredor à direita.
Danke!
A mulher se dirigiu para os elevadores e quando estava longe o suficiente a garota se virou para sua colega, e apontando para o seu rosto, perguntou:
— Você viu?
— É claro! Como poderia deixar de notar?
— Ela é louca!
— Ou deformada.
Ela entrou no elevador e todos se afastaram, evitando a figura estranha que entrava em seu território. Era uma mulher alta e bonita, vestida com um casaco longo apesar do calor do começo de primavera, sapatos altos e calças jeans pretas, cujo corpo chamava a atenção involuntariamente. Ela trabalhara o cabelo para lhe ocultar o rosto, mas mesmo assim muitos perceberam o brilho prateado. Chegou no último andar sozinha dentro do cubículo ascensor, a secretária também manteve distância, apesar de ter sido avisada pelo ramal interno do prédio.
— Você tem hora marcada? - Perguntou timidamente.
A mulher alta e de cabelos ruivos se virou e lançou um olhar à moça que lhe fez gelar os ossos.
— Antes mesmo que tu nascesses, mulher, Helmut Marx jurou-me que atenderia prontamente a um chamado meu.
Julie Schneider sentiu um alívio, acreditando que a ruiva estivesse de brincadeira, pois ela mesma já tinha trinta anos e sua visitante parecia ter menos que vinte e cinco. Com a voz já relaxada, perguntou:
— A quem devo anunciar?
— Diga-lhe que Fênix quer a estátua para si, como era antes.
Julie sentiu seus ossos gelarem novamente com o tom da frase, transmitiu o recado com a voz engasgada. O interfone ficou alguns segundos em silêncio, então uma voz arrastada e velha surgiu no interfone.
— Deixe-a entrar.
A moça indicou a porta e Fênix entrou no escritório. Era uma sala enorme, decorada num estilo tradicional, com móveis escuros e de madeira nobre. Perto de uma das enormes janelas havia uma grande escrivaninha, com um velho sentado na cadeira. Os passos da mulher ecoavam no salão vazio, ele a observou enquanto vinha em sua direção, ela olhava atenta aos detalhes do escritório. A secretária fechou as portas no momento em que Fênix passava pela mesa de reuniões, sentando-se em frente ao homem velho e cruzou as pernas. Ficou em silêncio. Helmut Marx apontou-lhe o dedo trêmulo e falou com a voz mais firme que pôde, esforçando-se para não desfalecer.
— Antes de cobrar o que quer, prove-me que é Fênix? - A mulher pulou por cima da escrivaninha e o encarou nos olhos.
— Olhe nos meus olhos e me diga quem sou, Helmut.
Marx tentou evitar mas não conseguiu. Viu olhos velhos, mais velhos que os seus e mais velhos que a tumba mais velha no cemitério de Berlim. Olhos mortos, mas faiscando de vida, olhos brancos, olhos que viram demais, e ainda não enxergaram o suficiente. Olhos que viram o inferno e voltaram, e que nunca verão o paraíso. Viu lutas tribais, escravidão e fome, doenças que já não existem, sofrimento e dor além da capacidade humana. Viu prisões e masmorras, torturas, espancamentos, rejeições e temores. Gerações e gerações sofrendo através dos olhos de uma mulher. Uma mulher, ele sabia, igual à qualquer outra, mas ao mesmo tempo, muito, muito diferente de todas. Finalmente, ela se afastou e lhe deu as costas, deixando-lhe respirar. Ele ficou arfando por alguns minutos e respondeu com a voz trêmula:
—Você é mesmo a Fênix! Por quê veio até mim?
—Tu bem sabes, Helmut. - Ele ia falar alguma coisa, mas Fênix o repreendeu com um gesto - Há três séculos, eu entreguei à tua família  um pequeno objeto, mas de indescritível valor. - Ela andava de um lado para o outro na frente do velho, que praticamente se escondeu atrás da escrivaninha - Eu o deixei aos cuidados da tua linhagem, e algumas vezes eu a visitava para me certificar de sua segurança. Pois bem, nos últimos setenta anos eu estive muito ocupada com outros assuntos e não pude visitar tua casa, Mas acreditava que os Marx  cumpririam sua promessa. Mas infelizmente, a atual geração da família  não tem a honra das anteriores. - Fênix se virou em sua direção e falou ferozmente:
— Diga-me porquê o Nat’zisk[1] está no Museu do Louvre. Agora!
Marx escondeu o rosto entre as mãos e chorando de medo, explicou soluçando:
— No início da guerra, eu percebi que Hitler era fanático demais para manter o que estava construindo. Então deixei a Alemanha e praticamente me foragi na América Central. Quando tudo acabou, tentei voltar normalmente para cá, mas tive um acidente caseiro e perdi meus documentos, um amigo nicaragüense me arranjou então documentos falsos e uma passagem de navio para a África, de lá, passando pela Itália cheguei até Bonn. Tive que usar Nat’zisk  para custear meu retorno e dar impulso novo em minha vida.
— Tu sabes que a estátua valia milhares de vezes isso. Por que tu o fizeste?
— Não havia alternativa, era a única coisa de valor que eu tinha e também já estava devendo dinheiro a muita gente. Paolo quitou as dívidas e me arranjou a viagem de volta a Alemanha. - Marx suava frio e tinha o coração disparado, tremia, e sua voz parecia a de uma criança.
— Agora, será extremamente difícil tê-lo de volta.
Um silêncio mortal caiu no escritório. Quando Fênix falou, sua voz parecia um trovão.
— Tu me deves muito, Marx, e deves pagar a partir de agora. Tu vais me fazer um favor.
— O que devo fazer?
Fênix ficou de pé e tirou um pequeno pacote do bolso do casaco e o jogou pela mesa.
—Está tudo nestes disquetes. Espero que desta vez honre seu compromisso. Adeus, Marx.
Ela saiu da sala e Helmut demorou a pegar o pacote, um medo subconsciente o detinha. Ligou o interfone e pediu para a secretária cancelar seus compromissos da semana. Gemeu quando se levantou da cadeira, sentia-se ainda mais velho e cansado, com os ossos doendo e os músculos endurecidos. Pegou o pacote e o abriu. Tinha três disquetes de três polegadas e meia, mais um folheto impresso com instruções de instalação. Colocou-os no bolso do paletó e saiu vagarosamente do escritório.
— Arrume suas coisas e tire o resto da semana de folga. Eu vou ficar em casa por uns dias. - Disse quando passou pela secretária.
Julie mal acreditou, pois era apenas manhã de terça-feira e o homem mais agarrado ao trabalho que ela já conhecera estava lhe dando folga. A mulher que saiu da sala alguns minutos antes deve ter sacudido mesmo o velho, pensou. Era bom mesmo, assim talvez ele notasse que não era o dono do mundo; não que fosse mal patrão, mas acreditava que todos tinham seu preço. Hoje, quem sabe ele tenha descoberto o seu. Mas, na verdade, o que interessava a Christine era que ganhara uma semana de folga. Tempo suficiente para pegar seu namorado e ir para alguma praia tomar banho de mar e fazer amor.
A jovem mal tinha idéia de como seus pensamentos passaram perto da realidade. Marx crescera escutando histórias sobre a mulher de máscara, que visitava sua família e que tinha o nome da mitológica ave egípcia, cuja morte marcava apenas o renascimento, porque das cinzas nascia outra ave. Quando Paolo exigiu o Nat’zisk como pagamento de sua viagem, ficara numa situação difícil. Sua educação fora rígida a esse respeito, e também havia o valor sentimental da peça, Helmut a amava como se fosse sua. Mas não teve outro meio, Paolo o ameaçou de morte se não lhe entregasse a estatueta. Marx passou quarenta anos pensando no que diria se a mulher de máscara, que ele viu quando criança, viesse lhe pedir a devolução do Nat’zisk. Hoje quando ela o fez, sentiu tanto medo quanto uma pessoa pode sentir, mal acreditava que saíra vivo da experiência. Ainda sentia o corpo tremer quando chegou ao carro. O motorista, avisado por Christine, o esperava com o motor ligado. O velho o mandou seguir para casa e o Mercedes arrancou lentamente, deslizando pelas ruas de Berlim.
Já no seu escritório de casa, Marx ligou o computador e ficou vendo as telas rolarem enquanto a máquina se auto-testava. Ao contrário de outros homens na faixa dos oitenta anos, ele gostava dessas coisas. Tinha pilhas de disquetes arrumados em prateleiras, com todo tipo de software. Sua empresa crescera alicerçada nessas máquinas, seus netos foram educados nelas. Costumava dizer que, se alguém lhe tirasse o computador e o telefone, poderiam lhe tirar o cérebro também.
Pôs os disquetes no aparelho e leu seu conteúdo. Duas horas depois, telefonou para uns vinte lugares, fez anotações, recebeu dezenas de ligações e fax. Respondeu, xingou, berrou e só foi dormir às duas da manhã, dormiu quase o dia todo e quando acordou, saiu de casa e olhou o céu:
— Merda, vejo tempestades no horizonte, justo na semana onde mais vou ter que andar pelo país.
E entrou no carro, já irritado e cansado.


[1] “Pequeno Tigre”, estátua em forma de tigre com nove centímetros de comprimento, feita de ouro tendo as listras do animal feitas em ônix, com olhos e dentes em pedras preciosas, em um pedestal de prata. Segundo informações conseguidas posteriormente, o Nat’zisk foi retirado da exposição e guardado numa caixa no porão do referido museu.. 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Nimrods, capitulo três parte um

Quando você ouve o som dos aviões ao longe, carregando toneladas de bombas para jogar em cima de sua casa, matando sua mulher e sua família, você deseja que os malditos “aliados”, como eles se chamam, morressem todos. Assim a guerra terminaria e você poderia ficar tranqüilo, pois enquanto falasse alemão e estendesse o braço esquerdo para alguns idiotas uniformizados, ninguém lhe incomodaria.
É claro nem tudo são flores no jardim, o nazismo é um regime totalitário, e regimes totalitários são tolhedores da razão do governante, que geralmente se auto-transforma em juiz, júri, executor, confessor, sacerdote e mártir. É claro que a república também pode ser transformada em totalitarismo, e a monarquia... bem a monarquia é algo ultrapassado.
Por isto tudo é que eu estou indo para a América Central, lá poderei ficar longe de toda esta loucura e descansar, caçar alguma coisa e esquecer tudo isso que me aconteceu aqui na Alemanha......

Repensando as frases que pensei quando saí de minha terra natal percebo que fui um tolo precipitado. Aqui na Venezuela a situação foi piorando gradativamente, Paolo me exigiu um preço alto demais para voltar. Graças a Deus, meus contatos na Bavária não me esqueceram, assim quando retornar terei quase tudo de volta, emprestado, é claro.
Peço ao bom Deus que ELA nunca saiba da negociata que fui obrigado a fazer com Paolo, isto seria minha ruína, e eu não poderia repor o desfalque, porque perdi tanto aqui na América quanto perdi durante toda a guerra na Europa.
Que Deus me ajude. Eu preciso.

Helmut Marx, 1951


Capítulo Três
Ajuda urgente


Marx nunca havia imaginado o inferno. Acreditava que o demônio fora inventado pelo homem para amedrontar seus semelhantes. Mas agora, enquanto se irritava com motorista do jipe, que a cada solavanco soltava diversos impropérios, admitia estar enganado sobre muitas coisas, inclusive a sua própria versão de inferno e demônio. O Fhürer mostrou-se um louco megalomaníaco, que depois de afogar-se em sonhos distorcidos, suicidou-se, mergulhando a Alemanha em vergonha e ressentimento. Agora, Marx acreditava em demônios. Sua versão de inferno toma forma nesta maldita floresta subtropical nicaragüense. O calor, a umidade, e a ausência de vento transformavam a floresta em um caldeirão de óleo fervente, minando as forças e o espirito do homem. Quando o vento finalmente vem, a chuva vem no seu rastro, e a chuva tem um ânimo fora do comum em ficar naquele lugar. As estradas virariam um lamaçal grudento, os rios transbordariam e qualquer área plana se transformaria em um pântano insuportável.
Depois de cinco anos de tentativas, Helmut Marx finalmente conseguira, através de um amigo com certas ligações no submundo, embarcar em um cargueiro para o derradeiro retorno à sua querida Bavária. Isso, se os dois agentes da inteligência americana realmente tivessem se perdido em algum ponto da estrada. Depois de alguns minutos, o vilarejo que servia de aeroporto clandestino, surgiu em uma das dezenas de curvas. Conforme o combinado, Marx saltou do carro ainda em movimento, passou o casaco, o óculos e o chapéu para um rapaz que assumiu seu lugar no jipe. O carro arrancou espirrando lama dos pneus e derrapando nas curvas. Helmut praticamente pulou dentro de um dos armazéns e trinta e sete segundos depois, o jipe com os americanos passou como um raio pelo vilarejo, quase capotou na curva.
Madre de Dios! Você vai mesmo abandonar este paraíso? - Um rapaz baixo e gordo, com um forte sotaque espanhol em seu alemão. Estava comendo algo que lembrava uma galinha e tinha a camisa suja de gordura.
—Paolo, só para os sul-americanos isto - fez um gesto, mostrando o armazém ao amigo - pode ser considerado um paraíso. Desejo retornar à Europa, amigo, você sabe.
Hijo da puta! Vocês, europeus, são uns frescos. - Falou em espanhol, mas o germânico compreendeu perfeitamente. Não teceu nenhum comentário para não correr o risco de perder as negociações feitas até ali.
Paolo jogou longe os ossos que lhe sobraram na mão e arrotou homericamente, levantou e se coçou. Encheu um copo e bebeu depressa.
—Trouxe o combinado? Quero ver na minha frente, pois sabe que sou desconfiado.
— O maior interessado nisso sou eu, não sou? É claro que trouxe.- Marx limpou a mesa onde Paolo se sentava e depositou um alforje de motociclista do exercito alemão em cima. Abriu-o e retirou um pequeno pacote, enrolado em cintas de couro e jornal velho. O latino limpou as mãos num pano velho e cortou as tiras com uma pequena faca, desenrolou os jornais e segurou o objeto nas mãos trêmulas.
—É verdadeiro? perguntou com emoção na voz.
—Só há um destes no mundo e a muito custo foi conseguido pela minha família, gerações atrás.
— Muito bem, você cumpriu sua parte e eu devo cumprir a minha. Vamonos!
Paolo o guiou entre galpões malcheirosos e escorados com estacas, parando na frente de um dos mais malcuidados. Empurrou a porta e entraram, Tiveram dificuldade em achar um interruptor funcionando e o galpão ficou parcialmente iluminado quando Marx levou um choque numa chave com defeito. Paolo soltou uma gargalhada alta ao ver o salto que o alemão dera. No galpão, na verdade um hangar improvisado, tinha sido estacionado um pequeno avião monomotor. O piloto roncava sonoramente na cabine, engasgando e tossindo como um motor mal regulado. Paolo abriu a outra porta do galpão e Marx pôde ver uma das pistas clandestinas que os “homens de negócios” usavam naquela região. O alemão abriu a porta do avião e colocou a pouca bagagem que trouxera atrás do banco, acordou o piloto e se sentou no lugar vazio. Paolo parou ao lado da janela do aparelho e falou:
—Vocês vão fazer muitas escalas até Manaus, é uma viagem perigosa e até lá só contarão com Deus para lhes proteger. - tirou um dos colares do pescoço e o entregou à Marx - Fique com isto para lhe dar sorte. Foi do meu pai e ele morreu com noventa e dois anos, quando eu o tirei do seu pescoço.
O piloto ligou o avião e arrancou pela pista, repentinamente puxou o manche com violência, o aparelho pulou uma, duas vezes e então começou a subir, as rodas bateram nos ramos mais altos das árvores,  fez uma curva e ganhou a altura necessária para um vôo seguro.
—¿Hablas español?
—Falo um pouco, mas entendo bem.
— Se eu fosse você, jogava fora o colar.
— Por quê?
— Primeiro porque Paolo nem sabe quem é o pai dele, depois, ele dá um desses a cada um que despacha para o exterior, e também porque ele é um belo filho da puta.
— Bom, eu gostei do colar e vou guardar de lembrança daqui.- Sorriu e pôs o colar no bolso. Recostou-se no banco e adormeceu. A viagem prometia ser longa  e cansativa.

sábado, 9 de julho de 2011

Nimrods, capitulo dois parte quatro

O sol batia forte no seu rosto e Pedro se virou para o outro lado.
— Pai, é certo que ele vem hoje? já é quase de noite e nada.
— É o que dizia na carta filha. E não é tão tarde assim, são só três horas.
— Acho que exagerei, mas ele devia estar aqui há horas. A gente devia ter buscado ele no aeroporto.
— É. Mas ele não iria nos reconhecer  de qualquer jeito. Seria inútil.
Juliana se remexeu na cadeira, tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar esperando alguém que não chegava nunca. Queria estar em qualquer outro lugar do mundo. Levantou-se e saiu.
— Eu vou dar uma volta.
— Peraí que eu vou junto. - Zequinha pulou do sofá e seguiu a irmã mais nova. Somente Thabita ficou junto ao pai.
— Você não vai também?
— Para arranjar outro cafajeste como o Alfredo? Não, obrigada. Mas pode ser que este meu primo seja bonito, então eu vou dar uma avaliada nele.
— E se ele for bonitão, vai pular em cima dele?
Thabita sorriu e abraçou o pai, que olhava pela janela.
— Hoje, ele deve estar cansado da viagem, mas amanhã não tem escapatória.
— Nunca imaginei que você ia ficar tão tarada.
— O que é isso, pai? Eu estou brincando.
— Eu também. É pena que os dois descabeçados não ficaram aqui, eu queria que minha família ficasse unida nesses momentos. Mas não posso prendê-los.
— Não se preocupe, ele deve entender. Enquanto ele não chega, que tal me explicar por que ele ficou estudando na Europa, e quem é essa tal professora dele.
Pedro olhou bem dentro dos olhos da filha e falou seriamente.
— Juliana é que pediu para perguntar isso, não?
— Sim, mas é uma duvida que está na cabeça de nós três.
Pedro se desvencilhou da filha e sentou numa poltrona da sala. Ficou sério e calado por um bom tempo.
— Pouco antes do seu tio falecer, fui chamado à Espanha para cuidar de parte de seus bens, já que eu era o único parente dele com vida, além de Hugo, que tinha nove anos na época. Lá fiquei sabendo que o rapaz estaria aos cuidados da tutora que Martinho havia escolhido. Eu pensei “Tudo bem, Martinho sempre foi exigente em tudo e deve ter escolhido alguém de confiança para tomar conta do guri”, mas quando olhei para a mulher tive vontade de recusar e trazer o garoto comigo. Mas não consegui.
— Por quê
— Bom, a mulher tinha um nome estranho, Fênix, eu acho. E usava uma máscara na cara. Perguntei pelo Hugo e ela me disse que o rapaz iria com ela, por que já estava acertado. Pra falar a verdade não sei o que aconteceu direito, a voz da mulher parecia entrar no fundo da minha alma.
— Ela te ameaçou? Ou tentou te intimidar?
— Isto é uma coisa que nunca entendi direito, Thabita. A tal Fênix simplesmente me pediu para deixar o garoto com ela, e eu o deixei. Perguntei a ele o que achava daquilo e respondeu que tudo bem, ele iria com a mulher. Então não pude fazer nada.
— Mas a criança só tem direito de escolher por si mesma aos doze anos.
— Isto é aqui no Brasil, eu não conheço as leis da Espanha. E depois, eu não tive mais coragem de contestar a Fênix.
Pedro olhava para o chão e um silêncio mortal caiu na sala, quebrado apenas pelo som de alguém batendo na porta, segundos depois. Thabita abriu a porta e uma moça loira, muito bonita e sorridente. Ela falou calmamente e com uma certa felicidade na voz:
— Aqui é a residência de Pedro Antunes Rocha?
— Sim, quem deseja falar com ele?
— Eu só vim entregar um certo dorminhoco, parente dele, Hugo Mateus Rocha. Acredito que vocês o estão esperando.
Thabita informou o pai e os três foram até o carro, Hugo tinha recostado o banco e estava dormindo pesadamente. Foi necessário sacudi-lo várias vezes para acordá-lo. Enquanto não se levantava do banco, Thabita conversava com a mulher que o trouxe.
— Então você o carregou de Joinville até aqui?
— Sim, fui paga para isso.
— Interessante, e por quê ele está tão cansado?
A moça sorriu e hesitou por algum tempo.
— A viagem foi longa e cansativa, garota. Ele está esgotado, coitado.
Hugo se levantou e saiu do carro, espreguiçando-se e bocejando. Pegou as malas e as colocou na calçada. Pedro o abraçou e os dois quase caíram, Toninha vinha ao encontro deles e abraçou os dois, beijou Hugo na face e os três começaram a tagarelar como velhas comadres.
Thabita ficou observando-os por alguns momentos e retornou a conversa com a loura.
— Como é seu nome, garota?
— Sara Collins, pai americano e mãe brasileira.
— E você sempre leva dorminhocos no seu carro?
— Como disse, eu fui paga para isso. Desculpe, mas já que o garotão está entregue, eu tenho que me mandar.
Sara chegou-se à Hugo e o beijou, enfiou um cartão em seu bolso e disse ao seu ouvido:
— Foi incrível, se precisar de mim me telefone.
— Tudo bem.
Ela entrou no carro e saiu em alta velocidade, Hugo ficou olhando o carro sumir na curva. Pedro bateu no seu ombro e comentou-lhe que nunca tivera tanta sorte assim e que Hugo deveria agarrar aquele pedaço de mau caminho com unhas e dentes. O rapaz sorriu e pegou as malas, Pedro quis ajudar mas foi impedido pelo sobrinho. Thabita ainda estava desconfiada de Sara mas logo esqueceu tudo, por algum motivo seu primo conseguia chamar sua atenção de uma maneira incomum e constante.
Durante o jantar Hugo foi praticamente obrigado a contar sua história para seus anfitriões, desde que fênix o viu pela primeira vez até suas opiniões pessoais sobre a comida espanhola e o clima catarinense. Quando foi se deitar estava zonzo e dolorido, caiu como uma pedra na cama e desejou ter algumas das folhas verdes que Fênix havia posto em seu banho, assim se recuperaria mais depressa. Fechou os olhos e dormiu.
— Hugo, Hugo, acorde, seu preguiçoso. Já são nove da manhã.
Abriu os olhos lentamente e reconheceu a figura de Toninha lhe sacudindo. A princípio não entendeu o que ela lhe falava, ainda não se acostumara ao português.
— Ze nîst?[1]
— Ainda está dormindo, rapaz? Acorde, moleque!
— Desculpe, já estou acordado. Que horas são mesmo?
— Nove horas.
— Não é possível, eu mal fechei os olhos.
— Isso não importa, vista-se e acompanhe o seu tio, ele vai lhe mostrar seu trabalho aqui no Brasil. É serviço sujo e pesado, trabalhar com motor de automóvel.
Toninha saiu do quarto e Hugo se levantou, colocou uma calça e camisa e também saiu do quarto. Foi até a cozinha e comeu alguns sanduíches. Pedro o encontrou e já repreendeu-o:
— Caramba! Você dorme hein, rapaz? Se fosse meu empregado já estaria na rua, com certeza. Mas para sua sorte sou um patrão generoso e vou deixar que trabalhe na minha oficina por mais algum tempo.
— Que é isso, Pedro. O rapaz ainda nem sabe o que vai fazer. - Toninha, que estava na cozinha também, retrucou com o marido.
— Está certo, está certo. Desculpe, Hugo, depois do almoço vamos conhecer minha oficina, termine de tomar café e visitaremos a cidade. Tudo bem que não há nada para ver aqui mas eu te levo nas belezas naturais. O que você acha?
— Parece interessante.
Hugo foi arrastado para todo canto da cidade e depois para a oficina do tio, que era um bom ponto na cidade vizinha, com vários equipamentos e muitos carros para consertar.
— Aqui é onde você vai trabalhar, sei que não entende nada de motores e que vai ser difícil para você, mas vai ter que começar de baixo. Vou designar um dos mecânicos mais experientes para ser seu professor, acho que logo vai poder consertar um bloco de cabeçote. Fênix me disse que você aprende rápido.
— É o que ela me dizia.
— Josué, vem cá.
Um homem baixo e magro, com aparência de cachorro com fome se aproximou deles.
— Josué, este é meu sobrinho, vai trabalhar conosco. Quero que lhe ensine tudo o que sabe.
Josué o puxou pelo braço e lhe mostrou uma ferramenta.
— Muito bem meu filho isto aqui é uma chave de boca e ...


[1] “— O que acontece?” na língua falada por Fênix e Hugo na Espanha, a qual ela chamava de “zal linr”, cujo significado em português é “língua antiga”. A linguagem também era chamada de nimrodiana por Fênix, mas mais raramente.

Nimrods, capitulo dois parte três

Hugo olhava fixamente para a pequena caixa que apanhara no cofre do Hotel Plaza Madri, ele ainda não desenvolvera coragem suficiente para abri-la. Tinha o tamanho de uma caixa de anel, mas vindo de Fênix, aquilo poderia ser qualquer coisa. A recomendação de usar o objeto permanentemente incutia-lhe alguns receios, certamente infundados pois sua ex-tutora não lhe faria algo prejudicial.
— Você ainda está vivo, fofinho? Do jeito que está quieto, começo a achar que está morto.
Hugo se virou para ela, e sorriu. Sara era uma mulher simpática, os cabelos loiros balançavam ao vento da estrada. Ela diminuiu a marcha e ficou atrás de um caminhão, que se arrastava pela estrada. Estava usando uma camisa de malha muito justa, que realçava o volume generoso dos seios. O calção de lycra também era justíssimo, podendo-se ver os contornos de sua calcinha. Hugo estranhou a vestimenta da moça, mas não teceu comentários a respeito. Ele guardou a caixa na bolsa e brincou com ela:
— Então vou ficar olhando para você, está bem?
— Mas não fique tão quieto como estava antes, ou vou dormir no volante. Eu tive uma noite terrível.
— Pesadelos?
— Pode-se dizer que sim. Eu tinha um programa marcado para ontem à noite e não pensei que iria demorar tanto. Só deu tempo de tomar banho, pegar a primeira roupa que vi e ir te pegar. Quase não me deixaram entrar no hotel.
— Imagino. Com a roupa que está usando, confesso que até eu tive um certo receio. Mas uma coisa está me incomodando, à que tipo de programa está se referindo?
Sara brecou o carro e o jogou no acostamento. Parecia furiosa, saltou do veículo e deu a volta, abriu a porta do passageiro e puxou Hugo para fora.
— Como assim, que tipo de programa? Acha que sou idiota? - Gritou com toda a força que tinha, Hugo parecia assustado e surpreso - Você me contrata, paga adiantado, dá recomendações e depois não sabe que tipo de programa eu faço? Que tipo de imbecil você é?
Sara o empurrou com força e ele caiu no banco do carro. Ela chutou o pneu e sentou no capô.
— Sara, sinto muito, mas prepararam uma pequena brincadeira para nós. Acredite se quiser, mas não fui eu que a contratei. - Ele se aproximava dela enquanto falava, mas Sara não se movia. - Eu só sabia que você iria me pegar no hotel porque fui avisado disso ainda antes de sair da Espanha. Nem sabia como você era. Fênix deve ter armado tudo, mas não imagino por que.
Sara levantou a cabeça ao escutar o nome da mulher e sua expressão mudou de raiva para uma mistura de espanto e admiração.
— Você conhece Fênix? Como?
— Fui aluno dela até semana passada.
— Maldita seja, já lhe disse que não gosto dessas brincadeiras. Que merda.
— Não creio que tenha sido uma brincadeira, mas um teste, isso pode ser.
— Porra, ela acha que precisa me testar? Sou tão boa como ela, senão melhor.
Hugo pensou em repreendê-la, mas pensou melhor e decidiu não falar nada, pois só conhecera  Fênix e talvez houvesse mesmo a possibilidade de uma outra mulher ser melhor que sua professora em determinados assuntos. Pegou-a pelos ombros e acariciou-lhe os cabelos.
— Isso não importa mais, ela não está aqui para lhe avaliar. Você está muito cansada, e se não dormiu esta noite então é melhor pararmos num hotel para que possa descansar. Eu dirijo e você já pode ir dormindo no banco do carro.
— Está bem.
Hugo se surpreendeu com a quantidade de motéis que havia às margens da estrada, parou num com o aspecto mais saudável e alugou um quarto. Sara se despiu e o beijou com ardor sincero.
— É a primeira vez que vou ganhar pago para só dormir. Obrigada, Hugo.
Mal ela encostou a cabeça no travesseiro, já estava dormindo. Hugo puxou um lençol sobre seu corpo nu e sentou ao seu lado. Achou incrível a naturalidade da moça ao ficar nua na sua frente, mesmo ela sendo uma prostituta. Ela era linda como um anjo, ou como uma escultura grega, tinha uma pele lisa e limpa e o seu rosto tinha linhas perfeitas, os olhos eram grandes e azuis. Imaginou o quanto deveria cobrar por seus serviços, afinal não era qualquer uma que podia comprar uma Mercedes conversível.
Seis horas depois Sara acordou lentamente, ao abrir os olhos reconheceu o rosto de Hugo olhando para ela.
— Achei umas roupas suas no porta-malas do carro, acredito que vão ficar melhor em você que aquelas que estava vestindo antes.
Ela bocejou e arrumou os cabelos, sentiu que Hugo olhava para seus seios mas não os cobriu.
— Acha que tem o direito de escolher a minha roupa por mim? Quem pensa que é?
— Pelos documentos que estavam junto com a roupa, por dezesseis mil dólares você concordou em fazer tudo o que eu mandar por dois dias. Por favor, eu me sentiria mais à vontade se  você se vestir.
Sara ignorou-o e entrou no banheiro. Dane-se que ele não se sentia à vontade. Há pouco nem sabia quem ela era e agora queria tratá-la como uma escrava. Arrependeu-se de tê-lo beijado com sinceridade. Se lhe desse vontade, sairia do quarto nua mesmo e ele que se torcesse ao lado. Pelo menos ele não se aproveitara dela enquanto dormia. Lavou o rosto e terminou de arrumar os cabelos. Saiu do banheiro e empurrou Hugo por cima da cama, deitou por cima dele e arrancou sua camisa.
— Então não se sente à vontade? Veremos como se sente quando eu acabar contigo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Nimrods, capitulo dois parte dois

Hugo olhava fixamente para a pequena caixa que apanhara no cofre do Hotel Plaza Madri, ele ainda não desenvolvera coragem suficiente para abri-la. Tinha o tamanho de uma caixa de anel, mas vindo de Fênix, aquilo poderia ser qualquer coisa. A recomendação de usar o objeto permanentemente incutia-lhe alguns receios, certamente infundados pois sua ex-tutora não lhe faria algo prejudicial.
— Você ainda está vivo, fofinho? Do jeito que está quieto, começo a achar que está morto.
Hugo se virou para ela, e sorriu. Sara era uma mulher simpática, os cabelos loiros balançavam ao vento da estrada. Ela diminuiu a marcha e ficou atrás de um caminhão, que se arrastava pela estrada. Estava usando uma camisa de malha muito justa, que realçava o volume generoso dos seios. O calção de lycra também era justíssimo, podendo-se ver os contornos de sua calcinha. Hugo estranhou a vestimenta da moça, mas não teceu comentários a respeito. Ele guardou a caixa na bolsa e brincou com ela:
— Então vou ficar olhando para você, está bem?
— Mas não fique tão quieto como estava antes, ou vou dormir no volante. Eu tive uma noite terrível.
— Pesadelos?
— Pode-se dizer que sim. Eu tinha um programa marcado para ontem à noite e não pensei que iria demorar tanto. Só deu tempo de tomar banho, pegar a primeira roupa que vi e ir te pegar. Quase não me deixaram entrar no hotel.
— Imagino. Com a roupa que está usando, confesso que até eu tive um certo receio. Mas uma coisa está me incomodando, à que tipo de programa está se referindo?
Sara brecou o carro e o jogou no acostamento. Parecia furiosa, saltou do veículo e deu a volta, abriu a porta do passageiro e puxou Hugo para fora.
— Como assim, que tipo de programa? Acha que sou idiota? - Gritou com toda a força que tinha, Hugo parecia assustado e surpreso - Você me contrata, paga adiantado, dá recomendações e depois não sabe que tipo de programa eu faço? Que tipo de imbecil você é?
Sara o empurrou com força e ele caiu no banco do carro. Ela chutou o pneu e sentou no capô.
— Sara, sinto muito, mas prepararam uma pequena brincadeira para nós. Acredite se quiser, mas não fui eu que a contratei. - Ele se aproximava dela enquanto falava, mas Sara não se movia. - Eu só sabia que você iria me pegar no hotel porque fui avisado disso ainda antes de sair da Espanha. Nem sabia como você era. Fênix deve ter armado tudo, mas não imagino por que.
Sara levantou a cabeça ao escutar o nome da mulher e sua expressão mudou de raiva para uma mistura de espanto e admiração.
— Você conhece Fênix? Como?
— Fui aluno dela até semana passada.
— Maldita seja, já lhe disse que não gosto dessas brincadeiras. Que merda.
— Não creio que tenha sido uma brincadeira, mas um teste, isso pode ser.
— Porra, ela acha que precisa me testar? Sou tão boa como ela, senão melhor.
Hugo pensou em repreendê-la, mas pensou melhor e decidiu não falar nada, pois só conhecera  Fênix e talvez houvesse mesmo a possibilidade de uma outra mulher ser melhor que sua professora em determinados assuntos. Pegou-a pelos ombros e acariciou-lhe os cabelos.
— Isso não importa mais, ela não está aqui para lhe avaliar. Você está muito cansada, e se não dormiu esta noite então é melhor pararmos num hotel para que possa descansar. Eu dirijo e você já pode ir dormindo no banco do carro.
— Está bem.
Hugo se surpreendeu com a quantidade de motéis que havia às margens da estrada, parou num com o aspecto mais saudável e alugou um quarto. Sara se despiu e o beijou com ardor sincero.
— É a primeira vez que vou ganhar pago para só dormir. Obrigada, Hugo.
Mal ela encostou a cabeça no travesseiro, já estava dormindo. Hugo puxou um lençol sobre seu corpo nu e sentou ao seu lado. Achou incrível a naturalidade da moça ao ficar nua na sua frente, mesmo ela sendo uma prostituta. Ela era linda como um anjo, ou como uma escultura grega, tinha uma pele lisa e limpa e o seu rosto tinha linhas perfeitas, os olhos eram grandes e azuis. Imaginou o quanto deveria cobrar por seus serviços, afinal não era qualquer uma que podia comprar uma Mercedes conversível.
Seis horas depois Sara acordou lentamente, ao abrir os olhos reconheceu o rosto de Hugo olhando para ela.
— Achei umas roupas suas no porta-malas do carro, acredito que vão ficar melhor em você que aquelas que estava vestindo antes.
Ela bocejou e arrumou os cabelos, sentiu que Hugo olhava para seus seios mas não os cobriu.
— Acha que tem o direito de escolher a minha roupa por mim? Quem pensa que é?
— Pelos documentos que estavam junto com a roupa, por dezesseis mil dólares você concordou em fazer tudo o que eu mandar por dois dias. Por favor, eu me sentiria mais à vontade se  você se vestir.
Sara ignorou-o e entrou no banheiro. Dane-se que ele não se sentia à vontade. Há pouco nem sabia quem ela era e agora queria tratá-la como uma escrava. Arrependeu-se de tê-lo beijado com sinceridade. Se lhe desse vontade, sairia do quarto nua mesmo e ele que se torcesse ao lado. Pelo menos ele não se aproveitara dela enquanto dormia. Lavou o rosto e terminou de arrumar os cabelos. Saiu do banheiro e empurrou Hugo por cima da cama, deitou por cima dele e arrancou sua camisa.
— Então não se sente à vontade? Veremos como se sente quando eu acabar contigo.

domingo, 3 de julho de 2011

nimrods, capitulo dois parte um

 “E disse o senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele.
Havendo pois o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, os trouxe para Adão para este ver como lhes chamaria e tudo o que Adão chamou a toda alma vivente, isso foi seu nome
E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava adjutora que estivesse como diante dele
Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma de suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar.
E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher e trouxe-a a Adão.
E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne de minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.
Portanto deixará o varão o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e ambos serão uma carne.
E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher, e não se envergonhavam”

Gênesis 2; 18-25


Capítulo Dois
A família

Pedro girava nos calcanhares para olhar o quarto todo sem sair do lugar. Recém pintado de cinza claro até a metade das paredes, dali para cima era cor de gelo, estava cheirando a tinta. Comprara poucos móveis, apenas um guarda-roupas, uma cama, e uma escrivaninha simples. Se Hugo quisesse mais alguma coisa, deveria ser comprado com seu próprio dinheiro, não que Pedro não quisesse ter comprado um aparelho de som, ou uma televisão para seu sobrinho, mas sua tutora lhe tinha enviado uma carta  instruindo-o dessa maneira. De qualquer forma, amanhã traria alguns aparelhos do gênero para o garoto. Todos os seus filhos tinham essas coisas, por que não alguém que seria praticamente um quarto filho seu?
Abriu a janela para sair o cheiro forte e sentou na cama, estava cansado. O dia na oficina tinha sido extremamente longo hoje. Deitou-se e começou a imaginar como seria viver com um completo estranho em sua família. Hugo era seu sobrinho, mas só o conhecia através das poucas cartas que trocaram, além disso ele era Espanhol e não conhecia o Brasil. Na verdade, seria melhor para todos se o rapaz ficasse na Europa, onde tinha crescido, do que vir para o país. Afastou estes pensamentos, pois a vinda do rapaz fazia parte de um acordo com seu falecido irmão, quando Hugo estivesse pronto,  ele deveria recebê-lo em sua casa. Pronto para quê, afinal, o garoto já não nascera pronto?
Estava cochilando quando Toninha chegou à porta e pediu para vir jantar, a comida estava esfriando. Pedro acordou meio assustado e seguiu a mulher até a cozinha. O cheiro da janta despertou-lhe o apetite e sentiu um aperto no estômago. Estava faminto e jantou vorazmente, em meio à sua pressa em comer, notou que apenas ele e sua mulher estavam à mesa.
— Onde está essa filharada que a gente se fodeu tanto para educar?
— Espero que não tenha dado a eles a educação que está mostrando.
Pedro grunhiu e mordeu em mais um pedaço de carne, depois recomeçou:
— Desculpe, acho que estou ficando ranzinza. Sabe onde eles foram?
— Thabita e Juliana estão na casa da Isabela, jogando baralho. Zequinha saiu com os amigos e disse que não sabe se volta hoje.
— Espero que essa turma toda tenha levado camisinha, inclusive as meninas. - Pedro se esticou na cadeira e Toninha já sabia que poderia recolher as coisas da mesa. - Você sabe que a Isabela é meio pistoleira, não me espantaria se ela tivesse convidado alguns rapazes para fazer um outro tipo de jogo.
A mulher imaginou se suas filhas fariam este tipo de coisa e decidiu que não. Por via das dúvidas, desejou que elas tivessem os cuidados que Pedro sugeriu. Pensou nela mesma quando tinha a idade das garotas, também saía para namorar dizendo que estava na casa de alguma colega. Não poderia ficar irritada se suas filhas fizessem o mesmo.
— Pedro, estive pensando em colocar uma TV e um som no quarto do Hugo, afinal, aqui em casa todos têm, ele vai se sentir excluído.
— Também pensei nisso, e amanhã vou encomendar isso tudo lá no Arno. Ele vai fazer um plano camarada para mim. Mas para falar a verdade, pelo que sei, Hugo foi educado sem essas coisas, ele vai deixar tudo criar poeira. Acho que um saco de pancadas lhe seria melhor.
— Ele vai chegar semana que vem, não?  O resto do quarto está pronto?
— Sim, temos que arranjar fronha, lençol, cobertor, essas coisas, mas isto é do teu departamento. Você é que vai cuidar disso, viu?
— Tudo eu, tudo eu. - Sorriu e beijou o marido.
Pedro se levantou e abraçou a esposa, foram juntos para a varanda e se sentaram numas cadeiras de vime. A noite caía depressa e estava frio. Toninha começou a tremer e reclamou do vento, levantou-se e entrou. Pedro disse que iria ficar mais um pouco mas desistiu da idéia, estava realmente ficando frio.
— O que vamos fazer até as crianças chegarem?
— Toninha, a sua “criança” mais nova tem quase quinze anos.
— Não importa, para mim serão sempre crianças, e além do mais, assim você me chama de velha por tabela.
— Você já tem trinta e oito anos, por isso pode ir se preparando para ser vovó.
— Bandido, olhe para você, que já está todo grisalho.
Pedro passou a mão nos cabelos, lembrando-se que ficara feliz com o primeiro fio de cabelo branco, pois sempre parecera jovem demais. Agora lhe restavam poucos fios castanhos e estes já começavam a cair com freqüência. Ele envelhecera rápido demais, enquanto sua mulher ainda se mantinha extremamente jovem. Ela parecia ter dez anos menos que na realidade, e estava começando a reclamar do seu desempenho como marido e como homem. Era verdade, desde que entregara a oficina ao seu sócio para ter mais tempo livre, ainda não tinha aproveitado esse tempo extra. Vinha acordando tarde e estava cada vez mais relaxado, engordou, voltou a fumar, não fazia mais exercícios, ficava lendo jornais e até agora não tinha começado a tocar  a empresa de aluguel de carros como tinha planejado.
— Você queria saber o que vamos fazer agora, não é? Vamos ver aonde podemos encaixar o nosso sobrinho na nossa oficina.
— Nossa oficina? Você não tinha vendido tudo para George Negreiro?
— Vou comprar a minha parte de volta, estou sentindo falta de tudo isso.
— Sério? Não acredito! Isso é um milagre. Resolveu então fazer alguma coisa.
Pedro baixou a cabeça e envergonhado somente respondeu :
— É.
— Bom, então temos que fazer as contas para ver se ainda temos dinheiro suficiente para isso.
— Então já arranjamos o que fazer até suas crianças voltarem.

No meio do caminho para a cozinha Toninha topou com sua filha mais nova no corredor, com um sanduíche numa das mãos e uma garrafa de guaraná na outra. Juliana se assustou e deixou cair o lanche no carpete.
— Ai, meu Deus! - se abaixou para juntar  o sanduíche e a garrafa. - Mãe, não me assuste assim, caramba! Quase me matou de susto.
Toninha, que também havia se assustado, acendeu a luz e sentou no chão ao lado da filha.
— Como sabia que era eu?
— Quem mais assalta a geladeira à noite nesta casa? Eu queria comer e ficar magrinha assim como você.
A mãe olhou para o que tinha sido o sanduíche na mão da garota e sentiu o estômago doer.
— Dá para aproveitar alguma coisa disso aí?
— Pro cachorro talvez.
— Vem, vamos limpar a meleca que você fez aqui e vamos dormir com fome mesmo.
Puxou-a pelo braço e buscaram o limpador de carpete, esfregaram por algum tempo. Em vez de dormirem como Toninha sugerira, resolveram esvaziar um pouco mais a geladeira. Fizeram sanduíches de pasta de amendoim com presunto e chocolate gelado. Juliana comia com a voracidade típica dos adolescentes.
— Calma garota, você vai acabar se afogando.
— Que nada. Posso comer mais depressa ainda.
— O que seu primo vai dizer se te ver comendo assim?
— Que se dane, não vou mudar por causa disso. Por falar nisso, ele chega...- Olhou no relógio para se certificar da data - ... hoje, né? Como vamos recebê-lo, com todas as cerimônias e salva de tiros?
— Não seja tão sarcástica, vamos recebê-lo apenas como quem recebe um parente que esteve fora muito tempo. Talvez ele nem reconheça a gente, afinal a única foto nossa que mandamos para ele foi há mais de três anos, e vocês cresceram como trepadeiras desde lá.
— Será que ele é bonito? Por quê será que não nos mandou fotos dele e de sua professora?
— Parece que ela não o deixou fazer isso. Ela é uma mulher muito estranha, parece que os únicos que a viram na nossa família foram o seu pai, Hugo e o pai dele.
Juliana sentiu algo despertar no seu cérebro. Será que sua família também tinha algo a esconder do público? Por quê apenas aqueles três homens conheciam a tal professora, e por quê apenas Hugo fora treinado por ela? E por que ela estava se preocupando com isso afinal?
— Você sabe como é essa mulher?
Toninha bocejou e demorou a responder, parecia não se lembrar ou não querer revelar alguma coisa.
— Talvez seja melhor você conversar com seu pai sobre isso, afinal foi ele que a viu quando Martinho morreu. Que tal irmos dormir?