Um Lamborghini freou travando as quatro rodas para parar em frente ao prédio da Marx GmBH, um edifício de vinte andares em Berlim, deixando sua passageira na calçada. Ela fechou a porta do carro e este se afastou, com os pneus gritando no asfalto. A mulher atravessou a rua e entrou no prédio, dirigiu-se ao balcão de informações. A jovem recepcionista se assustou com a presença dela e disse num engasgo:
— Pois não? Eu posso ajudar em alguma coisa?
— Sim, tu podes me dizer onde posso encontrar Herr Helmut Marx. Creio que o seu escritório se encontra neste prédio. - A voz era fria e distante, e a recepcionista teve um calafrio ao ouvi-la. Ainda um tanto assustada respondeu:
— A senhora está certa, o último andar é ocupado pelo escritório de Herr Marx. É melhor pegar um elevador, estão no fim do corredor à direita.
— Danke!
A mulher se dirigiu para os elevadores e quando estava longe o suficiente a garota se virou para sua colega, e apontando para o seu rosto, perguntou:
— Você viu?
— É claro! Como poderia deixar de notar?
— Ela é louca!
— Ou deformada.
Ela entrou no elevador e todos se afastaram, evitando a figura estranha que entrava em seu território. Era uma mulher alta e bonita, vestida com um casaco longo apesar do calor do começo de primavera, sapatos altos e calças jeans pretas, cujo corpo chamava a atenção involuntariamente. Ela trabalhara o cabelo para lhe ocultar o rosto, mas mesmo assim muitos perceberam o brilho prateado. Chegou no último andar sozinha dentro do cubículo ascensor, a secretária também manteve distância, apesar de ter sido avisada pelo ramal interno do prédio.
— Você tem hora marcada? - Perguntou timidamente.
A mulher alta e de cabelos ruivos se virou e lançou um olhar à moça que lhe fez gelar os ossos.
— Antes mesmo que tu nascesses, mulher, Helmut Marx jurou-me que atenderia prontamente a um chamado meu.
Julie Schneider sentiu um alívio, acreditando que a ruiva estivesse de brincadeira, pois ela mesma já tinha trinta anos e sua visitante parecia ter menos que vinte e cinco. Com a voz já relaxada, perguntou:
— A quem devo anunciar?
— Diga-lhe que Fênix quer a estátua para si, como era antes.
Julie sentiu seus ossos gelarem novamente com o tom da frase, transmitiu o recado com a voz engasgada. O interfone ficou alguns segundos em silêncio, então uma voz arrastada e velha surgiu no interfone.
— Deixe-a entrar.
A moça indicou a porta e Fênix entrou no escritório. Era uma sala enorme, decorada num estilo tradicional, com móveis escuros e de madeira nobre. Perto de uma das enormes janelas havia uma grande escrivaninha, com um velho sentado na cadeira. Os passos da mulher ecoavam no salão vazio, ele a observou enquanto vinha em sua direção, ela olhava atenta aos detalhes do escritório. A secretária fechou as portas no momento em que Fênix passava pela mesa de reuniões, sentando-se em frente ao homem velho e cruzou as pernas. Ficou em silêncio. Helmut Marx apontou-lhe o dedo trêmulo e falou com a voz mais firme que pôde, esforçando-se para não desfalecer.
— Antes de cobrar o que quer, prove-me que é Fênix? - A mulher pulou por cima da escrivaninha e o encarou nos olhos.
— Olhe nos meus olhos e me diga quem sou, Helmut.
Marx tentou evitar mas não conseguiu. Viu olhos velhos, mais velhos que os seus e mais velhos que a tumba mais velha no cemitério de Berlim. Olhos mortos, mas faiscando de vida, olhos brancos, olhos que viram demais, e ainda não enxergaram o suficiente. Olhos que viram o inferno e voltaram, e que nunca verão o paraíso. Viu lutas tribais, escravidão e fome, doenças que já não existem, sofrimento e dor além da capacidade humana. Viu prisões e masmorras, torturas, espancamentos, rejeições e temores. Gerações e gerações sofrendo através dos olhos de uma mulher. Uma mulher, ele sabia, igual à qualquer outra, mas ao mesmo tempo, muito, muito diferente de todas. Finalmente, ela se afastou e lhe deu as costas, deixando-lhe respirar. Ele ficou arfando por alguns minutos e respondeu com a voz trêmula:
—Você é mesmo a Fênix! Por quê veio até mim?
—Tu bem sabes, Helmut. - Ele ia falar alguma coisa, mas Fênix o repreendeu com um gesto - Há três séculos, eu entreguei à tua família um pequeno objeto, mas de indescritível valor. - Ela andava de um lado para o outro na frente do velho, que praticamente se escondeu atrás da escrivaninha - Eu o deixei aos cuidados da tua linhagem, e algumas vezes eu a visitava para me certificar de sua segurança. Pois bem, nos últimos setenta anos eu estive muito ocupada com outros assuntos e não pude visitar tua casa, Mas acreditava que os Marx cumpririam sua promessa. Mas infelizmente, a atual geração da família não tem a honra das anteriores. - Fênix se virou em sua direção e falou ferozmente:
— Diga-me porquê o Nat’zisk[1] está no Museu do Louvre. Agora!
Marx escondeu o rosto entre as mãos e chorando de medo, explicou soluçando:
— No início da guerra, eu percebi que Hitler era fanático demais para manter o que estava construindo. Então deixei a Alemanha e praticamente me foragi na América Central. Quando tudo acabou, tentei voltar normalmente para cá, mas tive um acidente caseiro e perdi meus documentos, um amigo nicaragüense me arranjou então documentos falsos e uma passagem de navio para a África, de lá, passando pela Itália cheguei até Bonn. Tive que usar Nat’zisk para custear meu retorno e dar impulso novo em minha vida.
— Tu sabes que a estátua valia milhares de vezes isso. Por que tu o fizeste?
— Não havia alternativa, era a única coisa de valor que eu tinha e também já estava devendo dinheiro a muita gente. Paolo quitou as dívidas e me arranjou a viagem de volta a Alemanha. - Marx suava frio e tinha o coração disparado, tremia, e sua voz parecia a de uma criança.
— Agora, será extremamente difícil tê-lo de volta.
Um silêncio mortal caiu no escritório. Quando Fênix falou, sua voz parecia um trovão.
— Tu me deves muito, Marx, e deves pagar a partir de agora. Tu vais me fazer um favor.
— O que devo fazer?
Fênix ficou de pé e tirou um pequeno pacote do bolso do casaco e o jogou pela mesa.
—Está tudo nestes disquetes. Espero que desta vez honre seu compromisso. Adeus, Marx.
Ela saiu da sala e Helmut demorou a pegar o pacote, um medo subconsciente o detinha. Ligou o interfone e pediu para a secretária cancelar seus compromissos da semana. Gemeu quando se levantou da cadeira, sentia-se ainda mais velho e cansado, com os ossos doendo e os músculos endurecidos. Pegou o pacote e o abriu. Tinha três disquetes de três polegadas e meia, mais um folheto impresso com instruções de instalação. Colocou-os no bolso do paletó e saiu vagarosamente do escritório.
— Arrume suas coisas e tire o resto da semana de folga. Eu vou ficar em casa por uns dias. - Disse quando passou pela secretária.
Julie mal acreditou, pois era apenas manhã de terça-feira e o homem mais agarrado ao trabalho que ela já conhecera estava lhe dando folga. A mulher que saiu da sala alguns minutos antes deve ter sacudido mesmo o velho, pensou. Era bom mesmo, assim talvez ele notasse que não era o dono do mundo; não que fosse mal patrão, mas acreditava que todos tinham seu preço. Hoje, quem sabe ele tenha descoberto o seu. Mas, na verdade, o que interessava a Christine era que ganhara uma semana de folga. Tempo suficiente para pegar seu namorado e ir para alguma praia tomar banho de mar e fazer amor.
A jovem mal tinha idéia de como seus pensamentos passaram perto da realidade. Marx crescera escutando histórias sobre a mulher de máscara, que visitava sua família e que tinha o nome da mitológica ave egípcia, cuja morte marcava apenas o renascimento, porque das cinzas nascia outra ave. Quando Paolo exigiu o Nat’zisk como pagamento de sua viagem, ficara numa situação difícil. Sua educação fora rígida a esse respeito, e também havia o valor sentimental da peça, Helmut a amava como se fosse sua. Mas não teve outro meio, Paolo o ameaçou de morte se não lhe entregasse a estatueta. Marx passou quarenta anos pensando no que diria se a mulher de máscara, que ele viu quando criança, viesse lhe pedir a devolução do Nat’zisk. Hoje quando ela o fez, sentiu tanto medo quanto uma pessoa pode sentir, mal acreditava que saíra vivo da experiência. Ainda sentia o corpo tremer quando chegou ao carro. O motorista, avisado por Christine, o esperava com o motor ligado. O velho o mandou seguir para casa e o Mercedes arrancou lentamente, deslizando pelas ruas de Berlim.
Já no seu escritório de casa, Marx ligou o computador e ficou vendo as telas rolarem enquanto a máquina se auto-testava. Ao contrário de outros homens na faixa dos oitenta anos, ele gostava dessas coisas. Tinha pilhas de disquetes arrumados em prateleiras, com todo tipo de software. Sua empresa crescera alicerçada nessas máquinas, seus netos foram educados nelas. Costumava dizer que, se alguém lhe tirasse o computador e o telefone, poderiam lhe tirar o cérebro também.
Pôs os disquetes no aparelho e leu seu conteúdo. Duas horas depois, telefonou para uns vinte lugares, fez anotações, recebeu dezenas de ligações e fax. Respondeu, xingou, berrou e só foi dormir às duas da manhã, dormiu quase o dia todo e quando acordou, saiu de casa e olhou o céu:
— Merda, vejo tempestades no horizonte, justo na semana onde mais vou ter que andar pelo país.
E entrou no carro, já irritado e cansado.
[1] “Pequeno Tigre”, estátua em forma de tigre com nove centímetros de comprimento, feita de ouro tendo as listras do animal feitas em ônix, com olhos e dentes em pedras preciosas, em um pedestal de prata. Segundo informações conseguidas posteriormente, o Nat’zisk foi retirado da exposição e guardado numa caixa no porão do referido museu..
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