“E disse o senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele.
Havendo pois o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, os trouxe para Adão para este ver como lhes chamaria e tudo o que Adão chamou a toda alma vivente, isso foi seu nome
E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava adjutora que estivesse como diante dele
Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma de suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar.
E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher e trouxe-a a Adão.
E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne de minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.
Portanto deixará o varão o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e ambos serão uma carne.
E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher, e não se envergonhavam”
Gênesis 2; 18-25
Capítulo Dois
A família
Pedro girava nos calcanhares para olhar o quarto todo sem sair do lugar. Recém pintado de cinza claro até a metade das paredes, dali para cima era cor de gelo, estava cheirando a tinta. Comprara poucos móveis, apenas um guarda-roupas, uma cama, e uma escrivaninha simples. Se Hugo quisesse mais alguma coisa, deveria ser comprado com seu próprio dinheiro, não que Pedro não quisesse ter comprado um aparelho de som, ou uma televisão para seu sobrinho, mas sua tutora lhe tinha enviado uma carta instruindo-o dessa maneira. De qualquer forma, amanhã traria alguns aparelhos do gênero para o garoto. Todos os seus filhos tinham essas coisas, por que não alguém que seria praticamente um quarto filho seu?
Abriu a janela para sair o cheiro forte e sentou na cama, estava cansado. O dia na oficina tinha sido extremamente longo hoje. Deitou-se e começou a imaginar como seria viver com um completo estranho em sua família. Hugo era seu sobrinho, mas só o conhecia através das poucas cartas que trocaram, além disso ele era Espanhol e não conhecia o Brasil. Na verdade, seria melhor para todos se o rapaz ficasse na Europa, onde tinha crescido, do que vir para o país. Afastou estes pensamentos, pois a vinda do rapaz fazia parte de um acordo com seu falecido irmão, quando Hugo estivesse pronto, ele deveria recebê-lo em sua casa. Pronto para quê, afinal, o garoto já não nascera pronto?
Estava cochilando quando Toninha chegou à porta e pediu para vir jantar, a comida estava esfriando. Pedro acordou meio assustado e seguiu a mulher até a cozinha. O cheiro da janta despertou-lhe o apetite e sentiu um aperto no estômago. Estava faminto e jantou vorazmente, em meio à sua pressa em comer, notou que apenas ele e sua mulher estavam à mesa.
— Onde está essa filharada que a gente se fodeu tanto para educar?
— Espero que não tenha dado a eles a educação que está mostrando.
Pedro grunhiu e mordeu em mais um pedaço de carne, depois recomeçou:
— Desculpe, acho que estou ficando ranzinza. Sabe onde eles foram?
— Thabita e Juliana estão na casa da Isabela, jogando baralho. Zequinha saiu com os amigos e disse que não sabe se volta hoje.
— Espero que essa turma toda tenha levado camisinha, inclusive as meninas. - Pedro se esticou na cadeira e Toninha já sabia que poderia recolher as coisas da mesa. - Você sabe que a Isabela é meio pistoleira, não me espantaria se ela tivesse convidado alguns rapazes para fazer um outro tipo de jogo.
A mulher imaginou se suas filhas fariam este tipo de coisa e decidiu que não. Por via das dúvidas, desejou que elas tivessem os cuidados que Pedro sugeriu. Pensou nela mesma quando tinha a idade das garotas, também saía para namorar dizendo que estava na casa de alguma colega. Não poderia ficar irritada se suas filhas fizessem o mesmo.
— Pedro, estive pensando em colocar uma TV e um som no quarto do Hugo, afinal, aqui em casa todos têm, ele vai se sentir excluído.
— Também pensei nisso, e amanhã vou encomendar isso tudo lá no Arno. Ele vai fazer um plano camarada para mim. Mas para falar a verdade, pelo que sei, Hugo foi educado sem essas coisas, ele vai deixar tudo criar poeira. Acho que um saco de pancadas lhe seria melhor.
— Ele vai chegar semana que vem, não? O resto do quarto está pronto?
— Sim, temos que arranjar fronha, lençol, cobertor, essas coisas, mas isto é do teu departamento. Você é que vai cuidar disso, viu?
— Tudo eu, tudo eu. - Sorriu e beijou o marido.
Pedro se levantou e abraçou a esposa, foram juntos para a varanda e se sentaram numas cadeiras de vime. A noite caía depressa e estava frio. Toninha começou a tremer e reclamou do vento, levantou-se e entrou. Pedro disse que iria ficar mais um pouco mas desistiu da idéia, estava realmente ficando frio.
— O que vamos fazer até as crianças chegarem?
— Toninha, a sua “criança” mais nova tem quase quinze anos.
— Não importa, para mim serão sempre crianças, e além do mais, assim você me chama de velha por tabela.
— Você já tem trinta e oito anos, por isso pode ir se preparando para ser vovó.
— Bandido, olhe para você, que já está todo grisalho.
Pedro passou a mão nos cabelos, lembrando-se que ficara feliz com o primeiro fio de cabelo branco, pois sempre parecera jovem demais. Agora lhe restavam poucos fios castanhos e estes já começavam a cair com freqüência. Ele envelhecera rápido demais, enquanto sua mulher ainda se mantinha extremamente jovem. Ela parecia ter dez anos menos que na realidade, e estava começando a reclamar do seu desempenho como marido e como homem. Era verdade, desde que entregara a oficina ao seu sócio para ter mais tempo livre, ainda não tinha aproveitado esse tempo extra. Vinha acordando tarde e estava cada vez mais relaxado, engordou, voltou a fumar, não fazia mais exercícios, ficava lendo jornais e até agora não tinha começado a tocar a empresa de aluguel de carros como tinha planejado.
— Você queria saber o que vamos fazer agora, não é? Vamos ver aonde podemos encaixar o nosso sobrinho na nossa oficina.
— Nossa oficina? Você não tinha vendido tudo para George Negreiro?
— Vou comprar a minha parte de volta, estou sentindo falta de tudo isso.
— Sério? Não acredito! Isso é um milagre. Resolveu então fazer alguma coisa.
Pedro baixou a cabeça e envergonhado somente respondeu :
— É.
— Bom, então temos que fazer as contas para ver se ainda temos dinheiro suficiente para isso.
— Então já arranjamos o que fazer até suas crianças voltarem.
No meio do caminho para a cozinha Toninha topou com sua filha mais nova no corredor, com um sanduíche numa das mãos e uma garrafa de guaraná na outra. Juliana se assustou e deixou cair o lanche no carpete.
— Ai, meu Deus! - se abaixou para juntar o sanduíche e a garrafa. - Mãe, não me assuste assim, caramba! Quase me matou de susto.
Toninha, que também havia se assustado, acendeu a luz e sentou no chão ao lado da filha.
— Como sabia que era eu?
— Quem mais assalta a geladeira à noite nesta casa? Eu queria comer e ficar magrinha assim como você.
A mãe olhou para o que tinha sido o sanduíche na mão da garota e sentiu o estômago doer.
— Dá para aproveitar alguma coisa disso aí?
— Pro cachorro talvez.
— Vem, vamos limpar a meleca que você fez aqui e vamos dormir com fome mesmo.
Puxou-a pelo braço e buscaram o limpador de carpete, esfregaram por algum tempo. Em vez de dormirem como Toninha sugerira, resolveram esvaziar um pouco mais a geladeira. Fizeram sanduíches de pasta de amendoim com presunto e chocolate gelado. Juliana comia com a voracidade típica dos adolescentes.
— Calma garota, você vai acabar se afogando.
— Que nada. Posso comer mais depressa ainda.
— O que seu primo vai dizer se te ver comendo assim?
— Que se dane, não vou mudar por causa disso. Por falar nisso, ele chega...- Olhou no relógio para se certificar da data - ... hoje, né? Como vamos recebê-lo, com todas as cerimônias e salva de tiros?
— Não seja tão sarcástica, vamos recebê-lo apenas como quem recebe um parente que esteve fora muito tempo. Talvez ele nem reconheça a gente, afinal a única foto nossa que mandamos para ele foi há mais de três anos, e vocês cresceram como trepadeiras desde lá.
— Será que ele é bonito? Por quê será que não nos mandou fotos dele e de sua professora?
— Parece que ela não o deixou fazer isso. Ela é uma mulher muito estranha, parece que os únicos que a viram na nossa família foram o seu pai, Hugo e o pai dele.
Juliana sentiu algo despertar no seu cérebro. Será que sua família também tinha algo a esconder do público? Por quê apenas aqueles três homens conheciam a tal professora, e por quê apenas Hugo fora treinado por ela? E por que ela estava se preocupando com isso afinal?
— Você sabe como é essa mulher?
Toninha bocejou e demorou a responder, parecia não se lembrar ou não querer revelar alguma coisa.
— Talvez seja melhor você conversar com seu pai sobre isso, afinal foi ele que a viu quando Martinho morreu. Que tal irmos dormir?
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