Capítulo 1 parte 2
Ele se levantou lentamente, estava exausto, seu corpo doía em vários lugares. Fênix ainda dormia na cama, tranqüila e nua como estava, nem de longe lembrava a fera incontrolável com a qual tivera que lidar por quase uma semana. Claro, tivera um prazer indiscritível, mas fora assolado por um grande medo em alguns momentos. Pelo menos aprendera que, afinal de contas, Fênix não era uma criatura desprovida de desejos e emoções como fazia todos acreditarem. Ao menos uma vez demonstrara desejo, agora ele sabia que pelo menos um pouco humana ela era.
Se dirigiu ao banheiro, que ficava no fundo da cabana, andava se apoiando no corredor. Escorregou para dentro da banheira, e abriu a torneira. Sentiu a água morna se avolumar ao seu redor. Adormeceu profundamente. Horas depois, acordou dentro de uma banheira cheia de água gelada. Pulou fora e se enrolou numa toalha, estava inacreditavelmente bem disposto. Reparou que havia folhas escuras grudadas no seu corpo e também dentro da água. Segurou uma delas e a espremeu, um líquido verde e gosmento escorreu pelos seus dedos, tinha um cheiro forte e acre. Seria alguma droga revigoradora, já que se sentia tão bem? Por que Fênix não lhe mostrara isso antes? Depois Hugo percebeu que ela não deveria mesmo lhe ensinar tudo o que sabia, isso talvez levaria a vida toda.
Ao se enxugar, a toalha ficou levemente verde, se olhou no espelho, preocupado. Mas não havia nenhum indício da gosma verde em seu corpo. Jogou a toalha no cesto e foi para o quarto. Queria pedir à Fênix que lhe ensinasse o uso daquelas folhas. Mas ao sair do banheiro, parou estupefato. A cabana estava completamente vazia, todos os móveis tinham sido retirados. O seu primeiro pensamento foi de que haviam roubado a mobília, mas afugentou a idéia imediatamente, Fênix poderia espancar uma dezena de homens se preciso fosse. Percorreu os cômodos da pequena cabana e em todos a situação era a mesma. Até as roupas que usara há uma semana foram levadas. Chegando no quarto, reparou em uma mala e uma bolsa que foram deixadas no lugar da cama, junto com um pequeno pacote onde se lia “Vista isso”. Dentro do pacote havia um par de sapatos, calça e camisa mais um smoking. Debaixo de tudo, um envelope cinza. Hugo vestiu-se e se sentou na mala, abriu o envelope[1]:
Gato,
Sinto ter que praticamente abandonar-te, pois também não tenho prazer em separar-me de ti. Mas, minha posição em certos círculos me impede de continuar ao teu lado, além de que, como já disse, tu tens que seguir teu próprio caminho.
Dentro da mala estão certos objetos que te auxiliarão em sua experiência no Brasil, mas não a abra ainda, deves examiná-la só em tua casa nova. Considere-a como um presente de formatura meu.
Na bolsa estão sua passagem para o Brasil, algum dinheiro e outras roupas para a viagem, e outros objetos de uso masculino.
Deves ir até Madri, e se apresentar à recepção do Hotel Plaza Madri, onde reservei uma suíte para ti. Peça para retirar um volume do cofre, deixado em seu nome. Deixei lá um outro presente para ti, um objeto que deves usar permanentemente a partir do momento em que tocares nele. Aconselho a chegares à Madri até amanhã à tarde, pois a droga que pus em seu banho perderá o efeito até lá. Chegando ao hotel vá direto para a cama, e descanse o máximo que puderes.
Como podes ver na passagem, saíras de Madri dentro de dois dias, tendo como aeroporto de destino Joinville. Reservei um quarto no Hotel Tanehoff, passarás a noite lá. De manhã, Sara irá levá-lo até a casa de seu tio. As despesas estão todas pagas, então aproveite o favor que estou lhe fazendo. Mas não te esqueças, estarás me devendo tais facilidades.
A partir de agora, Gato, lhe considero como um igual a mim, já que de qualquer forma não és mais meu aluno. Assim, quando tiveres sido entregue aos cuidados de seu tio, não estarei mais olhando por ti, mas não acredites que te esquecerei, dentro de alguns anos irei ter contigo para certificar-me de que aprendeste algo em tua vida solitária e saber quão firmemente teu treinamento ficou enraizado em seu ser.
Adeus,
Fênix.
Hugo dobrou a carta e a guardou no envelope, abriu a bolsa. Dentro tinha passagens, uma chave de quarto de hotel, perto de dez mil dólares em dinheiro, mais um pente, barbeador, creme de barbear, pares de meia, cuecas, um livro, uma agenda, perfume, outras duas calças e três camisas, uma caixa de preservativos e um relógio de pulso. O rapaz tirou o relógio da bolsa e o colocou no braço direito. Era um modelo de luxo, folheado a ouro. Num outro compartimento da bolsa, encontrou uma caneta de pena de prata e documentos. Entre eles havia o diploma de um colégio particular, muito conhecido na região onde treinara com Fênix. Hugo, obviamente, sabia que o documento era falso, entretanto, não duvidou de sua autenticidade. Talvez ela tenha feito algum acordo com um dos diretores do colégio. Num histórico anexo, percebeu que fora um aluno bem normal, com notas apenas passáveis.
Sorrindo, calçou os sapatos. Como responderia se alguém lhe perguntasse sobre seus estudos? Claro havia estudado Física, História, Espanhol, Português e Matemática, mas não sabia qual era o esquema de ensino daquele lugar. Imaginou que bastaria dizer “Estudei na Espanha, em tal colégio”, seriam muitos os que gostariam de saber mais? De qualquer maneira, já era tarde demais para pensar nisso. Jogou o envelope com a carta de Fênix dentro da bolsa e saiu da cabana.
Pegou a estrada que descia até a cidade e num determinado ponto, notou que um pássaro o acompanhava, não reconheceu a espécie, mas indubitavelmente era uma ave de rapina. Tinha um vôo elegante e preciso, pousou numa árvore próxima e ficou observando-o, Hugo se aproximou cuidadosamente. Queria examinar melhor o animal; tinha o bico curto e curvado, a cabeça era pequena , as garras fortes e longas e as penas pareciam pequenas escamas de cor fogo e algumas em tons de azul. Súbito o animal pulou em cima dele, sentiu as garras rasparem seu peito e, antes que pudesse reagir já tinha alçado vôo novamente. Hugo passou a mão pelo peito e percebeu pequenos cortes e arranhões, além de que foi-lhe retirado a corrente que trazia ao pescoço desde a morte de seu pai. Teve vontade de jogar uma pedra no pássaro, mas este já estava longe. Deu um soco na árvore e continuou andando, mais desanimado agora, em direção à cidade. Tinha a impressão de ainda estar sendo observado pelo pássaro, uma impressão que não lhe abandonaria até o fim de seus dias.
[1] Como Hugo e sua professora mantinham entre si um idioma próprio e único, entenda-se que a carta escrita por ela foi “traduzida” para o idioma corrente neste livro (este assunto será abordado novamente num capítulo posterior).
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