O sol batia forte no seu rosto e Pedro se virou para o outro lado.
— Pai, é certo que ele vem hoje? já é quase de noite e nada.
— É o que dizia na carta filha. E não é tão tarde assim, são só três horas.
— Acho que exagerei, mas ele devia estar aqui há horas. A gente devia ter buscado ele no aeroporto.
— É. Mas ele não iria nos reconhecer de qualquer jeito. Seria inútil.
Juliana se remexeu na cadeira, tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar esperando alguém que não chegava nunca. Queria estar em qualquer outro lugar do mundo. Levantou-se e saiu.
— Eu vou dar uma volta.
— Peraí que eu vou junto. - Zequinha pulou do sofá e seguiu a irmã mais nova. Somente Thabita ficou junto ao pai.
— Você não vai também?
— Para arranjar outro cafajeste como o Alfredo? Não, obrigada. Mas pode ser que este meu primo seja bonito, então eu vou dar uma avaliada nele.
— E se ele for bonitão, vai pular em cima dele?
Thabita sorriu e abraçou o pai, que olhava pela janela.
— Hoje, ele deve estar cansado da viagem, mas amanhã não tem escapatória.
— Nunca imaginei que você ia ficar tão tarada.
— O que é isso, pai? Eu estou brincando.
— Eu também. É pena que os dois descabeçados não ficaram aqui, eu queria que minha família ficasse unida nesses momentos. Mas não posso prendê-los.
— Não se preocupe, ele deve entender. Enquanto ele não chega, que tal me explicar por que ele ficou estudando na Europa, e quem é essa tal professora dele.
Pedro olhou bem dentro dos olhos da filha e falou seriamente.
— Juliana é que pediu para perguntar isso, não?
— Sim, mas é uma duvida que está na cabeça de nós três.
Pedro se desvencilhou da filha e sentou numa poltrona da sala. Ficou sério e calado por um bom tempo.
— Pouco antes do seu tio falecer, fui chamado à Espanha para cuidar de parte de seus bens, já que eu era o único parente dele com vida, além de Hugo, que tinha nove anos na época. Lá fiquei sabendo que o rapaz estaria aos cuidados da tutora que Martinho havia escolhido. Eu pensei “Tudo bem, Martinho sempre foi exigente em tudo e deve ter escolhido alguém de confiança para tomar conta do guri”, mas quando olhei para a mulher tive vontade de recusar e trazer o garoto comigo. Mas não consegui.
— Por quê
— Bom, a mulher tinha um nome estranho, Fênix, eu acho. E usava uma máscara na cara. Perguntei pelo Hugo e ela me disse que o rapaz iria com ela, por que já estava acertado. Pra falar a verdade não sei o que aconteceu direito, a voz da mulher parecia entrar no fundo da minha alma.
— Ela te ameaçou? Ou tentou te intimidar?
— Isto é uma coisa que nunca entendi direito, Thabita. A tal Fênix simplesmente me pediu para deixar o garoto com ela, e eu o deixei. Perguntei a ele o que achava daquilo e respondeu que tudo bem, ele iria com a mulher. Então não pude fazer nada.
— Mas a criança só tem direito de escolher por si mesma aos doze anos.
— Isto é aqui no Brasil, eu não conheço as leis da Espanha. E depois, eu não tive mais coragem de contestar a Fênix.
Pedro olhava para o chão e um silêncio mortal caiu na sala, quebrado apenas pelo som de alguém batendo na porta, segundos depois. Thabita abriu a porta e uma moça loira, muito bonita e sorridente. Ela falou calmamente e com uma certa felicidade na voz:
— Aqui é a residência de Pedro Antunes Rocha?
— Sim, quem deseja falar com ele?
— Eu só vim entregar um certo dorminhoco, parente dele, Hugo Mateus Rocha. Acredito que vocês o estão esperando.
Thabita informou o pai e os três foram até o carro, Hugo tinha recostado o banco e estava dormindo pesadamente. Foi necessário sacudi-lo várias vezes para acordá-lo. Enquanto não se levantava do banco, Thabita conversava com a mulher que o trouxe.
— Então você o carregou de Joinville até aqui?
— Sim, fui paga para isso.
— Interessante, e por quê ele está tão cansado?
A moça sorriu e hesitou por algum tempo.
— A viagem foi longa e cansativa, garota. Ele está esgotado, coitado.
Hugo se levantou e saiu do carro, espreguiçando-se e bocejando. Pegou as malas e as colocou na calçada. Pedro o abraçou e os dois quase caíram, Toninha vinha ao encontro deles e abraçou os dois, beijou Hugo na face e os três começaram a tagarelar como velhas comadres.
Thabita ficou observando-os por alguns momentos e retornou a conversa com a loura.
— Como é seu nome, garota?
— Sara Collins, pai americano e mãe brasileira.
— E você sempre leva dorminhocos no seu carro?
— Como disse, eu fui paga para isso. Desculpe, mas já que o garotão está entregue, eu tenho que me mandar.
Sara chegou-se à Hugo e o beijou, enfiou um cartão em seu bolso e disse ao seu ouvido:
— Foi incrível, se precisar de mim me telefone.
— Tudo bem.
Ela entrou no carro e saiu em alta velocidade, Hugo ficou olhando o carro sumir na curva. Pedro bateu no seu ombro e comentou-lhe que nunca tivera tanta sorte assim e que Hugo deveria agarrar aquele pedaço de mau caminho com unhas e dentes. O rapaz sorriu e pegou as malas, Pedro quis ajudar mas foi impedido pelo sobrinho. Thabita ainda estava desconfiada de Sara mas logo esqueceu tudo, por algum motivo seu primo conseguia chamar sua atenção de uma maneira incomum e constante.
Durante o jantar Hugo foi praticamente obrigado a contar sua história para seus anfitriões, desde que fênix o viu pela primeira vez até suas opiniões pessoais sobre a comida espanhola e o clima catarinense. Quando foi se deitar estava zonzo e dolorido, caiu como uma pedra na cama e desejou ter algumas das folhas verdes que Fênix havia posto em seu banho, assim se recuperaria mais depressa. Fechou os olhos e dormiu.
— Hugo, Hugo, acorde, seu preguiçoso. Já são nove da manhã.
Abriu os olhos lentamente e reconheceu a figura de Toninha lhe sacudindo. A princípio não entendeu o que ela lhe falava, ainda não se acostumara ao português.
— Ze nîst?[1]
— Ainda está dormindo, rapaz? Acorde, moleque!
— Desculpe, já estou acordado. Que horas são mesmo?
— Nove horas.
— Não é possível, eu mal fechei os olhos.
— Isso não importa, vista-se e acompanhe o seu tio, ele vai lhe mostrar seu trabalho aqui no Brasil. É serviço sujo e pesado, trabalhar com motor de automóvel.
Toninha saiu do quarto e Hugo se levantou, colocou uma calça e camisa e também saiu do quarto. Foi até a cozinha e comeu alguns sanduíches. Pedro o encontrou e já repreendeu-o:
— Caramba! Você dorme hein, rapaz? Se fosse meu empregado já estaria na rua, com certeza. Mas para sua sorte sou um patrão generoso e vou deixar que trabalhe na minha oficina por mais algum tempo.
— Que é isso, Pedro. O rapaz ainda nem sabe o que vai fazer. - Toninha, que estava na cozinha também, retrucou com o marido.
— Está certo, está certo. Desculpe, Hugo, depois do almoço vamos conhecer minha oficina, termine de tomar café e visitaremos a cidade. Tudo bem que não há nada para ver aqui mas eu te levo nas belezas naturais. O que você acha?
— Parece interessante.
Hugo foi arrastado para todo canto da cidade e depois para a oficina do tio, que era um bom ponto na cidade vizinha, com vários equipamentos e muitos carros para consertar.
— Aqui é onde você vai trabalhar, sei que não entende nada de motores e que vai ser difícil para você, mas vai ter que começar de baixo. Vou designar um dos mecânicos mais experientes para ser seu professor, acho que logo vai poder consertar um bloco de cabeçote. Fênix me disse que você aprende rápido.
— É o que ela me dizia.
— Josué, vem cá.
Um homem baixo e magro, com aparência de cachorro com fome se aproximou deles.
— Josué, este é meu sobrinho, vai trabalhar conosco. Quero que lhe ensine tudo o que sabe.
Josué o puxou pelo braço e lhe mostrou uma ferramenta.
— Muito bem meu filho isto aqui é uma chave de boca e ...
[1] “— O que acontece?” na língua falada por Fênix e Hugo na Espanha, a qual ela chamava de “zal linr”, cujo significado em português é “língua antiga”. A linguagem também era chamada de nimrodiana por Fênix, mas mais raramente.
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