domingo, 31 de julho de 2011

Nimrods, capítulo quatro, parte um

Alea jacta est.
“A sorte foi lançada”
Palavras atribuídas à Júlio César ao atravessar o Rio Rubicão,
avançando sobre Roma com suas legiões, em represália ao
rebaixamento do seu posto de general provinciano

Capítulo Quatro
Fuga

Hugo sentiu-se envergonhado quando ela entrou no quarto, teve vontade de se esconder e não ter que encarar o  olhar daquela mulher. Infelizmente, não podia se mexer com metade do corpo engessado. Foi obrigado a olhar o rosto coberto e frio de Fênix e engolir o que lhe restava de orgulho. Tentou falar e explicar sua situação, mas ela o silenciou com um gesto típico. Perguntou-lhe no idioma que usavam na Espanha.
— Foi para isso que tu gastaste nove de teus anos comigo? Então teu treinamento se transformou em um considerável desperdício de tempo. - Ela falava calmamente, mas com um desprezo palpável - Sei que os atacantes foram apenas seis homens. Eles deviam estar aqui no teu lugar e não o contrário. Não o treinei para isso, Gato. Quero ouvir de tua boca o que te aconteceu.
Ela parou aos pés da cama e ficou de braços cruzados, encarando-o nos olhos. Hugo ficou em silêncio pedindo clemência  com o olhar, mas ele sabia que não adiantaria ficar quieto.
— Há uma semana, eu estava voltando da casa de uma colega minha, quando passei por um terreno abandonado. Escutei o barulho de luta e gritos. Fui verificar o que era; seis homens estuprando uma mulher. Pulei sobre eles, espalhando-os. Eles se assustaram e ficaram ao meu redor. Eu estava atento a todos os seus movimentos, quando a mulher acordou. Então aconteceu uma coisa estranha, eu tive um momento de inconsciência. Então senti um golpe forte nas costelas, um na perna e outro na cabeça e perdi os sentidos. Acordei aqui no hospital há um dois dias.
— Sabes o que aconteceu com a mulher?
— Foi arrastada dali e estuprada em outro lugar. Jogaram-na numa valeta depois.
Fênix puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama, cruzando as pernas.
— Ao que parece, tu estás alcançando a verdadeira maturidade, Gato.
— Como assim maturidade? Eu já sou adulto há tempos. Fazem anos que deixei de ser teu aluno.
— Apenas três anos e tu falas como se fossem muito. Digo que para ti e para mim isto é como um segundo para os mortais comuns.
— E não somos mortais comuns?
— Tu sabes muito bem o que sou, e tu és como eu.
— Definitivamente, não sou como tu.
— Tu nem sabes o que és e queres julgar a ti mesmo. Para provar, vou listar algumas coisas que talvez estejam acontecendo contigo, quero que me confirmes se é verdade.
A mulher silenciou, como que esperando uma resposta do enfermo. Levantou-se e andou de um lado para outro no quarto quando começou a falar.
— Tu tens sofrido de constantes cefaléias, teus caninos se pronunciam, consegues enxergar em ambientes pouco iluminados, tens uma facilidade anormal com as mulheres, teu olfato melhorou e a audição também. Há uma mancha em forma de serpente em seu peito esquerdo. Tudo o que eu lhe disse é verdade, não?
— Sim, tens razão sobre tudo.
— Então, agora acreditas que és especial?
— Acho que sim. Não tenho certeza. Como tu podes saber de tudo o que acontece comigo?
Fênix sentou-se na beirada da cama e Hugo pensou que pela primeira vez a veria sorrir, mas o rosto de Fênix continuou duro como sempre. Ela pousou a mão esquerda no gesso da perna do rapaz e o mirou nos olhos.
— Não penses que eu não sabia quem tu eras quando teu pai entregou-te a mim. Já naquele tempo tu tinhas a aura característica dos nimrods. Por isto não te recusei, desde aquele dia eu soube que tu serias o meu último pupilo, pois naquele momento conquistaste meu amor. Eu te amo, Gato, mas como sabes, não da maneira que os homens conhecem. Eu te amo como te amo e assim será até o fim dos tempos.
Novamente, a mulher surpreendera seu pupilo. Apesar da declaração, as palavras de Fênix foram ditas com uma total indiferença, o que fazia Hugo pensar se ela estava sendo sincera. Entretanto, tudo o que a mulher fazia era mortalmente sério e nunca havia mentido a ele, apesar de o rapaz não acreditar em algumas coisas, como a idade da própria. Um tanto confuso, tentou conseguir um desvio na conversa.
— Fênix, tu disseste que eu tenho a aura dos nimrods. O que são nimrods?
A mulher pareceu hesitar, mas começou a falar na voz firme e bem compassada a que Hugo se acostumara na Espanha.
— Há um grupo de pessoas que são como nós, Gato. Pessoas que vivem praticamente à margem do mundo. Elas não envelhecem e não ficam doentes. Em geral são muito velhas. E a cada ano aparecem mais e mais nimrods. Leia na Bíblia, livro do Gênesis, capítulo dez, versículos oito a doze. Parece-me que a mulher que tentaste salvar é uma nimrod também. É comum entre nós sentir algum mal estar ao se encontrar com outro nimrod pela primeira vez.
Uma enfermeira entrou no quarto, anunciando o fim do horário de visitas e Fênix deixou o recinto, dizendo:
— Esta noite virei buscá-lo, Gato. Prepara-te.
A enfermeira, uma garota morena de lindos olhos negros, não entendeu nada, mas se despediu cordialmente de Fênix, e se voltou para Hugo, com uma cartela de comprimidos na mão.
— Muito bem, moço, é hora do seu remédio. Espero que queira tomá-los.
— E eu poderia evitar isso, Andréa? - Ele respondeu com um sorriso que fez Andréa sentir um arrepio na espinha, Hugo percebeu a alteração da moça, mas não comentou nada.
— Nem se você estivesse com plena saúde me impediria de realizar meu trabalho.
— Que perigo de garota!
— Ainda não viu nada. Tome, engula seus comprimidos. - Ele lhe pegou os comprimidos da mão e os engoliu, mas apesar de não estar mais sorrindo, Andréa continuava com a sensação de um arrepio na espinha. - O que conversava com aquela mulher?
— Está com ciúmes? Não se preocupe, discutíamos o meu futuro, nada de mais.
— Se seu futuro não é nada demais, então tenho pena da mulher  que vai se casar contigo.
— Acredito que Fênix não deixará, que eu me envolva com alguma mulher de agora em diante. - Devolveu o copo à moça, que o deixou cair no chão.
— Céus, que desastrada eu sou!- Pegou o copo e completou: Acho que é você que me deixa assim. - Inclinou-se para beijá-lo, mas ele a impediu, colocando o indicador nos seus lábios.
— Sinto muito, mas será melhor para você que não faça isso. Você é uma enfermeira e não devia se envolver com os pacientes.
Andréa corou e saiu em disparada do quarto, entrou no primeiro banheiro que viu e sentou num vaso. Começou a chorar, mas logo se recompôs. Não iria perder a compostura por um rapazinho daqueles, e daquela hora em diante o trataria com o merecido desprezo. Quando voltou ao quarto dele, mais tarde, para a refeição, se viu impedida de beijá-lo novamente. O que estaria acontecendo com ela? Ao pedir à enfermeira chefe que colocasse outra para atender o rapaz, foi novamente surpreendida:
— De novo? Você já é a terceira que me pede isso! Será que esse rapaz tem um pinto de ouro, meu Deus? Amanhã vou por um rapaz prá cuidar daquele corredor.
Andréa agradeceu e saiu da sala. Anos depois, casou-se e teve filhos, mas nunca mais sentira um arrepio de prazer como o que sentira quando falava com aquele rapaz enfermo.

Fênix  dirigiu-se ao balcão de informações do hospital e perguntou pelo médico responsável pelo tratamento de Hugo. A atendente se assustou, falando em seguida:
— É o doutor Cassius, o velho que está passando ali. - A mulher apontou um senhor de meia idade, totalmente calvo que estava andando devagar pelo corredor. Fênix trocou algumas palavras com ele e os dois foram para o escritório médico
— Seu pupilo, além de sorte, tem um organismo extremamente forte. É espantoso que já esteja consciente e lúcido. Normalmente, teríamos que entupi-lo de medicamentos, mas estamos apenas ministrando a metade geralmente usada. - Enquanto falava, Cassius tentava sondar o rosto frio e duro à sua frente, totalmente sem sucesso.
— Qual a extensão dos ferimentos?
— Ele teve três costelas quebradas, uma das quais perfurou o pulmão direito. O baço foi rompido, a bacia deslocada, pernas quebradas, e braço direito quebrado. Ele teve uma concussão na cabeça e delirou um pouco, mas isso já foi resolvido. - O médico deitou a ficha de Hugo na escrivaninha.
— E ele pode ser removido?
— Eu não poderia dizer que sim, mas o organismo dele está se recuperando muito bem. Eu o deixaria aqui mais uma semana, caso ele tenha uma recaída.
— Hugo teria que me acompanhar em certos afazeres em São Paulo no máximo até amanhã.
— É uma pena, mas creio que terão que ser adiados.
— Sim, é uma infelicidade. - Fênix pareceu hesitar por alguns momentos - Doutor Cassius, gostaria de ver a mulher a quem meu pupilo tentou ajudar.
O médico suspirou fundo e se esticou, depois disse:
— Normalmente evitamos até que parentes menos próximos visitem a vítima nestes casos, entretanto, seu garoto quase morreu tentando ajudá-la e acredito que podemos abrir uma exceção. Siga-me.
Saíram do recinto e foram andando pelo corredor, desviando de doentes em pé ou sentados no chão. Cassius reparou que todos olhavam para sua acompanhante, fosse com admiração, ou por medo. Quase todos se afastavam da mulher como se ela, além da máscara, trouxesse consigo a sombra de algo extremamente perigoso. Ele mesmo não se sentia à vontade ao lado dela, tinha vontade de deixá-la com outro médico para que visse a mulher, tentou diminuir a sensação incômoda de estar sendo avaliado puxando alguma conversa:
— Sabe, não costumamos receber pessoas mascaradas aqui, nem sei como lhe deixaram entrar, já que está usando essa máscara...
— Uso esta máscara por razões que tu não entenderias, sendo um homem deste tempo. - Fênix cortou a frase do médico num tom de desprezo que chegava a ser palpável. Não houve mais conversa até chegarem ao quarto onde a outra vítima do incidente se encontrava.
— Como está ela?
Cassius se sentiu tentado a não responder, mas a força na voz da mulher era tal que ele puxou a ficha médica e começou a explicar a situação da enferma:
— Múltiplas lesões e hematomas pelo corpo, fraturas na perna esquerda, braço direito, pulso esquerdo. Ela foi tantas vezes estuprada que a vagina se rompeu e o ânus idem, também teve tufos de cabelo arrancados e há marcas de fortes mordidas nos seios e pescoço. Ela teve hemorragias terríveis e está viva por sorte.
— Não, não é por sorte que ela vive. Ela, com certeza,  é uma mulher especial. Já vi o que vim ver aqui. Podemos ir embora.
Ao fechar a porta do quarto, o médico sentiu a mão de Fênix segurar o seu ombro. A voz da mulher parecia rouca e com um eco longínquo, forte e decidida. Cassius sentiu um arrepio passar pela espinha e o estômago revirar.
— Há uma ainda uma coisa que tu farás por mim, Doutor Cassius.

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