quarta-feira, 13 de julho de 2011

Nimrods, capitulo três parte um

Quando você ouve o som dos aviões ao longe, carregando toneladas de bombas para jogar em cima de sua casa, matando sua mulher e sua família, você deseja que os malditos “aliados”, como eles se chamam, morressem todos. Assim a guerra terminaria e você poderia ficar tranqüilo, pois enquanto falasse alemão e estendesse o braço esquerdo para alguns idiotas uniformizados, ninguém lhe incomodaria.
É claro nem tudo são flores no jardim, o nazismo é um regime totalitário, e regimes totalitários são tolhedores da razão do governante, que geralmente se auto-transforma em juiz, júri, executor, confessor, sacerdote e mártir. É claro que a república também pode ser transformada em totalitarismo, e a monarquia... bem a monarquia é algo ultrapassado.
Por isto tudo é que eu estou indo para a América Central, lá poderei ficar longe de toda esta loucura e descansar, caçar alguma coisa e esquecer tudo isso que me aconteceu aqui na Alemanha......

Repensando as frases que pensei quando saí de minha terra natal percebo que fui um tolo precipitado. Aqui na Venezuela a situação foi piorando gradativamente, Paolo me exigiu um preço alto demais para voltar. Graças a Deus, meus contatos na Bavária não me esqueceram, assim quando retornar terei quase tudo de volta, emprestado, é claro.
Peço ao bom Deus que ELA nunca saiba da negociata que fui obrigado a fazer com Paolo, isto seria minha ruína, e eu não poderia repor o desfalque, porque perdi tanto aqui na América quanto perdi durante toda a guerra na Europa.
Que Deus me ajude. Eu preciso.

Helmut Marx, 1951


Capítulo Três
Ajuda urgente


Marx nunca havia imaginado o inferno. Acreditava que o demônio fora inventado pelo homem para amedrontar seus semelhantes. Mas agora, enquanto se irritava com motorista do jipe, que a cada solavanco soltava diversos impropérios, admitia estar enganado sobre muitas coisas, inclusive a sua própria versão de inferno e demônio. O Fhürer mostrou-se um louco megalomaníaco, que depois de afogar-se em sonhos distorcidos, suicidou-se, mergulhando a Alemanha em vergonha e ressentimento. Agora, Marx acreditava em demônios. Sua versão de inferno toma forma nesta maldita floresta subtropical nicaragüense. O calor, a umidade, e a ausência de vento transformavam a floresta em um caldeirão de óleo fervente, minando as forças e o espirito do homem. Quando o vento finalmente vem, a chuva vem no seu rastro, e a chuva tem um ânimo fora do comum em ficar naquele lugar. As estradas virariam um lamaçal grudento, os rios transbordariam e qualquer área plana se transformaria em um pântano insuportável.
Depois de cinco anos de tentativas, Helmut Marx finalmente conseguira, através de um amigo com certas ligações no submundo, embarcar em um cargueiro para o derradeiro retorno à sua querida Bavária. Isso, se os dois agentes da inteligência americana realmente tivessem se perdido em algum ponto da estrada. Depois de alguns minutos, o vilarejo que servia de aeroporto clandestino, surgiu em uma das dezenas de curvas. Conforme o combinado, Marx saltou do carro ainda em movimento, passou o casaco, o óculos e o chapéu para um rapaz que assumiu seu lugar no jipe. O carro arrancou espirrando lama dos pneus e derrapando nas curvas. Helmut praticamente pulou dentro de um dos armazéns e trinta e sete segundos depois, o jipe com os americanos passou como um raio pelo vilarejo, quase capotou na curva.
Madre de Dios! Você vai mesmo abandonar este paraíso? - Um rapaz baixo e gordo, com um forte sotaque espanhol em seu alemão. Estava comendo algo que lembrava uma galinha e tinha a camisa suja de gordura.
—Paolo, só para os sul-americanos isto - fez um gesto, mostrando o armazém ao amigo - pode ser considerado um paraíso. Desejo retornar à Europa, amigo, você sabe.
Hijo da puta! Vocês, europeus, são uns frescos. - Falou em espanhol, mas o germânico compreendeu perfeitamente. Não teceu nenhum comentário para não correr o risco de perder as negociações feitas até ali.
Paolo jogou longe os ossos que lhe sobraram na mão e arrotou homericamente, levantou e se coçou. Encheu um copo e bebeu depressa.
—Trouxe o combinado? Quero ver na minha frente, pois sabe que sou desconfiado.
— O maior interessado nisso sou eu, não sou? É claro que trouxe.- Marx limpou a mesa onde Paolo se sentava e depositou um alforje de motociclista do exercito alemão em cima. Abriu-o e retirou um pequeno pacote, enrolado em cintas de couro e jornal velho. O latino limpou as mãos num pano velho e cortou as tiras com uma pequena faca, desenrolou os jornais e segurou o objeto nas mãos trêmulas.
—É verdadeiro? perguntou com emoção na voz.
—Só há um destes no mundo e a muito custo foi conseguido pela minha família, gerações atrás.
— Muito bem, você cumpriu sua parte e eu devo cumprir a minha. Vamonos!
Paolo o guiou entre galpões malcheirosos e escorados com estacas, parando na frente de um dos mais malcuidados. Empurrou a porta e entraram, Tiveram dificuldade em achar um interruptor funcionando e o galpão ficou parcialmente iluminado quando Marx levou um choque numa chave com defeito. Paolo soltou uma gargalhada alta ao ver o salto que o alemão dera. No galpão, na verdade um hangar improvisado, tinha sido estacionado um pequeno avião monomotor. O piloto roncava sonoramente na cabine, engasgando e tossindo como um motor mal regulado. Paolo abriu a outra porta do galpão e Marx pôde ver uma das pistas clandestinas que os “homens de negócios” usavam naquela região. O alemão abriu a porta do avião e colocou a pouca bagagem que trouxera atrás do banco, acordou o piloto e se sentou no lugar vazio. Paolo parou ao lado da janela do aparelho e falou:
—Vocês vão fazer muitas escalas até Manaus, é uma viagem perigosa e até lá só contarão com Deus para lhes proteger. - tirou um dos colares do pescoço e o entregou à Marx - Fique com isto para lhe dar sorte. Foi do meu pai e ele morreu com noventa e dois anos, quando eu o tirei do seu pescoço.
O piloto ligou o avião e arrancou pela pista, repentinamente puxou o manche com violência, o aparelho pulou uma, duas vezes e então começou a subir, as rodas bateram nos ramos mais altos das árvores,  fez uma curva e ganhou a altura necessária para um vôo seguro.
—¿Hablas español?
—Falo um pouco, mas entendo bem.
— Se eu fosse você, jogava fora o colar.
— Por quê?
— Primeiro porque Paolo nem sabe quem é o pai dele, depois, ele dá um desses a cada um que despacha para o exterior, e também porque ele é um belo filho da puta.
— Bom, eu gostei do colar e vou guardar de lembrança daqui.- Sorriu e pôs o colar no bolso. Recostou-se no banco e adormeceu. A viagem prometia ser longa  e cansativa.

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